
No Brasil, as baixas temperaturas da Região Sul são frequentemente associadas ao consumo de vinho, mas dificilmente ligadas à colheita e ao processamento das uvas, já que a vindima que dá origem à maioria dos rótulos disponíveis no mercado nacional costuma terminar em meados de abril, quando ainda faz calor. Uma parceria entre gaúchos e catarinenses está disposta a desafiar esse calendário com uma iniciativa inusitada para um país tropical. A Vinícola Pericó, de São Joaquim (SC), sob a orientação do Enolab, de Flores da Cunha, fermenta neste momento o mosto do primeiro Icewine brasileiro, vinho feito a partir de cachos naturalmente congelados pelo frio da serra do Estado vizinho.
Típico de países conhecidos por seu inverno rigoroso, como o Canadá e a Alemanha, esse vinho doce fortificado (também conhecido por Eiswein) é geralmente elaborado com uvas brancas, principalmente riesling e vidal. Por aqui, teve como matéria-prima a variedade cabernet sauvignon, colhida em duas etapas: a primeira no dia 4 e a última na sexta-feira passada. A divisão se explica pelo curto intervalo disponível para o trabalho no parreiral, pois é preciso retirar a fruta das videiras enquanto ainda está congelada, logo aos primeiros raios de sol.
A primeira vindima, realizada à temperatura de 7,5°C negativos, só foi possível na terceira tentativa, já que nas anteriores não fez frio suficiente. Embarcada em um caminhão-frigorífico, a uva foi transportada até a Vinícola Fabian, de Nova Pádua (a Pericó ainda não possui estrutura própria de vinificação). Enquanto a carga viajava, uma prensa pneumática era resfriada no destino para receber os cachos. À temperatura ambiente (11°C), o equipamento poderia descongelar a fruta. Como o projeto é inédito no país, a maior expectativa recaía sobre o momento de compressão da fruta. O princípio é que, ao prensar os grãos, a maior parte da água fique retida na máquina em formato de gelo, liberando um suco mais concentrado, rico em açúcar e compostos do extrato seco de um vinho (polifenóis, sais, ácidos, etc).
O sucesso da experiência, comprovado pelas bagas cheias de gelo retiradas do equipamento posteriormente, levou à repetição do processo com a segunda colheita, então feita a 6,5°C negativos. Ao todo, foram obtidos em torno de 900 litros de mosto que, com a adição de uma levedura especial, fermentarão lentamente por aproximadamente dois meses em tanques de aço inox e depois estagiarão em barricas de carvalho francês. O resultado final não tem data para ser lançado, mas a curiosidade a respeito do Icewine brasileiro não deve ser saciada antes de setembro de 2010.
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