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A maioridade da Avaliação Nacional

12 de outubro de 2010 0

Com um certo atraso, a publicação do artigo do presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Christian Bernardi, abaixo, fecha o tema da Avaliação Nacional de Vinhos 2010 aqui no Enoblog. Boa leitura.

O crescente desenvolvimento da qualidade dos vinhos brasileiros já é reconhecido por consumidores, críticos e profissionais do vinho de todo o mundo. Na história da vitivinicultura brasileira, considera-se o início do século passado como o marco inicial da indústria do vinho no Brasil. Justamente na Serra Gaúcha, com o estabelecimento dos imigrantes italianos foi possível conciliar a cultura e a economia de uma região e desenvolver um produto que até hoje é símbolo desta terra. Passaram-se mais de 100 anos e o vinho difundiu-se por todo o país.

Diferente fatores foram responsáveis por este crescimento de qualidade e expansão das áreas vitivinícolas pelo Brasil. Acima de tudo a capacidade e ousadia de pessoas que souberam explorar os terroirs deste imenso país e levar aos consumidores aromas e gostos capazes de satisfazer todas suas expectativas. Mas, além disso, há alguns eventos que servem como balizadores ao setor. Um destes é a Avaliação Nacional de Vinhos, que foi criada pelo próprio setor vitivinícola e atinge a 18ª edição como uma importante ferramenta para os produtores e é vitrine aos produtos brasileiros.

Criada em 1993 pela Associação Brasileira de Enologia, a Avaliação Nacional de Vinhos é um evento único, com distinção mundial pela sua estrutura e resultados alcançados. Apesar de ser difícil de mensurar, a ANV consolidou-se com uma verdadeira ferramenta de avaliação das vinícolas do Brasil. Há um crescimento das vinícolas, que submetem seus produtos a análise do painel de enólogos (mais de 75 profissionais avaliadores) e, assim, têm um panorama do desempenho de seus produtos naquela vindima. Além disso, a ANV também apresenta a evolução das regiões vitivinícolas brasileiras; a cada edição novas regiões despontam com qualidade de seus vinhos.

Por fim, mas não menos importante, consolidou-se neste evento a participação de um público cativo de consumidores que vêm a Bento Gonçalves, todos os anos, para esta "pré estréia" dos vinhos da safra. Trata-se de uma possibilidade que os apaixonados por vinho têm de visualizar as tendências e estilos de vinhos que irão para o mercado na sequência. E, igualmente, saber quais vinícolas e regiões estão despontando no cenário brasileiro.

Essa é a Avaliação Nacional de Vinhos, que há 18 anos é referência na vitivinicultura brasileira, graças a todas pessoas, vinícolas, entidades e apoiadores que transformam a arte de elaborar vinho num evento grandioso.

Troféu Vitis para os amigos do vinho

04 de outubro de 2010 0

Por suas contribuições para a divulgação e o desenvolvimento dos vinhos nacionais, o médico Jairo Monson de Souza Filho (esq.) e o engenheiro agrônomo Luiz Antenor Rizzon (centro) receberam o Troféu Vitis, o primeiro como Amigo do Vinho Brasileiro e o segundo na categoria Enológico, durante a Avaliação Nacional de Vinhos. A honraria foi entregue pelo presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Christian Bernardi (dir.).

Avaliação da Avaliação

02 de outubro de 2010 0

Engana-se quem pensa que a Avaliação Nacional de Vinhos é uma festa apenas para enólogos e empresários do ramo. Participar do evento, que teve sua 18ª edição realizada no último sábado, é uma aula para qualquer amante da bebida, não interessa se ainda em fase de aprendizado ou experiente degustador. Além de registrar aquilo tudo que já foi publicado sobre o encontro, a coluna Enoteca ficou atenta a alguns detalhes que merecem ser compartilhados com os leitores.

EM GOLES
- Chamaram atenção os números apresentados pelo presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), Christian Bernardi, sobre o evento. Desde sua primeira edição, em 1993, a Avaliação Nacional já analisou mais de 3,7 mil amostras e somou plateia de 10 mil pessoas.
- A diversidade geográfica neste ano foi tão ampla quanto o espetáculo que misturou samba de gafieira, chula e forró no intervalo do evento. Além da Serra, a Campanha, os Campos de Cima da Serra e os Estados de Santa Catarina, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia tiveram amostras incluídas entre as melhores 16.
- É possível que em alguns casos os vinhos tenham sido selecionados mais pelo fato de serem de novas áreas produtoras do que pela qualidade. E qual o problema? A "expansão do Brasil vitivinícola", como colocou Bernardi, é um feito que merece ser celebrado e difundido.
- O grande número de amostras condecoradas combinado com a inclusão entre os 16 vinhos mais representativos da safra 2010 tornou a festa especial para quatro grandes vinícolas: Miolo, Perini, Salton e Valduga. A Salton foi a que mais levou prêmios como marca única (11). A Miolo, porém, bateu essa barreira ao somar os resultados de suas diferentes grifes _ Miolo, Ouro Verde, Seival, Rasip e Almadén chegaram a 17 citações, sendo que três produtos ficaram entre os 16 melhores. O mesmo aconteceu com a Valduga, que levou sete prêmios mas não foi citada individualmente entre os mais representativos. Chegou lá por meio da Domno.
- O vinho com melhor pontuação entre os que foram degustados juntamente com o público (87,5 pontos) foi o Moscato R2, da Perini, produto da categoria branco fino seco aromático que, sob a marca Jota Pe, chega ao consumidor por menos de R$ 10. Preço nem sempre é sinônimo de qualidade.
- Entre as novatas, houve muita comemoração em torno da Góes & Venturini e, sobretudo, da Almaúnica, que já em sua primeira Avaliação Nacional teve três vinhos premiados, um deles escalado para o time dos 16 melhores.

Os vinhos que representam o melhor da safra 2010 no Brasil

27 de setembro de 2010 0

Depois de degustar os vinhos que mostram o melhor da safra 2010, sempre fica aquela curiosidade para saber quem os produziu. Pois bem, abaixo estão as 16 amostras que estrelaram a 18ª Avaliação Nacional de Vinhos, juntamente com a descrição sensorial de cada um, elaborada a partir das impressões dos enólogos que fizeram a análise de todos os concorrentes. Boa leitura aos enófilos:

CATEGORIA: VINHO BASE PARA ESPUMANTE
Amostra 1 - Domno do Brasil, Chardonnay: Coloração de intensidade média, tonalidade palha com tons esverdeados. No nariz é fino, nítido, predominando as notas de cítrico e maçã verde. Também surgem, em menor intensidade, notas de pera, abacaxi maduro, leveduras e frutas brancas. O paladar é fi rme e marcante de acidez (adequada para a categoria), agradável, com médio corpo e estrutura. O sabor repete as notas de cítrico, com retrogosto de frutado prolongado.

Amostra 2 - Vinhos Salton, Chardonnay/Pinot Noir: coloração brilhante, tonalidade palha com reflexos esverdeados. Aroma de média intensidade, predominando as notas de frutas cítricas e maçã verde. Aparecem também, sutilmente, notas de abacaxi, floral e um leve tostado (amêndoas). No paladar destacam-se a acidez marcante e o frescor de sabor. O corpo é médio, com retrogosto harmônico e ligeiro.

CATEGORIA: BRANCO FINO SECO NÃO AROMÁTICO
Amostra 3 - Vinícola Ouro Verde, Chenin Blanc: coloração de intensidade média-forte, tonalidade amarelo palha. Aroma de média intensidade, proveniente de uvas maduras, predominando as notas de frutas cítricas, abacaxi, melão e amêndoas (intenso). Paladar com um ataque levemente doce, com bom corpo, volume e estrutura. A acidez é equilibrada; apresenta longa persistência de sabor e sutil amargor.

Amostra 4 - Vitivinícola Santa Maria, Chenin Blanc: coloração de intensidade média-fraca, tonalidade palha, clara, pálida. Aroma de intensidade média-forte, fi no, delicado. Aroma com notas de carambola (intenso), maçã verde, pêssego, frutas cítricas, fl ores brancas (jasmim) e suti l nota vegetal. No paladar é marcante um ataque ácido, refrescante - do ácido málico, toques minerais; é elegante, nítido, de bom volume e extrato. Apresenta muito boa persistência de sabor.

Amostra 5 - Cooperativa Centra Nova Aliança, Chardonnay: coloração brilhante, intensidade média-forte, amarelo palha com reflexos dourados. Aroma complexo, fino, com notas de mel, frutas maduras, sutil goiaba, fruta do conde, carambola, melão, abacaxi, butiá e flores brancas. Apresenta pequena nota de baunilha, no nariz e em boca. O paladar guarda certa doçura, com um toque de salinidade. A acidez é correta; tem uma boa potência, volume e estrutura. A persistência é média-alta.

Amostra 6 - Casa Venturini, Chardonnay: coloração de média intensidade, amarelo palha, esverdeado. Aroma de média-alta intensidade, nítido e fino. Destacam-se as notas de flores brancas, como o jasmim, banana (intenso), amêndoas, mel, carambola, abacaxi, maracujá, aspargos/arruda. Sabor com ataque ligeiro, equilibrado, de média estrutura. Paladar levemente agulha (CO2), refrescante, de muito boa persistência e retrogosto agradável.

CATEGORIA: BRANCO FINO SECO AROMÁTICO
Amostra 7 - Casa Geraldo, Moscato Giallo: coloração amarelo palha, esverdeado. Aroma de média intensidade, delicado, predominando as notas de mamão papaia, frutas cítricas, floral, mel, arruda e frutas tropicais, como abacaxi e maracujá. O paladar é leve, fresco, com certa doçura, equilibrado no conjunto álcool/acidez. Tem uma média-alta persistência de sabor.

Amostra 8 - Vinícola Perini, Moscato R2: coloração amarelo esverdeado. No nariz, apresenta uma intensidade média-alta, predominando as notas de uva moscato, ervas-de-quintal, manjericão, lichia, batata-doce, flores de laranjeira, mel, capim-cidreira e pêssego. No paladar tem um ataque levemente doce, é fino, elegante, equilibrado em acidez. Tem uma boa estrutura e volume de boca. No final tem suti l amargor, com retrogosto agradável e boa persistência.

CATEGORIA: ROSÉ SECO
Amostra 9 - Vinícola Almadén, Cabernet Sauvignon: coloração vermelho claro, de tonalidade cereja/morango. Apresenta um aroma de intensidade média, é fino, jovem e delicado, lembrando framboesa, calda de cereja, morango, algo de lácteo e sutil broto de tomate (vegetal). O sabor é leve, nítido, com um ataque ligeiro, um toque doce, tendo média estrutura e moderado conteúdo de álcool. Apresenta média intensidade de acidez e média persistência de sabor.

CATEGORIA: TINTO FINO SECO JOVEM
Amostra 10 - Rasip Agropastoril, Pinot Noir: coloração de intensidade média, vermelho rubi. O aroma é de média intensidade, complexo, com traços de amêndoas, feno, cassis e toques de madeira - especiarias, baunilha e chocolate. O sabor é equilibrado; estando pronto para consumo. Apresenta acidez média-baixa, médio volume de boca e certa pungência de gosto, do elevado teor de álcool. Os taninos são macios e elegantes.

CATEGORIA: TINTO FINO SECO
Amostra 11 - Cia Piagentini de Bebidas, Cabernet Franc:
coloração intensa, vermelho escuro, com nuanças de violáceo. Aroma de boa intensidade, de frutas vermelhas e frutas negras, amora, cassis, carvalho tostado, café, sutil vegetal e mentol. No paladar tem uma entrada macia, com ataque doce; tem um bom volume e estrutura, com taninos potentes. Guarda ainda uma certa adstringência, com acidez média-alta. Apresenta bom equilíbrio de gostos e uma média persistência.

Amostra 12 - Vinícola Valmarino, Cabernet Franc: cor intensa, vermelho violáceo. Intenso no nariz, predominando as notas de ameixa, pimenta-preta, herbáceo, pasto seco, alecrim, eucalipto e ervas (temperos). Também apresenta descritores de torrefação, café, coco e, sutil, pimentão-verde. Em boca é redondo, equilibrado (na relação carvalho/estrutura); tem bom volume e médio-elevado corpo. A acidez é equilibrada e os taninos macios. Tem uma ótima persistência de sabor.

Amostra 13 - Vinícola Dom Cândido, Marselan: coloração vermelho violáceo, intenso. Aroma de intensidade média, com notas de geleia, mel, frutas secas (passas) e especiarias - canela, pimenta e chocolate. O sabor tem um ataque doce, acidez correta, é potente, com taninos macios, aveludados e maduros. Tem um rico extrato, bom corpo e boa persistência.

Amostra 14 - Seival Estate, Merlot: coloração intensa, vermelho rubi, com nuanças violetas; lágrimas grossas e duradouras. Aroma de média intensidade, delicado, nítido, lembrando frutas vermelhas maduras, compota, geleia, baunilha, hortelã, feno e noz moscada. Paladar com ataque doce, fino, com taninos redondos. A acidez é marcante, tendo um bom volume, estrutura e corpo. Sutil amargor no final de boca; persistência de sabor média-alta.

Amostra 15 - Vinícola Santo Emílio, Cabernet Sauvignon: coloração intensa, tonalidade vermelho rubi, com leves toques de violáceo/lilás. Aroma de média intensidade, agradável, com notas de amora, pimenta, coco, toques de café, baunilha e sutil vegetal. Gostos equilibrados, paladar de bom volume, de certa doçura, harmônico, taninos marcantes e macios - com bom potencial de evolução. O sabor é bastante persistente, de excelente retrogosto.

Amostra 16 - Vinícola Almaúnica, Cabernet Sauvignon: coloração intensa, vermelho rubi com tons violáceos. O aroma é intenso, elegante, com notas de cereja, framboesa, jabuticaba, amora e especiarias _ baunilha, coco queimado, caramelo, cravo-da-índia; algo de manteiga. O paladar é equilibrado, acentuando-se as notas de especiarias e chocolate; tem excelente corpo e estrutura. Apresenta-se potente de sabor/álcool, com taninos maduros e intensos. Média-alta persistência no retrogosto.

Safra 2010 saiu melhor do que o esperado

27 de setembro de 2010 0

Ainda que a última safra de uva tenha apresentado uma queda de qualidade em relação a vindimas anteriores, o consumidor não precisa ter qualquer receio de comprar os vinhos brasileiros que trouxerem no rótulo a marca 2010. Pelo menos é isso que se conclui depois da 18ª Avaliação Nacional de Vinhos, realizada no sábado em Bento Gonçalves.

Depois de degustar as 16 amostras mais representativas, o público de aproximadamente 750 pessoas pôde perceber que se por um lado o excesso de chuva no último verão impediu resultados excepcionais, por outro não significou uma tragédia para a vitivinicultura nacional. A regularidade foi alcançada por meio do avanço técnico e tecnológico nas vinícolas e da aposta em novas regiões produtoras.

"O ano de 2010 foi muito difícil, não podemos considerá-lo como a melhor safra. Mas a enologia nos ensinou a obter bons produtos", considerou Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), em seu discurso de abertura.

Essa impressão foi avalizada pela pontuação e pelos comentários feitos por especialistas durante a degustação. As notas médias dadas pela mesa de avaliação (composta de enólogos, sommeliers e jornalistas, do Brasil e do Exterior) ficaram entre 84 e 89 pontos, numa escala que vai de 0 a 100 - em geral, produtos excepcionais recebem de 90 pontos para cima. Também chamou atenção a diversidade na procedência dos vinhos. Entre os produtos escolhidos para representar o trabalho que vem sendo feito desde o começo do ano - as amostras ainda nem foram engarrafadas -, há exemplares da Campanha, dos Campos de Cima da Serra, de Santa Catarina, do Nordeste e de diferentes áreas da Serra.

"É o ano que marca a expansão do Brasil vitivinícola", completou Bernardi.

Cálice de babel

19 de julho de 2010 2

Não foi somente por receber amostras de 15 países que o 5º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil, realizado semana passada em Bento Gonçalves, pôde ostentar o "internacional" em seu nome. Nas mesas dos avaliadores, a mistura de idiomas comprovava que o interesse pela enologia não tem fronteiras. Apenas na mesa em que eu me encontrava estavam três brasileiros, um francês, um italiano e um português (que, surpreendentemente, não teve de ouvir qualquer piada sobre os patrícios).

Ao todo, 11 nações estavam representadas entre os degustadores. Além de garantir o nivelamento do concurso com outras competições mundiais, essa pluralidade proporciona uma troca de experiências enriquecedora.

"Acontece um aprimoramento, pois alguém sempre apresenta maior sensibilidade, outros tem dificuldades. Há uma interação de conhecimentos em linhas específicas de cada produto, pois mesmo que as notas sejam individuais, sempre ocorrem discussões nas mesas", considera Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE).

Importados do bem

O que chama a atenção é que não foi preciso ir muito longe para buscar alguns desses participantes estrangeiros. Em diferentes esferas, muitos já integram a vitivinicultura verde-amarela. A maioria deles atua como enólogos, demonstrando um crescente interesse pelo potencial brasileiro mundo afora.

No universo do vinho, é bastante comum o intercâmbio entre profissionais de diferentes países. Mas no Brasil, segundo Bernardi, o que atrai vinhateiros de fora é, muitas vezes, o desafio de alavancar uma indústria ainda jovem e construir carreira.

E nem se trata de falta de mão de obra, situação que o setor conheceu entre as décadas de 1960 e 1970, quando multinacionais do ramo começaram a se instalar no Estado e tiveram de importar trabalhadores especializados. A isca hoje é o vislumbre de oportunidades.

Festa brasileira para vinhos internacionais

08 de julho de 2010 0

Pela primeira vez no país, degustações foram feitas com formulário digital

Muitas vezes acusada de tentar criar uma reserva de mercado contra os importados, a indústria vitivinícola nacional levantou bandeira branca nesta semana. Mais do que isso, promoveu com o 5º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil uma festa regada a 457 rótulos de 15 países, dos quais 137 foram premiados após passar pela avaliação de 55 degustadores brasileiros e estrangeiros. Mas, no final das contas, o grande vencedor foi mesmo o Brasil, seja por levar 70% das medalhas, seja por dar mais um passo rumo a sua consolidação no cenário mundial.

No jantar de encerramento, ontem à noite no Hotel & Spa do Vinho, o destaque entre os ganhadores nacionais foi a empresa Estrelas do Brasil, que com o Dall'Agnol Superiore 2005 levou um dos três grandes ouros entregues pelo concurso - o único nacional. Com o prêmio, a vinícola aponta uma nova direção no setor.

"Depois de consagrar tantos espumantes, a indústria tem um desempenho interessante com um tinto. O esperado seria um espumante sair vitorioso. Isso mostra a tendência das vinícolas boutique, de pequena produção mas grande empenho, o que resulta em qualidade diferenciada", analisa Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), entidade que promoveu a competição.

O grande número de medalhas para os brasileiros é explicado pelo fato de o país ter o maior volume de inscritos, o que, segundo Bernardi, é comum em eventos do gênero também em outras nações. Mas vale ressaltar que o processo de avaliação (às cegas, seguindo regras internacionais e com a introdução do formulário informatizado) foi o mesmo para todos os produtos. Um sinal do rigor das degustações é que França e Itália, países de forte tradição no setor, saíram do concurso sem troféus.

Depois do Brasil, Portugal e Argentina foram as bandeiras que mais levaram medalhas (veja quadro). Para o presidente da ABE, o interesse internacional pelo evento mostra o potencial do mercado brasileiro. De acordo com Bernardi, tratam-se de vinícolas que já introduziram seus rótulos no país e podem usar um eventual prêmio como ferramenta de marketing ou são empresas buscando uma comparação com os produtos negociados no país, já de olho no público local. Mas as vantagens não são só para os estrangeiros.

"Se por um lado isso vai contra a proteção do mercado nacional contra os importados, por outro mostra a luta para que as empresas daqui sejam competitivas em qualidade e preço em relação às do Exterior", afirma.

Clique aqui para ver a lista completa dos vencedores

O terceiro ciclo do vinho no Brasil

06 de junho de 2010 0

O cultivo da uva no Brasil se expandiu pela mão de imigrantes que há 135 anos chegavam da Itália com mudas embaixo do braço. A atividade foi sendo transmitida de pai para filho, sempre de forma muito mais intuitiva do que técnica, até que, em meados dos anos 1980, os filhos de agricultores começaram a sair do campo para buscar qualificação, dando início a um segundo ciclo do vinho no país. Ao voltar às propriedades de suas famílias com novos conhecimentos, os jovens profissionalizaram e modernizaram a cadeia produtiva. Agora que está consolidada, a vitivinicultura testemunha um terceiro movimento, no qual agentes sem qualquer tradição estão entrando no negócio, seja por paixão ou por enxergar nele uma boa possibilidade de lucros.

Apesar de fortemente influenciada pela maior região vinícola do Brasil, essa nova realidade não nasceu na Serra. Foi na zona de altitude catarinense que o modelo nacional de empreendedorismo enológico tomou força e hoje pode ser visto de forma mais clara. Vindo do setor cerâmico, Manoel Dilor de Freitas idealizou sua cantina no início dos anos 2000 e a construiu no município de São Joaquim, abrindo caminho para que colegas empresários apostassem na vinicultura para diversificar seus negócios.

"A Villa Francioni é precursora desse movimento", atesta Christian Bernardi, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE).

A vinícola hoje é comandada por Daniela Borges de Freitas, filha de Dilor, que morreu em agosto de 2004, pouco antes do lançamento dos primeiros rótulos da cantina.

"Meu pai se apaixonou primeiro pela região, e depois pesquisou que culturas se adaptariam à altitude. Ele sempre quis fomentar o desenvolvimento regional. A vinícola, por exemplo, já foi projetada pensando em receber turistas. A ideia era criar um polo desde o início", conta Daniela.

Junto com essa visão estratégica, o poder de fogo econômico diferencia os novos integrantes do ramo.

"A vantagem de serem profissionais vindos de estruturas grandes é o potencial de investimento em marketing, por exemplo, o que gera barulho no setor. Assim, todo o conjunto vitivinícola cresce", acredita Bernardi.

Movidos a paixão

O enólogo ressalta, no entanto, que embora não funcionem no conhecido esquema familiar, muitos desses empreendimentos são igualmente pequenos. Uma arrancada mais modesta pode ser motivada por cautela financeira ou então quando, mais do que uma decisão mercadológica, a aposta na vitivinicultura é movida por curiosidade e paixão. É o caso da Guatambu Vinhos Finos, instalada na Campanha gaúcha, outro polo que reflete bem esse novo momento da enologia brasileira.

Arrozeiro e pecuarista, Valter José Pötter começou o cultivo da uva em Dom Pedrito há sete anos com meio hectare. Hoje são sete hectares em produção e outros 13 em desenvolvimento. Em 2011, ao inaugurar a cantina própria, ele espera ver a Guatambu Vinhos Finos saltar de 15 mil para 50 mil garrafas por ano. Pötter até pode ser considerado novato no setor se comparado a marcas como a Salton, que neste ano comemora 100 anos em Bento Gonçalves, mas diz que já estudava o negócio muito antes de lançar os rótulos Rastros do Pampa e Luar do Pampa.

"Individualmente, pode parecer que estamos (os produtores da Campanha) há pouco no segmento, mas já observamos há tempos", revela.

A análise mais detalhada do campo em que se vai atuar é uma características dos vitivinicultores iniciantes, uma grande diferença em relação aos descendentes de imigrantes.

"É comum primeiro produzir para depois pensar em vender. O empresário não olhou o mercado antes, o alvo. Ainda existe muito amor ao produto, e não é só no vinho", avalia Janine Basso Lisboa, gestora do projeto de fortalecimento da vitivinicultura na Serra do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RS).

Se um dia foram os gringos que serviram de inspiração para o início de outros focos vinícolas, hoje pode-se dizer que existe um movimento no sentido contrário.

"Esses novos polos seguem um modelo diferente, de empresários, com outra visão. E eles acabam puxando aqueles produtores familiares", reconhece Julio Fante, presidente do conselho deliberativo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

Como em qualquer mudança, é possível que este terceiro ciclo encontre resistências. Assim, a falta de tradição dos novatos pode gerar desconfiança e preconceito entre produtores mais antigos. Mas aí é só lembrar que os pais e avôs dos hoje grandes empresários do ramo também não receberam bem muitas das sugestões de melhorias feitas por seus descendentes. E vejam só o que eles fizeram pelo setor.