Pensar em Espanha é pensar em Tempranillo. Não é à toa que a casta é a que produz os tintos mais famosos do país. As videiras antigas e bem próximas ao solo para ajudar a maturar as uvas dão um toque de referência a esses vinhos. Na composição do vinho, a uva Tempranilllo, às vezes, ganha companhia da Garnacha, outra uva clássica do país, que tende a dar um toque de maior acidez ao vinho, pois, em geral, a casta destaque, quando sozinha, produz vinhos de média a muita estrutura e com excelente carga tânica, ficando ainda melhor com passagem pelas barricas de carvalho.
Nada mais justo, portanto, que os vinhos espanhóis sejam divididos conforme a sua passagem por barricas: um vinho Joven, por exemplo, fica engarrafado por um ano após a vindima, sem necessidade de carvalho; já o famoso Crianza, excelente pelo custo-benefício, deve ficar pelo menos dois anos envelhecendo, sendo, no mínimo, seis meses em barricas; o Reserva, que estagia três anos na adega, sendo pelo menos um em barril; e, por fim, o Gran Reserva, que é ícone, passando cinco anos descansando, sendo pelo menos dois em carvalho.
Normalmente, os grandes vinhos são oriundos de três regiões famosas da Espanha: Priorato, Ribera del Duero e Rioja. Inclusive, essas são as únicas com DOCa – denominação de origem qualificada, em português –, na lei espanhola que determina as regras de vitivinificação. No Brasil, Rioja é quase sinônimo de vinho tinto fino quando o assunto é Espanha. A região, que fica ao norte do país, divide-se em três sub-regiões de características distintas: Rioja Alta, Rioja Alavesa e Rioja Baja.
Três vinhos crianza degustados
E é de Rioja Alavesa que vem a primeira dica de vinho degustado: o DOCa Luis Cañas Crianza 2006, um Tempranillo cortado com 5% de Garnacha. Oriundo de vinhedos com cerca de 30 anos, é de uma safra considerada muito boa pelos enólogos da casa. Como Crianza, matura 12 meses em barricas de carvalho e outros nove nas garrafas. Um pouco etéreo no início, devido à quantidade de álcool (14%), o vinho, quando abre na taça, apresenta notas de frutas vermelhas apassitadas e de especiarias. A sensação é compartilhada em boca, pois é quente, encorpado, amplo e tem toques de frutas maduras. Custa R$ 60,00 e é um excelente investimento.
Da Rioja Alta, degustei o Rincón de Navas Crianza 2007, um DOCa produzido com 100% de Tempranillo. Com 14 meses de estágio em barricas, o vinho apresenta graduação alcoólica de 13,5. Os primeiros aromas sentidos lembram fortemente a madeira, como um cedro, que vai evoluindo para especiarias, com destaque para uma pimenta negra, e, mais tarde, para frutas, como amora, e notas herbáceas. Em boca, tem maciez e acidez interessantes, contudo, é ligeiro e delgado, de pouco corpo. Tem uma tendência para ser elegante, mas a expectativa gerada pelo custo de R$113,00 não é correspondida pelo produto, decepcionando um pouco. Se for tomá-lo acompanhado de comida, é bom apostar em pratos de pouca estrutura.
O Viña Sastre Crianza 2006 (DO) é de Ribera del Duero, uma região alta e com intensa amplitude térmica. Produzido totalmente com uvas Tempranillo oriundas de videiras entre 20 e 60 anos, o vinho apresenta 15% de teor alcoólico e uma bela coloração rubi fechada, com toques granada. Etéreo no início da olfação, ao abrir vai apresentando toques de baunilha, café, tostado e especiarias como noz moscada, zimbro e pimenta do reino. Muito intenso aromaticamente, e de aromas bem nítidos, quando em boca, mantém a elegância. É um vinho quente, de uma maciez aveludada e frutado, partindo para um fim de boca no qual a acidez rouba a cena. Esse exemplar de R$115,00 combina com pratos condimentados e aromáticos e carnes com um bom teor de gordura como um filé em crosta de pimenta rosa.



