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O Grêmio e o Futebol Orgânico

03 de julho de 2017 4

Há um consenso nacional: o Grêmio está jogando o futebol mais bonito do Brasil. Há quem diga que seja o futebol mais bonito da história do tricolor. São opiniões, mas a verdade é que desde o Grêmio do Tite (2001/03) não se via um futebol tão vistoso do Rei de Copas. Eu gosto de usar um conceito que expressa muito bem quando um time joga dessa forma. Pra mim, ele pratica um “Futebol Orgânico”.

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Foto: Félix Zucco (Agência RBS)

FUTEBOL ORGÂNICO

Existem diversos estudos sobre comportamentos coletivos na natureza. O movimento das formigas, o vôo das pombas, ou como os cardumes de sardinhas se defendem dos predadores. Tudo na natureza possui um padrão, que nasce de comportamentos individuais e se torna um coletivo único que reage de acordo ao ambiente e desafios do momento de forma organizada.

E com os humanos não é diferente. Existem empresas que estudam os padrões coletivos nos shoppings, nos supermercados e nos grandes eventos. Nós, como parte da natureza terminamos criando padrões, e todo padrão pode ser medido, condicionado e desafiado a evoluir.

Se nós pensarmos em um time de futebol como um organismo vivo, onde cada jogador é uma parte dentro de uma estrutura sistêmica, chegamos a um conjunto de comportamentos individuais que geram padrões coletivos, de defesa e de ataque. Assim como o cardume de sardinhas se expande para assustar aos predadores, um time de futebol se amplia para atacar o adversário.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Pense no processo da respiração humana. Quando inspiramos, enchemos o corpo de ar e o pulmão se expande. Quando expiramos, tiramos esse ar e o pulmão se retrai. Inspira e expira. Expande e retrai. Com a bola, o time inspira e expande. Sem ela, expira e retrai.

Amplitude, profundidade, recomposição e compactação do time. Comportamentos individuais e coletivos que encontramos na natureza. A grande diferença é que no futebol, esses comportamentos são trabalhados e inculcados em atletas para que realizem os mesmos em uma partida contra um adversário com quem não se combinou nada e que trará comportamentos inesperados.

Esse é o Futebol Orgânico: cada comportamento individual chega a um alto nível de qualidade em pro de um modelo de jogo e de forma tão natural, que o coletivo se torna um organismo vivo, completo e mutável.

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TEMPO PARA CONSTRUIR

Para um time executar o “futebol orgânico”, demanda tempo de construção, repetição e realização das ideias e comportamentos. Exige um trabalho multidisciplinar alinhado e que envolva todos dentro do clube, da direção ao fisiologista, do treinador ao analista de desempenho, dos atletas aos preparadores físicos. Não é fácil fazer um time de individualidades se comportar como um organismo coletivo vivo.

O chamado “jogo de posição” só é executado com perfeição quando o time alcança o estágio de “futebol orgânico”. Quando cada jogador é uma parte de um organismo maior e sabe onde precisa estar para realizar suas funções e também para cobrir a um companheiro que vai realizar outra função. Assim todos mantêm ao organismo vivo. E respondem aos desafios do adversário e do ambiente de forma orgânica e coletiva. É natural!

Cruyff e Guardiola. Ambos criadores e criaturas do Futebol Orgânico. Foto: divulgação

Cruyff e Guardiola. Ambos criadores e criaturas do Futebol Orgânico.
Foto: divulgação

Dois exemplos claros de “futebol orgânico” do passado são a Seleção da Holanda de 74 e o Barcelona de Guardiola. Se a Laranja Mecânica foi fruto de uma revolução cultural de toda uma geração (como bem conta o livro “Invertendo a Pirâmide”), o Barça de Guardiola foi fruto de um planejamento multidisciplinar que veio desde as categorias de base. Nos dois casos, em campo havia um time que jogava como se fosse um organismo vivo, coletivo, independente e complexo.

E por se apresentarem assim, encheram os olhos dos torcedores, encantaram com sua orquestração orgânica, como se fossem um cardume no oceano ou uma revoada de andorinhas no horizonte. Cada jogador individualmente se comportava de acordo ao o que o organismo coletivo exigia para sobreviver, inclusive depredar aos adversários.

TUDO LINDO, MAS E O GRÊMIO?

O Grêmio executa hoje um futebol orgânico. Se engana quem pensa que isso aconteceu do dia pra noite. E se engana mais ainda quem pensa que isso é fruto de uma pessoa só, de um jogador apenas ou de um treinador específico. O tricolor alcançou esse grau de organicidade graças a um trabalho multidisciplinar, sistêmico e de longo prazo.

Os presidentes Fábio Koff e Romildo Bolzan Jr são os responsáveis por parte da direção nesse processo. Pela forma como conduziram a estruturação do clube, da base ao profissional. Por terem acertado mais do que errado, até porque levaram sempre em consideração o fortalecimento sustentável do futebol, mesmo com o clube endividado.

Um destaque nesse sentido foi o trabalho de Júnior Chávare nas categorias de base a partir de 2013. O Grêmio mudou sua filosofia de captação e de metodologia: perfil do jogador formado pelo clube começou a ficar mais próximo ao que vinha sendo utilizado pelos grandes europeus.

Ou seja, formar jogadores que entendessem e praticassem um jeito de jogar: dominância pela posse de bola, jogo apoiado, triangulações, muita mobilidade entrelinhas, ocupação inteligente de espaços. Atleta seria condicionado nesses princípios, chegando ao profissional com esse perfil de jogo.

A lista de atletas que passaram por este forno (alguns formados no tricolor, outros captados) é grande: Arthur, Luan, Éverton, Pedro Rocha, Walace, Ramiro, Wendell, Alex Telles, Batista, Tontini, Araújo, Tilica, Marcelo Hermes, Jaílson, Lincoln, Kaio, Pepê e outros que ainda virão. Se o Grêmio quer manter este modelo de jogo ao longo dos anos, independente do seu treinador no profissional, esse trabalho na base precisa continuar. Sob o comando de Francesco Barletta atualmente, as perspectivas são promissoras.

Categoria de base Foto: Diego Vara

Categoria de base
Foto: Diego Vara

TÉCNICO E COMISSÃO PERMANENTE

É bom lembrar que foi Enderson Moreira que começou a utilizar a plataforma 4-2-3-1 em 2014, mantida por Felipão, Roger e Renato até hoje. Com a saída de Luis Felipe Scolari e a chegada de Roger Machado em maio de 2015, houve uma ruptura na metodologia de treinamento do profissional.

Roger implantou rotinas dentro de uma metodologia integrada, que começou a preparar os atletas para reconhecerem comportamentos táticos individuais e coletivos de ataque e defesa, simulando situações de jogo. Incentivando soluções através da tomada de decisão.

Este método pode ser compreendido como aquele capaz de aproximar o treinamento a realidade do jogo por meio de rotinas educativas. Ele também é chamado de estruturalista, pois a principal característica reside em criar modificações na estrutura do jogo, onde se reduz sua complexidade (número de jogadores, regras, tamanho do campo), porém sem alterar os componentes essenciais do jogo.

Roger Machado Foto: André Ávila

Roger Machado
Foto: André Ávila

Estas ideias de Roger encontraram eco nas ideias já trabalhadas nas categorias de base e principalmente, nas ideias da comissão permanente do Grêmio, formada antes da efetivação de Roger. O técnico auxiliar James Freitas, o preparador físico Rogério Dias e o preparador de goleiros Rogério Godoy entraram em total sintonia com Roger, e conseguiram muito rapidamente vender aos atletas as ideias. E o grupo abraçou a causa.

É importante destacar o papel de James Freitas na transição de Felipão para Roger e de Roger para Renato. Com suas ideias e sua capacidade, foi parte fundamental na construção do modelo de jogo gremista que levantou a Copa do Brasil e hoje encanta o país. Trabalho hoje muito bem continuado por Alexandre Mendes.

O trabalho físico, médico e fisiológico da comissão permanente também colhe seus frutos hoje. Com tempo e possibilidade de executar planejamentos, os profissionais colocam sua competência na construção de um modelo multidisciplinar e integrado de longo prazo, o que permite o surgimento de um futebol orgânico em uma equipe.

Quando Renato Portaluppi chegou ao Grêmio, encontrou um ambiente de trabalho funcional e com ideias e metodologias que vinham sendo planejadas e executadas desde a sua última passagem pelo clube em 2013.  E principalmente, encontrou uma coluna vertebral de time que tinha um modelo de jogo bem internalizado e que precisava de ajustes para se tornar um organismo vivo coletivo e mortífero.

SAP HANA E A ANÁLISE DE DESEMPENHO

Quando o Grêmio contratou o software alemão de gestão e análise SAP HANA, foi criticado por parte da imprensa e da torcida. Como quase sempre, na nossa província há uma enorme resistência `a inovações e novidades. Em 2014 começou a ser usado no futebol e em 2015 na gestão do clube.

O então vice-presidente Antônio Dutra Jr e o hoje vice Odorico Roman acreditaram no potencial da ferramenta, e mesmo que hoje ela ainda não esteja em 100% da sua utilidade, ela foi fundamental para a evolução do modelo de jogo tricolor e para a gestão do clube.

Foto: divulgação SAP

Foto: divulgação SAP

Com auxílio de um matemático equatoriano formado em Harvard da Kin Analytics, os analistas tricolores criaram índices de performance para avaliar atletas. A partir destes índices, treinador e comissão criavam rotinas de treinos para evolução do desempenho individual que somasse no desempenho coletivo (comportamentos individuais que levam a um padrão coletivo “orgânico”).

Por exemplo, a velocidade de circulação da bola. O tempo que cada jogador permanece com a bola no pé. O meia Walace tinha índice de 3,34 segundos e evoluiu para 2,5 segundos. Foram criadas rotinas de treino para que o atleta soltasse a bola mais rápido, e o time fosse mais intenso e eficiente.

O trabalho dos analistas de desempenho do CDD (hoje são Eduardo Cecconi, Antônio Cruz e Rafael Tavares), ganhou espaço e reconhecimento desde Ederson Moreira, e hoje é fundamental para a construção do belo futebol orgânico do time profissional. Não há evolução do jogo sem análise de desempenho!

RENATO E UM FUTURO PROMISSOR

Renato Portaluppi sabe muito bem gerenciar um vestiário, e isso é uma característica muito importante de um bom treinador. Mas ele também mostrou inteligência e humildade ao se adaptar a todos estes conceitos e ideias que já estavam sendo cultivadas no Grêmio há anos, em vez de querer impor as suas vontades simplesmente. E ao se adaptar, trouxe ajustes que fizeram o time evoluir naturalmente.

Ele encontrou um time com obsessão por reproduzir o jogo apoiado, que sabe preencher o campo do adversário, que coloca jogadores na frente da linha da bola, que sabe pressionar no último terço, que gosta de dominar o jogo com a posse de bola e que entende mobilidade e flutuação entrelinhas como uma vantagem tática.

Renato

Foto: André Avila

Além disso, atletas que começam a se integrar da base já chegam com esses princípios internalizados. Por isso, jovens como Arthur, Pepê, Nicolas Careca ou Jaílson entendem com facilidade como o time joga.

Renato, que sempre teve boas soluções defensivas em seus times no passado, ajustou o encaixe na marcação. Valorizou mais a verticalização das jogadas, trouxe os extremos para jogarem por dentro, liberou a subida dos laterais ofensivamente. Adaptou novas contratações ao elenco e ao modelo de jogo. Com ajustes, foi dando a sua cara para um trabalho que tem muitas caras e nomes. Foi fazendo a sua parte para que este coletivo se torne um organismo vivo, que pratique um futebol orgânico.

Hoje o Grêmio é favorito nas três competições que disputa. Pode não ser campeão em nenhuma, mas a naturalidade e a beleza que o time desempenha o seu futebol já são memoráveis. O torcedor precisa saber que isto é fruto de um trabalho e um planejamento de longo prazo, que envolve dezenas de profissionais capacitados e alinhados em uma filosofia.

O dia que Renato Portaluppi deixar a casamata, o seu substituto encontrará toda essa imensa evolução a seu dispor. E mesmo assim, precisará fazer ajustes e aspectos para evoluir. O futebol, assim como a vida e a natureza, enfrenta constantes desafios. E um organismo para sobreviver precisa ter os recursos e saber se adaptar a estes desafios. Permanentemente.
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Comentários (4)

  • Wander Vinicius Agostini diz: 4 de julho de 2017

    Parabéns pelo texto, fez o texto “formal” ficar simples e didático.

  • Bruno diz: 4 de julho de 2017

    Ótima analise, mas uma coisa me chama atenção aqui no Brasil, a tal da intensidade.
    Não entendo como evolução o jogador soltar a bola mais rápido, pois, se pegarmos os volantes mais medíocres do Brasil veremos que ficam poucos segundos com as bolas nos pés. A bola queima nos pés de quem é fraco e não sabe o que fazer com ela. Os volantes brasileiros são os campeões de passes para trás e para o lado. Futebol não é curto nem largo, não é lento nem rápido futebol é engano. A intensidade no Brasil é fazer muito e muito rápido, não importa com qual critério, qualidade ou ideia por trás do passe, intenso é aquela que faz o mais rápido possível. A bola roda e roda rápido na troca de passes do time do inter por exemplo, mas do zagueiro ao lateral, ao volante que volta para o zagueiro que torna ao lateral. Para terminar, o volante evoluído saiu do Grêmio para o Hamburgo, qual ultimo volante brasileiro que saiu para grande mercado e se firmou?

  • Thales Franco diz: 5 de julho de 2017

    Excelente texto. Orgulho de ver a gestão do Grêmio ser analisada desta forma tão completa. Poderia ser comparada à gestão da Seleção Alemã.

  • Paulo Roberto Deitos diz: 8 de julho de 2017

    Perfeita a análise, só as datas e os protagonistas estão errados.
    Modéstia a parte GUFFO, isso começou em 2009, quando chegamos na Base, eu, Mauro Rocha e Edson Aguiar.
    Não existia análise de desempenho e junto com Rafael Vieira, na época analista do profissional, desenvolvemos um centro que é o atual(resguardando claro, as novas ferramentas desenvolvidas a partir daí).
    O Edson implantou o modelo de jogo e as avaliações e Mauro coordenava.
    Implantamos um PE exclusivo para as CB. Viajamos para Itália, Holanda e Suiça, junto levávamos CDs individuais com 10 minutos de jogadas praticadas por cada jogador da base.
    O próprio Roger começou sua carreira participando de seminários das CB, onde o professor Edson desenvolvia a forma de jogar desde o sub 10 ao sub 20.
    Teria muitas outras narrativas, mas aqui acho que o espaço é insuficiente.
    Abraços.

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