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"Turismo de SC não é de um foco, mas de 30 focos"

13 de setembro de 2009 0

Josep Chias, consultor de marketing que elaborou 105 planos turísticos, a maioria na Europa e América/Divulgação

Do Informe Econômico

(Entrevista na íntegra com o consultor Josep Chias, que está elaborando o Plano Catarina de marketing turístico ao Estado).

Santa Catarina é muito grande em território e produtos turísticos, por isso pode atrair público diversificado. O turismo do Estado não é de um foco, mas de 30 focos. Estas afirmações são do espanhol catalão Josep Chias, um dos maiores especialistas em marketing turístico do mundo e sócio da Chias Marketing, empresa contratada pelo governo do Estado por R$ 500 mil para fazer o Plano Catarina. Trata-se de um conjunto de estratégias de marketing para ser implementado até 2020 e viabilizar salto maior ao setor turístico, que representa cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, conforme estudo da Oxford Economics.

Josep Chias esteve no Estado na última semana de agosto, onde fez uma série de reuniões com o trade turístico das regiões do Vale Europeu, Caminho dos Príncipes, Costa Verde Mar, Serra Catarinense e coletou opiniões. Segundo ele, dos 105 planos de marketing turístico que elaborou pelo mundo, 103 tiveram êxito. É autor, por exemplo, do slogan “Brasil Sensacional”, criado para a Embratur; e da marca espanhola Sol de Miró. Chias conversou com a coluna sobre SC, Brasil e crises no setor.

O senhor elaborou 105 planos de marketing turístico. Quais tiveram melhor êxito?

Josep Chias _ Se respondo do ponto de vista mais emocional, com o coração, acho que foi o plano que eu fiz para Barcelona, minha cidade. Há também os da Catalunha e Espanha, afinal, nem todos profissionais têm a sorte de fazer essa trajetória no seu país. Se falarmos do ponto de vista de resultados, dos 105 planos, 103 foram bons e dois não tiveram o êxito esperado. Desses, um foi na Paraíba, contratado pelo setor privado e o governo não participou porque achava que o turismo não era prioritário. O outro, foi um projeto diferente, para um lugar pequeno, o prefeito faleceu e nunca foi implantado. São planos que, no final, sempre são concretizados porque eles definem 50 coisas que precisam ser feitas e também me preocupo muito em estabelecer os mecanismos para garantir a continuidade. Se isso não ocorrer, não faço o trabalho. 

Como avalia a evolução do Plano Aquarela que o senhor fez para impulsionar o turismo brasileiro?

Chias _ O Brasil é um país diferente. Para mim, é uma mistura do emocional com o racional porque tenho com ele um relacionamento muito afetivo. É o único país do mundo onde tenho escritório, além de Barcelona. No nosso escritório, em São Paulo, o único estrangeiro sou eu. Comecei no Rio, fiz o plano do Rio de Janeiro, depois o de São Paulo e outros. O Plano Aquarela, que fiz para o Ministério do Turismo e à Embratur, está indo muito bem porque, a cada ano, a receita é recorde sobre o ano anterior. Fazemos avaliação com um indicador objetivo, que é todo o dinheiro que passa pelo Banco Central.

Mas os visitantes gastam mais do que é registrado pelo BC?

Chias _ As pessoas, quando viajam, levam muito mais. Mas estabelecemos com os ministros do Turismo anteriores e o atual, Luiz Barreto, e com a presidente da Embratur, Jeanine Pires, que seria usado o dado do BC porque é um indicador objetivo. A quantidade de dinheiro que o turista leva é muito maior. Em média, a receita gerada é equivalente a três vezes a que aparece no BC. Quando vem um europeu, o gasto dele depende se optou por pacote de viagem e outros fatores. Um argentino, que gosta muito do Brasil, traz no bolso quase todo o dinheiro que vai gastar. Como eles não confiam nos seus bancos, têm dinheiro no bolso e não no banco.

Como avalia o potencial de SC para crescer no turismo?

Chias _ Eu gosto de colocar dois aspectos. O Brasil é um país que, turisticamente, tem muito potencial, pela sua imensidão. Mas o fator limitante é o transporte aéreo, tanto internacional quanto interno. Este é o maior problema. Imagina que você vem da minha cidade, Barcelona, e quer ir a Manaus, Piauí, Acre ou Pantanal. Para ir a Manaus, por exemplo, você tem que ir até São Paulo, pegar mais um avião para Brasília e, depois, pegar outro, para Manaus. Acredito que todo o mundo quer visitar uma vez na vida a Amazônia. O Brasil tem atrativos importantes, mas o problema é a mobilidade. Este problema ocorre também para vir a Florianópolis. Não é fácil chegar aqui.

E as atrações?

Chias _ Além disso, há muitos recursos naturais e algumas coisas culturais que ainda não foram transformados em produtos turísticos. Há praias maravilhosas, cenários maravilhosos, mas não há pousadas confortáveis. Nem todo o turismo é de mochila, de farofeiro. Na minha idade, por exemplo, prefiro não fazer turismo de mochila. Muitos turistas precisam de equipamentos de melhor qualidade. Acho que o Brasil precisa melhorar isso. Em Santa Catarina há locais lindos mas sem infraestrutura. Um exemplo são os cânions. Muitas pessoas gostam de turismo de aventura, mas não pode ser tudo uma aventura: aventura para comer, para dormir… É demasiada aventura.

Qual a sua avaliação sobre o marketing turístico no Brasil?

Chias _ O nível de qualidade do marketing turístico do Brasil, em geral, ainda é bastante fraco. Você trabalha muito em promoção, dentro de uma perspectiva mais operacional de curto prazo, mas numa estratégia de longo prazo há pouca gente trabalhando. Um exemplo de quem trabalhou o longo prazo, em nível estadual, por muito tempo, é a Bahia. Agora esse trabalho está interrompido. O Ceará também teve um bom momento. O marketing ainda não foi entendido como investimento, mas sim como promoção e despesa. E isso não deveria ocorrer.

Acha que deveria ser colocado na legislação?

Chias _ É bom ter um fundo de promoção e lei que obriga a definição de um plano de marketing. Acho importante encontrar mecanismos legais para garantir a continuidade sobre possíveis mudanças quando há troca de governo.

Como será o Plano Catarina?

Chias _ Estamos na fase de diagnóstico. Anotamos as idéias e vamos verificar se são boas ou não. É evidente que temos que trabalhar uma nova mensagem do Estado como destino turístico, que inclui também uma marca, mas isso é só uma parte. O Estado deve ser o guarda-chuva das marcas regionais, que devem se relacionar em nível de cidades e com o setor privado de turismo. Também vamos definir uma estratégia de mercado porque, como os recursos são escassos, precisamos estabelecer prioridades compartilhadas por todos. É preciso partir de uma idéia que temos que reforçar os destinos importantes porque são eles os indutores dos demais. O destino sol e praia é um que acrescenta porque o inverno daqui é suave. Todas as pessoas do Sul do Chile e da Argentina ou do Norte da Europa gostariam de ter esse verão. É uma questão de saber informar bem onde estamos.

Que tipo de turista o Estado deve buscar?

Chias _ Santa Catarina é muito grande em território e produtos, por isso pode atrair um público diversificado. Pode ter público para o turismo mochileiro, de aventura, ecológico, de eventos, sol e praia… Não é um lugar para apenas uma aposta de turismo, o que pode ser feito numa cidade. Porém, o conjunto do Estado não é de um foco, mas de 30 focos, como estamos trabalhando neste plano.

O turismo sofreu com a crise global, queda de aviões e gripe A. Como foi o impacto de todas essas crises no setor?

Chias _ Vamos superar todas. O Brasil teve um exemplo. Quando a Varig faliu, outras companhias logo absorveram o impacto e conseguiram uma geração maior de recursos. Segundo pesquisas, o turismo internacional superou todas as crises. Cada vez que há uma crise, o setor cai, mas depois volta e continua crescendo. Isto porque quando as pessoas atingem um certo patamar de renda, sua vida agrega o turismo rapidamente e, quando elas perdem um pouco essa média de renda, reduzem despesas e os dias de viagens, mas continuam viajando. A maioria busca o que chamamos da síndrome de Sant Clauss, os três “Bs”, bueno (bom), bonito e barato.

O senhor falou na reunião com o trade local sobre o modelo de parques americanos. Ele pode ser adotado aqui?

Chias _ Os parques americanos têm duas coisas: uma filosofia de que a preservação pode acontecer com uso controlado, capacidade de carga; e a segunda coisa é que eles entendem que, para que a gente tenha um comportamento próximo da natureza, é melhor conhecê-la, ai você faz interpretação, orientação e controle. Eles controlam muito o que acontece e isso gera renda às pessoas que moram nessas regiões. Acho que essa mentalidade poderia ser agregada aqui. Copiar quem faz bem é uma forma de aprender.

Já fez plano turístico para a China?

Chias _ Fiz um plano para a cidade chinesa de Nanjing, conhecida como cidade imperial, que quer ser a capital do sul do país, como Beijing quer ser a capital do norte. É uma cidade com metas maiores. Quer atrair 60 milhões de turistas, desses, 59,5 milhões de chineses, afinal, tem muita gente lá. Não é fácil trabalhar com a China, mas, provavelmente, no ano que vem, voltarei a fazer mais um plano naquele país.

Notas

  • Plano de longo prazo

    O secretário de Estado de Turismo, Esporte e Lazer, Gilmar Knaesel, e o presidente da Santur, Valdir Walendowski, acompanharam atentamente o trabalho do consultor internacional Josep Chias em SC, numa etapa da elaboração do Plano Catarina. Mas, na verdade, o governo, há anos, vem blindando o Estado para que ele tenha ações permanentes de desenvolvimento turístico, independentemente do executivo de plantão.

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