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Vitivinicultura cooperativada: a terra, o homem, a luta e o vinho

10 de fevereiro de 2012 2

Esta matéria originou-se de um convite da Nova Aliança para que, como sommelier, eu pudesse conhecer o trabalho que a vinícola Santa Colina realiza em Santana do Livramento, na Campanha Gaúcha. A ideia, que inicialmente era apenas saber mais sobre a concepção dos vinhos da empresa, se transformou, através de conversas informais, neste relato que traz um panorama do interessante trabalho desenvolvido pela Cooperativa com mais de 800 associados, somando nada menos do que 550 famílias de viticultores do interior do Rio Grande do Sul.

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A terra

Santa Colina: 450 hectares em Santana do Livramento | Foto: Rafael Lorenzato

Santa Colina: 450 hectares em Santana do Livramento | Foto: Rafael Lorenzato

Eu já havia falado aqui sobre terroir. E a Campanha do Rio Grande do Sul representa, hoje, uma importante região para a vitivinicultura brasileira. Não é à toa que praticamente todas as grandes vinícolas que ainda não têm unidades por lá estão se organizando para estabelecer braços nessa zona.

Isso se justifica pois, no Paralelo 31, a tendência do solo é ser pobre, com apenas 0,6 a 0,7% de argila; enquanto na Serra Gaúcha, esse elemento chega a ser de 8%. Assim, o desenvolvimento da planta se dá de forma mais vigorosa, em função do estresse, o que dá força para a fruta, fazendo com que nasça com mais açúcar, sendo rara a necessidade de chaptalização. Além disso, um solo menos rico permite a dosagem específica de nutrientes para a videira, beneficiando, dessa forma, o produto final – a uva. Logo, o vinho.

Tudo isso foi pensado pelo grupo japonês Hombo, quando estudou a região e fundou, em 1983, a Vinícola Livramento S/A. Na época, a tecnologia utilizada para o plantio foi moderna: condução em espaldeiras, com diferença de dois a três metros entre cada pé. A produção, então de cerca de 500 mil litros de vinho por ano, era menor, mas com foco na qualidade.

Em 2005, a Santa Colina foi adquirida pela Cooperativa Aliança, que buscava comprar equipamentos para vinificação de suas uvas produzidas em Encruzilhada do Sul, no Condomínio Rural Aliança, formado por associados da empresa que não estão na Serra Gaúcha. Hoje, já sob a tutela da Nova Aliança, a unidade de Santana do Livramento produz cerca de 1,3 milhão de litros de vinho.

O homem

Flávio Novello é enólogo da Santa Colina há 20 anos | Foto: Luís Aguirre, Arquivo Pessoal

Flávio Novello é enólogo da Santa Colina há 20 anos | Foto: Luís Aguirre, Arquivo Pessoal

Desde a época do grupo Hombo, o homem à frente do vinho na Santa Colina é Flávio Novello. Carismático e muito receptivo, o enólogo explana, com muita propriedade, toda concepção autoral dos vinhos que assina, sendo que é responsável tanto pelos produtos que levam a marca da empresa, quanto por vinhos terceirizados, mas de boa aceitação no mercado. “Todo manejo da uva é diferente para cada vinho, então, logicamente, dá diferença; eu não vou querer, também, que o vinho dos meus clientes seja inferior, então faço todos com a maior qualidade possível”, enfatiza.

É obra de Novello, por exemplo, o Chardonnay que há anos encontra reconhecimento na Avaliação Nacional de Vinhos, e que na última edição do evento recebeu 89 pontos da mesa de degustação, após ter sido selecionado como um dos 16 vinhos mais representativos da safra brasileira de 2011. Uma nota muito alta para uma bebida que chega ao consumidor por módicos R$13,00.

Conceitualmente, quem concebe cada um desses produtos é Novello. Mas o fato é que nenhum vinho tem apenas um autor, pois o enólogo precisa do trabalho dos agricultores e dos agrônomos junto à terra para receber uvas de qualidade e, a partir delas, desenvolver cada um dos seus exemplares. Não surpreende, portanto, que a Nova Aliança possua, em seu quadro de funcionários, seis agrônomos, sendo três mestres; três enólogos; e dois engenheiros de alimentos.

Foi o trabalho do agrônomo, por exemplo, que ajudou a minimizar o impacto da chuva de granizo ocorrida no dia 14 de dezembro de 2011, responsável pela perda de 20% da safra do ano na Serra Gaúcha. Na mesma noite, foi organizada, pela Cooperativa, uma força-tarefa para que todos os agricultores que tinham sido afetados recebessem o atendimento necessário à manutenção da vida das plantas. “Quando tem chuva de granizo, é preciso realizar um tratamento fitossanitário imediato, para não deteriorar a uva que sobreviveu”, explica o profissional Paulo Dullius, mestre em Extensão Agrônoma.

Jorge Chinatto foi um dos agricultores prejudicados pela chuva de granizo | Foto: Rafael Lorenzato

Jorge Chinatto foi um dos agricultores prejudicados pela chuva de granizo | Foto: Rafael Lorenzato

Tratamento esse que ajudou a diminuir a dor de associados como Jorge Chinatto, que, de uma expectativa de safra em torno de 90 toneladas de uva, deve colher apenas sete, tamanha foi a devastação que a chuva de pedra causou em seus três hectares de vinhedos. Ao caminhar por baixo dos parreirais, é nítida a desolação da plantação, que perdeu folhas e frutos. E também a do agricultor, que lamenta: “Na noite do granizo, os vinhedos chegaram a ficar com 20 cm de pedra de gelo, o que eu nunca tinha visto na vida. Minha mãe, que tem 86 anos, também nunca viu nada igual. E esperamos não ver mais”.

A luta

O prejuízo do agricultor, em caso de chuva de granizo, pode chegar a três vindimas. Chinatto, por exemplo, estima que, além de quase 100% desta safra, perderá também 50% da colheita do próximo ano, pois o fruto não nasce com a mesma força após a quebra dos galhos. Ele, assim como muitos outros agricultores, não tinha seu parreiral segurado, e teria que absorver os danos com seus próprios recursos.

Buscando contornar o problema, a Nova Aliança emprestará, aos cooperativados que precisarem, o valor aproximado que estes receberiam pela uva, calculado a partir de uma média entre os resultados dos últimos cinco anos de produção. Além disso, os agricultores criarão um fundo coletivo contra intempéries (geada, granizo, seca, excesso de chuvas, etc.) para uso isento de juros, em caso de necessidade.

Moscatel saindo com pressão dos tanques | Foto: Rafael Lorenzato

Moscatel saindo com pressão dos tanques | Foto: Rafael Lorenzato

Fruto da união de cinco cooperativas – Linha Jacinto, de Farroupilha; São Pedro e Santo Antônio, de Flores da Cunha; São Victor e Aliança, de Caxias do Sul – a Nova Aliança hoje possui aproximadamente 1.350 hectares de videiras distribuídas em toda a Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e Campanha Gaúcha, tendo colhido 37 milhões de quilos de uva em 2011, quando a safra foi plena. Em resultado, a Cooperativa, que completou um ano de existência em dezembro, faturou aproximadamente R$ 65 milhões. Parte dessa renda é relativa à venda de 175 mil litros anuais do espumante Moscatel, carro-chefe da empresa e que, na sua confecção, ganha o interessante aroma de batata doce assada, advindo do corte com a uva Gewüstraminer.

Atualmente, a Nova Aliança investe em crescimento, para evitar o contínuo êxodo rural, em virtude do aquecimento da economia, que tirou muita gente do campo. Para tanto, o projeto da empresa é conseguir remunerar o associado para que ele permaneça na agricultura, e parte dessa verba deve vir da grande aposta da empresa no plantio de uva orgânica. De difícil processamento e certificação mais complicada ainda, ela é utilizada para a produção de suco de uva, e, no futuro, também de vinhos.

Outra ideia é o lançamento da grife Cerro da Cruz, cujo objetivo é vender um vinho semelhante aos da linha Santa Colina Reserva, com preço final de R$30,00. Com esse produto, que terá tiragem limitada, a Cooperativa pretende alcançar enófilos, através de confrarias, assim como a pequenos restaurantes e outros locais que não demandem grandes estoques.

O vinho

A Confraria Sommeliers POA degustou, recentemente, exemplares de Chardonnay e Tannat produzidos pela vinícola Santa Colina. Confira a minha apreciação sobre os vinhos:

Santa Colina Chardonnay Tradicional 2011: tem 12,5% de álcool e apresenta aromas de abacaxi, mel e flores brancas, além de toques amanteigados e amendoados. Em boca, mostra acidez e frescor interessantes, mas com uma doçura pungente. É um vinho de média intensidade e persistência, que harmoniza com pratos leves, como um Papillote de abrótea ao perfume de ervas. Por se tratar de uma bebida da linha de entrada da vinícola, tem o preço de R$11,00. Na avaliação da Confraria, a nota do vinho ficou em 81.

Vinhos degustados, do Tannat Reserva ao Chardonnay Tradicional | Foto: Rafael Lorenzato

Vinhos degustados, do Tannat Reserva ao Chardonnay Tradicional | Foto: Rafael Lorenzato

Santa Colina Chardonnay Estilo 2011: apresentando halos dourados na taça, esse vinho, que tem 13% de álcool, recebeu a nota de 84. Exala aromas de frutas cítricas e mel, com um toque de mineralidade. No paladar, é untuoso e quente, e com um fim de boca no qual a acidez se faz presente. Mais estruturado e com boa persistência, já combina com pratos de média intensidade, como uma Violinha empanada ao molho de pimenta. Excelente custo-benefício, considerando que custa R$13,00.

Santa Colina Tannat Tradicional 2009: cortado com 10% de uva Merlot, esse vinho apresenta 12,5% de teor. Na taça, se desprendem aromas de frutas e especiarias como pimenta, além de notas de madeira e um tom herbáceo. Em boca, é um vinho sem rusticidade, não fazendo muito jus à característica da uva Tannat, apresentando toques defumados e uma leve acidez. Acompanha bem pratos de pouca estrutura, como massas com molhos leves. Nota: 68.

Santa Colina Tannat Estilo 2009: intenso aromaticamente, com notas de frutas negras e tostado, o vinho se apresenta equilibrado no paladar, harmonizando todas as sensações até o fim de boca, quando salienta sua acidez e um leve amargor. Tânico e gastronômico, tem 13,5% de álcool e pede pratos com boa estrutura, como uma Batata Rösti recheada com cordeiro e queijo colonial. A nota da Confraria foi de 75, mas eu, particularmente, acho que um 82 faz mais justiça ao vinho, que é uma boa escolha dentro da sua faixa de preço.

Santa Colina Tannat Reserva 2007: possui uma coloração rubi fechada interessante, além de aromas bem demarcados. No nariz, tostado, couro e frutas negras maduras são alguns dos toques emanados da taça. Em boca, é redondo, equilibrado, bem quente, até em função de sua alcoolicidade (14%), com alguns taninos marcantes, que indicam que o vinho ainda poderia descansar por pelo menos mais dois anos. Com um bom corpo, esse exemplar, de tiragem limitada a apenas duas mil garrafas, harmoniza perfeitamente com um Boeuf Bourguignon acompanhado de Risoto de Arroz Vermelho com castanhas do Pará. A nota é 87; e o preço, R$40,00.

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Comentários (2)

  • Diego diz: 15 de fevereiro de 2012

    Muito bacana seu blog e também a iniciativa de compartilhar conhecimento e expressar o que o vinho nos proporciona.

    Gostaria somente de fazer um comentário sobre o mito de um solo pobre proporcionar um crescimento vigoroso da planta. Solos pobres superficialmente fazem com que a planta desenvolva raízes mais profundas à procura de àgua, já que a pequena quantidade de argila e baixa carga orgânica fazem com que o solo retenha pouca umidade.Normalmente este tipo de solo está presente em regiões onde o verão tem menor incidência de chuvas (semi-árido). Solos pobres e com melhor drenagem, proporcionam à fruta uma melhor expressão dos sabores e aromas característicos de cada variedade, influenciados pela maior concentração de açúcares, maturação mais uniforme e menor acidez, etc. A maior concentração de acúcares não se dá em decorrência do solo, mas da quantidade de ensolação que a planta recebe e melhor controle na relação de água nos frutos. Este fator é percebido claramente também no vale do rio são francisco, e as frutas produzidas nesta região são da melhor qualidade.
    Estas características do solo + microclima formarão o terroir e influenciarão diretamente na qualidade do vinho. Desde que, é claro, o controle do processo seja rigoroso, já que pode-se estragar toda uma excelente safra de uva com um processo mal desenhado e com pouco controle.

    Abraço,

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