Alguém deve ter soprado no ouvido do governo federal que, historicamente, zonas de produção vitivinícola são cercadas de desenvolvimento econômico e social por todos os lados. Isso talvez explique os anúncios de investimento no setor dos últimos dias. Amanhã, por exemplo, o ministro interino de Ciência e Tecnologia, Luiz Antonio Rodrigues Elias, estará em Bento Gonçalves para assinar um convênio que promete destinar R$ 10 milhões à criação da Rede Tecnológica de Vitivinicultura. E na segunda-feira, R$ 2 milhões foram assegurados pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel para o fortalecimento do cooperativismo local.
No acordo que será firmado amanhã, o foco é a integração das instituições de pesquisa do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Pernambuco, a transferência de tecnologia às empresas e a captação de investimentos para projetos nacionais no segmento. Quem pilotará o sistema é o pesquisador José Fernando da Silva Protas, lotado na Embrapa Uva e Vinho (a rede tem ainda em seu comitê gestor a UFRGS, a Epagri-SC, o Itep (Instituto Tecnológico de Pernambuco) e a Embrapa Semi-Árido).
Já no anúncio feito na segunda-feira por Cassel, foram destinados cerca de R$ 1,3 milhão para a criação da Cooperativa Central Nova Aliança (Coocenal) e R$ 700 mil para a execução do programa de Assistência Técnica e Extensão Rural, voltado ao setor. O palco escolhido para a divulgação dos recursos foi a Cooperativa São Pedro, uma das cinco integrantes da Coocenal. Em frente de grandes pipas de vinho e diante de uma plateia de dezenas de agricultores, Cassel elogiou a iniciativa das vinícolas da região. Conforme ele, o ministério demorou a dar um retorno ao setor, mesmo diante da pressão de interlocutores da região, porque estaria estudando o projeto apresentado pela Federação das cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho).
"A gente debulhou o projeto, melhorando-o. Formar uma cooperativa com nova planta industrial não é uma coisa que se faz do dia para a noite. Pressupõe que se faça estudos de mercado, de funcionamento, de tecnologia. Esse R$ 1,3 milhão é para iniciar essa caminhada com firmeza para que, em dois anos, tenhamos uma nova planta industrial, funcionando a pleno e com boas perspectivas de mercado", argumentou Cassel.
Além dos recursos anunciados, que também exigem contrapartida de R$ 250 mil da Fecovinho, o ministro assegurou que a uva será incorporada no Programa de Garantia de Preço da Agricultura familiar (PGPAF) a partir do próximo mês. O PGPAF garante aos agricultores do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, em caso de baixa de preços no mercado, um desconto no pagamento do financiamento, correspondente à diferença entre o preço de mercado e o valor de garantia do produto. Na prática, isso significa que, se a safra do produtor tiver sofrido, por exemplo, com intempéries, o governo garantirá o pagamento do preço mínimo do quilo da uva em vigor.
O presidente da Coocenal e da Fecovinho, Alceu Dalle Molle, comemorou o anúncio. Segundo ele, o ministro atendeu a um anseio do setor e também das vinícolas que fazem parte do novo projeto. Além da São Pedro, integram a Coocenal as seguintes cooperativas: Linha Jacinto (Farroupilha), Santo Antônio (Flores da Cunha), São Victor e Aliança (ambas de Caxias do Sul).
"O importante desse projeto é a atitude das cooperativas em trabalharem fortes e unidas para fazer frente ao mercado. Os recursos anunciados vão servir, inicialmente, para estudos e para encaminhar o projeto de engenharia da nova cooperativa. A intenção é que ela atenda a todos os objetivos e cuidados em relação ao meio ambiente e tenha condições de exportar para todos os países" informa Dalle Molle.
Além dos recursos federais, a prefeitura de Flores da Cunha vai colaborar com a aquisição do terreno onde ficará a Coocenal. De acordo com o prefeito Ernani Heberle (PDT), o município viabilizou a compra da terra e só falta fechar a documentação. São 8,3 hectares na localidade de Lagoa Bela. O valor investido foi de R$ 1,3 milhão.
'Dá mais ânimo para continuarmos na produção de uvas'
Presidente da Cooperativa São Pedro, o produtor Lino João Pan não esconde a alegria diante da destinação de verbas do governo federal para o setor. Segundo ele, a vinda de recursos a fundo perdido deixa os produtores mais tranquilos para tocar o projeto da Nova Aliança. Pan explica que o objetivo principal da Coocenal é atender a pequena propriedade e também as cooperativas para que elas possam manter as famílias na zona rural.
"Essa doação dá mais ânimo para continuarmos na agricultura e na produção de uvas. Também tira uma preocupação que os dirigentes das cooperativas vinham tendo. É um projeto que ajudará a manter nossos jovens na colônia", explica.
A Cooperativa São Pedro já contabiliza oito décadas de existência. Conforme Pan, hoje ela possui cerca de 100 sócios. São produtores rurais que plantam, colhem e levam a uva até a unidade, que beneficia o produto e o transforma em vinho. Pan é um desses produtores. Sua propriedade tem 24 hectares e fica em Nova Pádua. Cinco deles possuem parreirais. A média de colheita por safra fica em torno de 120 mil quilos. A partir de 2011, Pan pretende investir também na produção de uvas orgânicas. Para isso, prevê destinar um hectare e receber assistência técnica do Ministério do Desenvolvimento Agrário para aprender tudo sobre como cultivá-las.
Com conteúdo de Vânia Espeiorin
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