Um dos maiores baratos do mundo do vinho é a possibilidade de sempre aprender algo novo – embora alguns supercríticos discordem, pois parecem interessados só em ditar regras. E nunca faltam temas a descobrir, nem que seja algo que existe há 500 anos, como o Vinho Madeira.

Após palestra de Juan Teixeira, diretor geral e enólogo da Justino’s, uma das mais conhecidas produtoras de Vinho Madeira de Portugal – logo, do mundo –, ficou claro como esses rótulos de sobremesa são bem raros nas mesas dos brasileiros. Assim como o Vinho do Porto, outro tesouro enológico português, o Madeira surgiu por acidente. Para interromper a fermentação e estabilizar o vinho antes de embarcá-lo nas naus dos séculos 17 e 18, era acrescentada aguardente vínica ao líquido, o que conferiu características únicas à bebida.
A Ilha da Madeira, de geografia acidentada graças à ação dos vulcões, não permite o cultivo de grandes vinhedos. Ao todo, soma 400 hectares de parreirais. As principais uvas são Sercial, Verdelho, Boal, Malvasia e Terrantez, entre as brancas, e Tinta Negra, entre as de casca escura. Tão determinante na qualidade quanto as variedades usadas são os métodos de elaboração. Existem dois: canteiro, mais nobre, e estufagem, mais rápido. Ambos submetem o líquido a altas temperaturas, objetivo incomum no universo enológico. A prévia exposição ao calor, o longo envelhecimento e a acidez muito elevada transformam o Madeira em um vinho praticamente indestrutível, mesmo depois de aberto.
"Não há vinho que agüente mais a ação do tempo do que o Madeira", garante Teixeira.
Ouvir tudo isso diretamente de um produtor da ilha foi muito legal, mas o que o público queria mesmo era degustar os vinhos. E aí o representante da Justino’s não decepcionou. Apresentou três rótulos, começando com o Colheita 1998, feito de Tinta Negra. Os 125g de açúcar residual se fizeram perceber em aromas de caramelo e frutas secas. Mais complexo, o Boal 10 anos também lembrou açúcar queimado, mas trouxe ainda casca de laranja e maçã cozida ao olfato. Por fim, um Madeira feito de Terrantez com mais de 40 anos confirmou a longevidade de seus conterrâneos. Mais fechado no nariz, foi persistente e quente na boca – mais do que os anteriores, apesar de apresentar os mesmos 19% de graduação alcoólica. Meio seco, teria combinado bem com queijos ou canapés, mas sua vocação, assim como os demais, é mesmo ser harmonizado com sobremesas.
"É um tipo de vinho para ser bebericado", ensina Teixeira.
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