
Na década de 1990, a vitivinicultura brasileira era bem diferente da que conhecemos hoje. Até então, a indústria estava acomodada em um mercado fechado aos importados, focando boa parte de seus esforços em quantidade (e não em qualidade) e utilizando técnicas um tanto atrasadas no campo e nas cantinas. Nesse cenário, fazer vinhos que resistissem ao tempo não era um hábito entre as vinícolas. Isso não quer dizer que eles não tivessem os atributos necessários para atravessar os anos. Essa teoria foi comprovada na degustação vertical do extinto Baron de Lantier, safras entre 1992 e 1997, realizada ainda em 2011 e que estava quase esquecida pelo Enoblog. No entanto, revirando algumas anotações antigas, consegui recuperar as avaliações de cada uma das safras analisadas, e resolvi que era hora de compartilhá-las com os leitores.
Elaboradas pela multinacional Bacardi Martini do Brasil, as garrafas foram fornecidas pelo empresário e enófilo Afonso Golin, que mantinha as garrafas no acervo de seu restaurante. Os varietais (feitos de uma só uva) de cabernet sauvignon estavam em perfeito estado. A limpidez, a qualidade dos aromas e a condição no paladar chamaram a atenção de todos os sortudos que participaram do encontro. Devido à idade avançada, essas características não se mantiveram por muito tempo depois de o vinho chegar ao cálice. Mas a bebida permaneceu vívida por tempo suficiente para proporcionar uma experiência única a todos os participantes. Embarque na descrição ano a ano da degustação e faça uma viagem no tempo.
CRONOLOGIA ENOLÓGICA
Safra 1992 – Por ser o primeiro vinho degustado, carregava o peso da expectativa. Saiu-se muito bem. Impossível não se surpreender com o vigor do aroma de fruta madura e uma agradável nota de balsâmico. Escondia uma ponta de redução, mas muito sutil. Estava ralo na boca, mas muito equilibrado.
Safra 1993 – Mais potente no nariz, apesar de ter uma graduação alcoólica ainda menor do que o primeiro (11% contra 11,5% do anterior). Aliás, todos ficavam nessa mesma faixa, mostrando que muito álcool não é requisito para longevidade. Na boca, tinha taninos mais presentes, mas menos balanceados.
Safra 1994 – Estrela da noite, conquistou a todos com um buquê complexo que lembrava tostado e, sobretudo, frutas diversas. A percepção em boca foi extremamente agradável e conseguiu se manter assim por bastante tempo depois de aberto. De dar inveja a muito vinho jovem por aí.
Safra 1995 – No olfato, mostrou notas parecidas com as da safra 1993, mas sem a mesma pungência. Boa presença no fundo da boca, algo que não tinha surgido até então, mas de maneira geral estava curto e desequilibrado no paladar.
Safra 1996 – Talvez o mais complexo conjunto de aromas da noite, novamente com muita fruta, mas trazendo na carona um adocicado que lembrava chocolate ou um xarope difícil de identificar. Tudo isso teve de ser verificado rapidamente, pois teve pouca vida no cálice.
Safra 1997 – Bom ataque aromático, também misturando notas diversas. Bom corpo no paladar, com destaque para a acidez ainda bastante marcada e os taninos já bem redondos.
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