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Posts com a tag "Dirceu Vianna Jr"

Como Dirceu Vianna Jr chegou lá

14 de junho de 2010 0

O leitor assíduo do Enoblog já conhece Dirceu Vianna Júnior. Único Master of Wine brasileiro, ele já concedeu entrevistas ao blog, foi mencionado aqui por causa de suas parcerias com vinícolas nacionais no Exterior e repercutiu bastante quando montou um top 10 de merlots mundiais incluindo oito brasileiros na lista.

Bom, quem o ainda não ouviu falar dele pode, além de clicar nos links acima, ler a reportagem abaixo, publicada recentemente na revista Donna, de Zero Hora. Escrita por Cláudia Laitano, que viajou a Londres (atual lar de Vianna) a convite do Ibravin para cobrir a London Wine Fair, a matéria conta como ele alcançou o título de MW.

O mestre do vinho

Dono do cobiçado título de Master of Wine, o brasileiro Dirceu Vianna Júnior é um dos maiores entendidos do assunto no mundo

Bebendo a trabalho: Dirceu Vianna Jr experimenta de 50 a 500 vinhos por semanaNo site do vetusto instituto britânico que concede o título de Master of Wine desde 1955, o nome de Dirceu Vianna Júnior, 41 anos, aparece ligado ao Reino Unido, onde ele mora e trabalha desde 1989. Mas os brasileiros podem se orgulhar desse paranaense nascido no pequeno município de Candido Rondon, perto de Foz do Iguaçu. No mundo todo, existem apenas 280 "mestres do vinho", com apenas dois latino-americanos na lista - Dirceu e uma enóloga argentina. A importância do título ainda é pouco conhecida no Brasil, realidade que começa a mudar com a crescente atuação de Dirceu junto a vinícolas brasileiras que estão entrando na briga pelo disputado mercado exportador de vinhos.

Foi uma longa e árdua jornada entre os primeiros bicos como garçom em Londres e o atual status de um dos maiores experts em vinhos do mundo. Dirceu estudava Engenharia Florestal e Direito quando foi passar as férias na Inglaterra e decidiu ficar por lá. Trabalhando em restaurantes, começou a se interessar em aprender mais sobre vinhos em 1990.

O início de sua formação foi no prestigiado Wine & Spirit Education Trust, que reúne alunos de várias partes do mundo. Depois de terminar o curso, em 1997, partiu para uma temporada de trabalho prático em uma vinícola na África do Sul. Na volta, estava preparado para enfrentar o maior desafio de sua carreira, que seria também o passaporte para trabalhar em qualquer parte do mundo: a dura seleção para Master of Wine, que tem um índice de aprovação de apenas 5% dos inscritos na prova final.

Dirceu demorou seis anos e foi reprovado três vezes antes de conquistar o título, em 2008. A prova inclui questões teóricas sobre viticultura, enologia e marketing e um teste prático de degustação, em que o candidato é colocado diante de 12 mostras de vinho que ele deve identificar não apenas pela região onde foi fabricado, mas também pela safra.

O MW deve demonstrar conhecimentos profundos sobre vinhos e um talento especial, que alguns consideram um dom inato, no olfato e no paladar, unindo conhecimentos práticos e teóricos sobre "a arte, a ciência e o negócio do vinho", como define o programa do Institute Master of Wine. Para se preparar para as provas, Dirceu acordava diariamente às 6h30min e estudava até as 10h, quando saía para trabalhar. À noite, mais algumas horas de concentração, e nos fins de semana uma jornada entre os livros que podia se estender das 6h às 22h - nos intervalos, ele encontrou tempo para casar e ter uma filha.

Além da cabeça, Dirceu precisava cuidar também do corpo. Durante as últimas semanas antes do teste, realizado uma vez por ano simultaneamente em Londres, Sidney e Nova York, é proibido fumar e beber, para não atrapalhar o paladar, e dormir tarde, para não tirar a concentração (e todo o esforço pode ir por água abaixo se no dia da prova o candidato estiver gripado, por exemplo.) A preparação inclui ainda viagens para conhecer vinícolas em todo o mundo e grupos de estudo com os colegas, o que significa comprar vinhos caros para degustação. Ou seja: chegar ao posto de Master of Wine exige não apenas obstinação e preparo, mas condições para bancar uma formação cara e superespecializada. E de onde Dirceu tirou tanta energia para enfrentar essa verdadeira Copa do Mundo dos vinhos?

"Sempre fui competitivo e queria ser um dos melhores do mundo. Se eu fosse jogador de futebol ia querer estar na Seleção Brasileira", compara Dirceu.

Vinho nacional para o público gringo

04 de novembro de 2009 0


Para degustar o mais recente lançamento da Miolo, voe até a Inglaterra. É lá, e somente lá, que desembarcou agora em novembro o Alísios, linha de vinhos desenvolvido especialmente para o mercado externo, resultado de um ano em pesquisas de produto e tendências.

Com origem na Campanha gaúcha, a família Alísios tem seis integrantes: nos tintos, os varietais Cabernet Sauvignon e Tannat e os cortes de Tempranillo + Touriga e Cabernet + Merlot. Nos brancos, há um varietal de Sauvignon Blanc e um corte de Pinot Grigio e Riesling. A elaboração do produto contou com a participação do Master of Wine Dirceu Vianna Júnior e de uma empresa de design com base na terra da rainha.

Se conseguir uma viagem pra Inglaterra não está fácil, não precisa desanimar. Eventualmente o vinho chegará por aqui também. Mas como o foco é mesmo conquistar a ilha europeia, mercado que tem o poder de formar opiniões mundo afora, a estreia vai ocorrer em redes de supermercado e restaurantes de lá. O plano é que sejam exportadas para lá 180 mil garrafas nos próximos dois anos.

8 Merlots brasileiros em um top 10 mundial

01 de novembro de 2009 6

Orestes de Andrade Jr., divulgação

Se o Merlot nacional busca consagração, encontrou no Master of Wine Dirceu Vianna Junior, o único brasileiro a ostentar o título, um parceiro de peso. Na última quinta-feira, em Bento Gonçalves, Dirceu revelou dados de um estudo que ele mesmo comandou em 2008, no qual 17 vinhos de 15 cantinas do Vale dos Vinhedos foram incluídos em uma degustação que compreendia ainda rótulos de outras 10 regiões produtoras do mundo. Todas as amostras foram avaliadas por um time de 40 profissionais, entre os quais estavam 15 dos 280 Master Of Wine do mundo. E aí veio a parte surpreendente: do top 10 resultante da análise, 8 vinhos eram brasileiros.

A lista dos 10 melhores foi completada com produtos do Chile e da África do Sul. Dirceu não revelou quem levou a medalha de ouro, tampouco o nome das marcas nacionais que se destacaram (deixando escapar apenas que entre as cinco mais bem classificadas estavam a Miolo e a Pizzato). Entre os requisitos usados para a escolha dos participantes estava uma boa reputação da vinícola no mercado, um mínimo de 85% da variedade Merlot, que as amostras fossem de safras recentes (2004, 2005 e 2006) e de faixa de preço similar. Como pista do nível de qualidade envolvido na degustação (que serviu para sua aprovação como Master of Wine), Dirceu apontou alguns dos rótulos que ficaram para trás, como esses aqui:

- Norton Barrel Select Merlot 2004 (Argentina)
- Gallo Merlot 2006 (Estados Unidos)
- Reserve de Mouton Cadet St Emillion 2005 (França)
- Capucho Merlot Ribatejo 2004 (Portugal)
- Planeta Merlot 2004 (Itália)
- Montana Merlot Reserva 2005 (Nova Zelândia)
- Torres Atrium Merlot 2006 (Espanha)
- Berri Estates Merlot 2006 (Austrália)

Pra completar a alegria dos brasileiros, Dirceu expôs sua visão do potencial brasileiro no mercado vitivinícola internacional, apontando prós e contras. Aliás, sua palestra foi parte de um programa bem bacana que está ocorrendo em três pólos no Brasil (RS, Pernambuco e São Paulo). Chamado de Quality Wine - Programa Nacional de Qualidade Vitivinícola e Acesso ao Mercado Europeu, o projeto quer abastecer de informações os produtores que querem chegar ao Exterior, conciliando qualidade e preço.

Dirceu Vianna Jr e suas impressões sobre o Brasil

08 de maio de 2009 0

"O Brasil é uma página em branco, mas com muita boa vontade para ser preenchida"

Foto: Norio Ito

Dirceu Vianna Júnior é o único brasileiro a conquistar o título de ‘Master of Wine’, uma das mais ambicionadas graduações do mundo do vinho, conferida pelo instituto de mesmo nome sediado em Londres. Atualmente apenas 250 pessoas no mundo ostentam desse título, e apenas dois são da América do Sul. Além do brasileiro, há uma argentina.

Há 15 anos residindo na Inglaterra, o especialista é diretor de Desenvolvimento da Coe Vintners, uma das maiores empresas importadoras independentes do Reino Unido.

Presente na Expovinis Brasil 2009, o especialista conduziu duas degustações e realizou uma palestra sobre as percepções do mercado europeu sobre a produção brasileira. Este é o tema da entrevista concedida ao Enoblog diretamente do evento, encerrado ontem, em São Paulo.

As informações do especialista são embasadas em uma pesquisa que ele realizou no ano passado para o Instituto Master of Wine que envolveu três degustações apenas vinhos com vinhos da variedade Merlot de vários países, entre eles, amostras brasileiras.

Pioneiro: A impressão que se tem dos vinhos brasileiros favorece o ingresso do produto no mercado europeu?
Dirceu Vianna Junior:
Há pontos positivos e negativos. No primeiro caso, há uma percepção de que existem vinhos brasileiros de alto padrão de qualidade e bom custo benefício que podem competir no mercado internacional. No Reino Unido, a percepção que se tem do Brasil é excelente, com 85% dos entrevistados respondendo que tinham uma boa imagem do país. O mercado internacional está de braços abertos para novidades, por isso, se tiverem uma boa qualidade, os restaurantes estarão disponíveis a comercializar os vinhos brasileiros.

Pioneiro: Então o mercado já sabe que se produzem vinhos no país?
Vianna Junior:
A imagem do país é uma página em branco, mas com uma boa vontade para ser preenchida. Outros países da América do Sul não desfrutam dessa situação. A Argentina, por exemplo. Por causa da guerra das Malvinas, ninguém quer se associar aos vinhos de lá ou os vê com bons olhos.

Pioneiro: E qual a parte negativa?
Vianna Junior:
A parte negativa é que foram avaliados vinhos de 17 produtores brasileiros e a maioria apresentou vários problemas técnicos. Apenas seis ou sete tinham bons padrões. Fiz uma lista dos 10 principais erros e entre eles aparecem a extração excessiva de taninos, oxidação, presença de sulfídricos. O lado bom é que essas são questões fáceis de serem corrigidas, podem ser resolvidas de uma safra para outra. Entretanto, são pontos básicos, que não deveriam estar ocorrendo.

Pioneiro: Esses erros se devem à falta de condições de produzir ou de domínio técnico?
Vianna Junior:
No Chile e na Argentina se verificou uma evolução rápida porque houve um intenso intercâmbio de conhecimentos e de investimentos externos. Esses países levaram enólogos e especialistas de fora para orientar e corrigir os problemas.

Pioneiro: E aqui deveria ser feito o mesmo, então?
Vianna Júnior: Não adianta fazer um trabalho belíssimo de marketing, como esse que foi apresentado, se não tem produto bom na garrafa. O Brasil deveria trazer especialistas de fora para sentarem com os produtores e fazerem uma avaliação sincera dos produtos. Eles deveriam chegar e dizer "O senhor tem um bom potencial, mas sem ressentimentos, o problema do seu vinho é esse e esse e você tem que fazer isso e aquilo para corrigir". Isso deve ser encarado de forma profissional.

Pioneiro: Qual a tendência de consumo na Europa?
Vianna Junior:
Os críticos europeus estão pedindo menos álcool, menos madeira. E até certo ponto, isso se reflete no mercado. Mas quem vai ao ponto de venda comprar vinhos não são os críticos, são os consumidores, quem tem um paladar bem diferente.

Pioneiro: Seria possível capitalizar em cima dessa questão, já que os vinhos brasileiros apresentam essas características bem avaliadas pelos críticos de vinho?
Dirceu:
Claro que sim. Quando se fala no vinho brasileiro a tendência de todo mundo é de compará-los com os chilenos e argentinos. Isso, para mim, é um erro porque eles têm características bem diferentes. Por causa dos parâmetros de acidez alta, por serem menos alcoólicos, menos amadeirados, porém com boa estrutura e perfil aromático, os vinhos brasileiros se aproximam mais dos vinhos europeus. Acho que os produtores brasileiros deveriam assumir que têm esse perfil e fazer um marketing positivo em cima.

Pioneiro: E os produtos nacionais tem condições de competir em termos de preço?
Vianna Junior:
Em termos de preço, a realidade brasileira é diferente porque Chile e Argentina têm economia de escala e não tem como comparar com os custos de produção verificados no Brasil. O mercado consumidor diz que não quer vinho barato, e tampouco o premium. Querem o médium premium, aquele vinho que custa entre sete e 10 libras (entre R$ 22,40 e R$ 32).

Pioneiro: E o que está sendo exportado se enquadra nessa faixa de preço?
Vianna Junior:
Na época da pesquisa sim, agora, não mais. Na Inglaterra, aumentaram muito os impostos e a libra desvalorizou. Então, hoje, os vinhos brasileiros _ os bons _ estão um pouco acima desse valor. Quando se tem crise, o fator número um de escolha é o preço. Os produtores deveriam refazer os cálculos para se adequarem a esse mercado. E eu acho que é possível fazer isso.

Pioneiro: E como estão cotados os espumantes brasileiros?
Vianna Junior:
A grande oportunidade do Brasil são os espumantes. O preço do champagne está caríssimo na Europa, o prosseco também. O Brasil tem que entrar aqui porque ninguém tem um produto dessa qualidade, ao valor que tem sido produzido. Talvez a Austrália e Nova Zelândia, mas não o Chile. Atualmente o consumo de espumante brasileiro é insignificante mas ele apresenta qualidade e um custo benefício excelente.

Pioneiro: A crise afetou o consumo da bebida?
Vianna Junior:
No mundo, o consumo caiu bastante. A venda de champagne caiu assustadoramente por várias questões de mercado. Na crise, entretanto, o que fala mais alto é o bolso. Antes disso se falava em tendências como vinhos orgânicos e dinâmicos. Agora, isso ficou de lado.

Pioneiro: E qual a percepção do Brasil como mercado consumidor?
Vianna Junior:
Existem várias companhias grandes analisando o mercado brasileiro porque o potencial de consumo é fantástico. São 180 milhões de pessoas. Para se chegar a elas, o que deve ser feito é deselitizar. O vinho tem que ser tomado com amigos, em ocasiões cotidianas. Se fala muito no mercado asiático, mas não se pode esquecer que eles são muito espertos. Eles não vão deixar os americanos, australianos e europeus chegarem lá, vender vinho à vontade e dar risada. Em pouco tempo eles é que irão atrás do mercado europeu. No Brasil, o setor não tem que brigar um com o outro. Tem que brigar com as outras bebidas, como a cerveja, e mostrar que o vinho também é uma boa opção para o dia a dia.

Postado por Martha Caus, São Paulo