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Imagens do vinho brasileiro

24 de fevereiro de 2012 3

Nesta última semana, um grupo de 13 jornalistas, contando comigo, viajou, a convite do Ibravin, à Serra Gaúcha, como parte do Projeto Imagem 2012. O objetivo da ação, que já ocorre há alguns anos, é criar uma aproximação da mídia especializada em vinhos com o produto nacional, através de palestras, degustações guiadas e visitas técnicas.

Dessa forma, para compor um panorama da produção vitivinícola, foram visitadas as apoiadoras do projeto, que são a Aurora, Cooperativa São João, Famiglia Valduga, Fante, Miolo, Perini e Salton. Participaram, também, da iniciativa, a Dunamis, que apresentou seus produtos em Porto Alegre, e a vinícola Canção.

Mercado em (re)ascenção

O vinho brasileiro em boa fase | Foto: Rafael Lorenzato

O vinho brasileiro em boa fase | Foto: Rafael Lorenzato

O fato é que o vinho brasileiro está em uma boa fase – de (re)ascenção. Em 2011, os vinhos gaúchos, responsáveis por 90% da produção nacional, obtiveram um crescimento de 7% em suas vendas. Isso representa nada menos do que 249,6 milhões de litros de vinhos finos e de mesa.

Os vinhos finos tintos, por exemplo, tiveram um incremento de 7,5% na comercialização. Já os espumantes, que hoje são uma grande aposta brasileira, aumentaram em 4,7% sua participação no mercado. "Ainda estamos longe dos 293 milhões de litros de vinhos finos e de mesa vendidos em 2005", afirma o presidente do Conselho deliberativo do Ibravin, Alceu Dalle Molle, mas isso não deixa de ser, como ele mesmo comenta, "uma vitória importante".

Mesmo assim, os brasileiros seguem comprando vinhos estrangeiros, inclusive a importação cresceu em 3% no ano passado. Ou seja, de todo vinho consumido no Brasil, 77,6 milhões de litros vêm dos mais diversos países, como o Chile, líder de vendas, com 37% do mercado de importados; e a Argentina, que fica em segundo lugar, com 17,7 milhões de litros.

Inclusive as entidades de classe do setor, como o Ibravin, em parceria com os governos, pretendem criar regras que deem ao vinho nacional as mesmas condições de concorrer com os importados. São medidas que vão desde a padronização de rótulos, hoje muito mais facilitada para os produtos de fora do país, até o combate aos fortes subsídios recebidos por exemplares estrangeiros enviados ao Brasil.

Vale a pena destacar que os produtores brasileiros são unânimes em dizer que não são contra as importações, até porque, hoje, o Brasil não tem capacidade produtiva para suprir toda a sua demanda de vinho. "Apoiamos a importação; não é protecionismo, queremos trabalhar. Tratamento igual ao produto nacional", enfatiza Júlio Fante, presidente da Fante Bebidas.

A imagem do vinho brasileiro

Rótulo prioriza a informação ao consumidor | Foto: Rafael Lorenzato

Rótulo prioriza a informação ao consumidor | Foto: Rafael Lorenzato

A boa aceitação dos produtos estrangeiros se deve, em parte, à imagem que o vinho brasileiro tem no mercado local. Por ostentar uma aura de sofisticação, os importados acabam roubando o imaginário do consumidor, que, sem saber o que escolher, opta por indicações de marcas conhecidas, afastando-se do produto nacional.

Os consumidores têm, também, dificuldade de entender as características dos vinhos, e, desconhecendo o que significam as nomenclaturas dos rótulos, ficam sem compreender os porquês das diferenças de preços entre diversos produtos. Fabiano Olbrisch, gerente de marketing da Casa Valduga, identificou esse problema, que ocorria com os seus espumantes, e contornou-o criando uma nova forma de expor as qualidades das bebidas na embalagem. Hoje, elas vêm com a indicação do tempo de descanso nas garrafas, ao modelo consagrado pelos produtores de whisky.

Nessa mesma linha, algumas outras vinícolas vêm inovando, fugindo de embalagens "sisudas", dando um ar de tropicalidade ao vinho brasileiro – e essa é a imagem que se pretende construir, também, no exterior. Contudo, não apenas inovar é necessário, é importante conquistar o consumidor, através de campanhas, uma vez que esse tem tantos preconceitos que ainda acredita, por exemplo, que vinhos cujos fundos de garrafa são curvados são de melhor qualidade.

Vinho português cuja embalagem foge do tradicional | Imagem: Divulgação, Cedro

Vinho português cuja embalagem foge do tradicional | Imagem: Divulgação, Cedro

As modernas bag-in-box, embalagem para os vinhos finos de entrada de algumas vinícolas, já têm tido uma melhor receptividade no mercado jovem. As famosas tampas de rosca (screw cap) dos vinhos brancos, em contrário, ainda enfrentam preconceitos, sendo sinônimos de produtos de baixa qualidade para a grande maioria da população.

O que esses consumidores não sabem, contudo, é que elas são a opção ideal para vinhos de consumo rápido. Uma vez que não envelhecem na garrafa, não precisando, assim, de uma rolha que vá além da função de tampar o vinho.

Projetando uma identidade nacional

O Brasil é um país imenso, que apresenta inúmeras variações climáticas e incontornáveis diferenças culturais. Assim, apesar do Rio Grande do Sul ser o maior produtor vitivinícola do país, é importante essa busca das vinícolas por uma identidade nacional para o vinho.

A brasilidade no rótulo | Foto: Rafael Lorenzato

A brasilidade no rótulo | Foto: Rafael Lorenzato

É claro que o mercado precisa de opções mais convencionais, até mesmo em respeito aos hábitos de degustação do vinho, muito associado a eventos especiais, mas é necessário investir, também, em diversidade, fazendo dela uma das caras do vinho nacional. Que tenhamos, sim, o tradicional, mas que também façamos desconstruções, buscando cortes e técnicas inovadoras, trabalhando, obviamente, com o que o público deseja.

A Dunamis, por exemplo, criou o que eles chamam de "vinho democrático". Concebido a partir das percepções de 120 pessoas, inclusive de fora da vinícola, em diversas fases de um imenso brainstorming.

O serviço na boemia chilena | Foto: Luís Aguirre, Arquivo Pessoal

O serviço na boemia chilena | Foto: Luís Aguirre, Arquivo Pessoal

Uma vez desconstruídos os mitos que cercam o produto, a grande tarefa é retrabalhar o vinho nas taças. Assim, cria-se o ritual de serviço apropriado para cada ambiente e ocasião, aproximando o vinho da boemia e do popular. Afinal, o protagonista não é o vinho, nem o produtor, mas, sim, o consumidor, que, no final, paga por toda a cadeia.

E foi o que o Ibravin fez durante este Carnaval de Porto Alegre, levando o espumante nacional para concorrer com a cerveja nas arquibancadas. O saldo foi positivo: nas duas noites de desfiles das escolas do Grupo Especial, foram vendidas 1.080 taças de espumantes e frisantes, ao preço de R$3,00 cada uma.

Estimular o consumo de vinhos em churrascos ou à beira da praia, associar espumante ao Carnaval, ou mesmo divulgar o vinho tinto como um produto boêmio são exemplos do que se pode fazer para quebrar os paradigmas que impedem que a bebida desfrute da mesma popularidade das cervejas comerciais. Até porque, como diria o próprio samba-enredo da Restinga, "[o vinho] faz bem pra alma e pro coração".

Fonte: esse texto foi elaborado com dados obtidos através de pesquisas realizadas pelo Ibravin e por redes varejistas, além de painéis temáticos apresentados por produtores de vinhos durante o Projeto Imagem 2012.

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Comentários (3)

  • Oscar Daudt diz: 27 de fevereiro de 2012

    Belo texto, Rafael! Visitar a Serra Gaúcha enche a gente de orgulho, não é mesmo?

    Abraços.

    Oscar

  • silvestre tavares gonçalves diz: 14 de março de 2012

    Raefael, foi um prazer poder estarmos juntos conhecendo o sul do Brasil.
    Parabéns pelo texto.

    Abs e saúde
    Silvestre
    http://www.vivendoavida.net

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