Degustar cervejas não é uma tarefa muito simples como se imagina. Ao contrário do vinho, cada estilo de cerveja requer, algumas vezes, preparos específicos, como o tipo de copo e até mesmo a forma de servir. Contudo, vale, para o degustador de cervejas, utilizar um copo padrão para se aventurar no universo de aromas e sabores dessa tão popular bebida.

Cerveja Red Ale artesanal | Foto: Rafael Lorenzato
Antes de começar, é importante definir o foco da degustação. É possível experimentar, em uma mesma ocasião, diferentes produtos de uma mesma marca, assim como se pode, também, e a experimentação é mais rica em termos de aprendizado, provar o mesmo estilo de cerveja, porém, de marcas diferentes. Um exemplo é conhecer, em um mesmo evento de degustação, diversas IPAs, cerveja que, atualmente, por seu caráter aromático, tem tido cada vez maior aceitação pelos consumidores brasileiros.
Outro ponto importante é a temperatura de serviço. Normalmente, cada fabricante indica, em seu rótulo, uma temperatura adequada ao produto e, em geral, quem seguir a recomendação do produtor tende a experimentar o que de melhor a cerveja tem a oferecer. Uma orientação padrão, porém, é procurar servir as ales – cervejas de alta fermentação – entre 7°C e 16°C e as lagers – cervejas de baixa fermentação – entre 4°C e 7°C, lembrando que, quanto mais gelada a cerveja estiver, menor será a percepção de aromas, e que uma cerveja quente pode se tornar intragável. Gelar o copo, porém, é uma heresia para uma boa cerveja.
Em termos de aparência, avalia-se a cor da bebida, que pode ir do amarelo-palha ao preto-opaco, conforme a escala SRM. Para o degustador moderno, uma dica: há aplicativos para celular que trazem essa tabela e facilitam na hora de definir qual a cor da cerveja que se está experimentando. Mais importante que a cor é a transparência, que indica se a bebida foi filtrada ou não. Cervejas artesanais, por exemplo, costumam não ser filtradas e apresentar uma turbidez natural. Já uma cerveja filtrada industrial, se apresentar turbidez, pode ser sinônimo de defeito.

Classificação de cores SRM | Imagem: Divulgação
Outro fator relevante é a espuma. Mais do que estético, o famoso colarinho é resultado da quantidade de carbonatação (CO²) e tem a função primordial de manter as sensações aromáticas, gustativas e a cremosidade da cerveja. Além disso, ajuda a manter o gás, o que deixa o produto com uma maior refrescância. Um colarinho persistente e bolhas de gás mais delicadas – a exemplo de uma perlage fina, se estivéssemos falando de espumantes – representam qualidade na cerveja.
Feita a análise visual da cerveja, é preciso partir para a olfativa. Como muitos dos aromas da cerveja são facilmente volatizados, é importante percebê-los logo que a bebida é servida, através de fortes aspirações próximas à borda do copo. Essa primeira análise é a que oferece uma maior riqueza de resultado. À medida em que a espuma vai baixando, é necessário voltar a dar atenção aos aromas, uma vez que o colarinho mascara algumas sensações no nariz. É claro que, para perceber aromas, assim como no vinho, é preciso treinar o nariz, assim como é importante que o ambiente em que se está degustando esteja livre de odores, para não influenciar na apreciação.
Alguns toques aromáticos são provenientes do malte, outros do lúpulo, e outros ainda vêm de ingredientes acrescentados ao mosto durante a fervura da cerveja, como casca de laranja, coentro, dentre outros. É importante, então, separar essas sensações, procurando categorizá-las de acordo com a origem. Dessa forma, teremos toques que podem lembrar o malte; outros, a levedura utilizada; e também notas de tostado, especiarias como cravo; frutas, como banana ou maracujá; e assim por diante, tudo dependendo das características que o cervejeiro quer impor ao seu produto final. Há, também, os off-flavours, que são os odores desagradáveis que podem ser encontrados na bebida, como papelão, sabão, antibiótico, por exemplo, provenientes de erros durante o processo de elaboração da cerveja.
Gustativamente, a cerveja oferece inúmeras sensações. Logicamente, o primeiro gole é o mais importante, e também o melhor para a apreciação da bebida. É recomendado ingerir uma quantidade suficiente para preencher toda a boca, para, então, manter a bebida em contato com a língua por alguns segundos, para que as papilas gustativas possam receber a informação de forma mais precisa. Nessa fase, também é avaliado o corpo da cerveja, através da análise da sua viscosidade, podendo a bebida ser leve ou encorpada, e também são percebidos elementos como acidez e adstringência.
Nesse momento que se deve buscar entender a harmonia da cerveja, levando em consideração a quantidade de malte, de lúpulo, sua carbonatação e alcoolicidade. Não existe padrão de certo ou errado, o importante é a cerveja ter equilíbrio.
Depois de engolir, deve-se perceber as sensações do fim de boca, ou seja, o retrogosto. São elas que definem o tom exato de amargor e doçura; de refrescância e adstringência; de picância e acidez. Ou seja, definem a chamada drinkability, que nada mais é do que a vontade de beber a mesma cerveja novamente.