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Contra juros de até 550% ao ano nos cartões

29 de agosto de 2010 3

Muitos consumidores, animados com a praticidade dos cartões de crédito, não sabem que estão pagando as taxas de juros mais altas do mundo. Ao parcelar uma fatura em atraso paga juro de 12% ao mês, o que, no acumulado no ano, chega a 550%. Para se ter ideia da distorção, os juros básicos da economia brasileira estão em 10,75% ao ano e algumas linhas do BNDES para empresas, que são subsidiadas por todos os brasileiros, custam apenas 4,5% ao ano. É contra esse custo estratosférico de juros aos consumidores nos cartões e outros custos altos que envolvem essa indústria de dinheiro de plástico que a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), presidida pelo catarinense Roque Pellizzaro Junior (foto), vem desenvolvendo uma longa cruzada. Uma das vitórias foi a mudança nas maquininhas.

Roque Pellizzaro Junior

Presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas desde 2007, o empresário e advogado Roque Pellizzaro Junior tem como maior desafio do seu mandato na entidade a redução dos custos altíssimos das operações de cartões de crédito no país, para consumidores e lojistas. Natural de Curitibanos, Meio-Oeste de Santa Catarina, foi presidente da CDL da sua cidade por três mandatos e exerceu, por duas vezes, a presidência da Federação das CDLs de Santa Catarina antes de chegar à entidade máxima dos lojistas no país.

Qual é a vantagem de uma única máquina para cartões nas lojas?
Roque Pellizzaro Junior
– Tínhamos um contrato entre a Visa e a antiga Visanet, hoje Cielo, que obrigava que os cartões Visa só poderiam ser recebidos pela credenciadora Visanet. E a Visanet não poderia receber nenhum outro cartão que não fosse o Visa. Isso fazia com que existissem dois monopólios no Brasil, o Visanet Visa e o Redecard Mastercard. Lembrando que Visa e Mastercard são bandeiras que representam 97 % do mercado de cartões de crédito no país. Com isso, o foco todo da indústria de cartões era nos emissores, os bancos. Quanto mais cartões de uma bandeira eram emtidos, mais clientes tinha, e isso fazia com que os comerciantes pagassem mais de taxa para as credenciadoras Visanet e Redecard. Com a mudança, as máquinas da Cielo (ex-Visanet) e da Redecard podem receber todos os cartões e a gente cria uma concorrência entre as duas. O foco deixa de ser o emissor bancos, e passa a ser o lojista.

As credenciadoras vão ganhar menos com essa mudança?
Pellizzaro
– Elas devem perder, de mercado, em torno de 45% nos próximos 12 meses. Nenhum lojista vai ficar com duas máquinas. Ninguém vai gastar duas vezes para ter a mesma coisa. Com isso, elas vão perder mercado e faturamento no aluguel de equipamento. Só na Redecard, o aluguel representava 23% do faturamento. Para as duas, a receita somava R$ 1,5 bilhão de aluguel de maquininhas. Este valor vai baixar para cerca de R$ 1 bilhão a menos em locação, fora uma perda na taxa de desconto de 20% a 30%. Uma empresa que pagava 5% vai pagar 4,2% ou 4% de taxa de desconto. Isso vai adequar melhor o mercado.

A CNDL está incentivando o aumento da concorrência?
Pellizzaro
– Já temos a Getnet junto com o Santander, e a First Data, que é a maior credenciadora do mundo, sinaliza que vem para o Brasil. Está procurando parceiros, entre os quais nós, as CDLs. A bandeira Elo está sendo ressuscitada pelo Bradesco e Banco do Brasil.

O que o consumidor paga?
Pellizzaro
– O consumidor paga tudo nos cartões. Paga o valor que está embutido na mercadoria, que é a taxa de desconto, e a taxa de antecipação. Quem recolhe a taxa é o lojista, mas quem paga é o consumidor. Além disso, existem os custos vinculados ao emissor, que são as taxas de anuidade cobradas do consumidor e as taxas de juros cobrados na venda parcelada com juros ou no parcelamento rotativo.

O juro do rotativo é aquele altíssimo. Vai cair?
Pellizzaro
– O custo do pagamento parcelado (crédito rotativo) dos cartões ainda nem sinalizou em cair. Vai até 12% ao mês, ou seja, acima de 550% ao ano. Para nós, como comerciantes, isso nos preocupa muito. Quando o consumidor gasta muito pagando juros não sobra dinheiro para gastar em compras. Tanto que o nosso projeto interno, na confederação, se chama Eu quero o meu consumidor de volta. Não quero que ele pague juro, quero que ele gaste comigo. Todo o nosso trabalho, hoje, na área de regulamentação do cartão, junto com o Congresso Nacional, Governo, através do Banco Central, do Ministério da Justiça, em relação ao consumidor visa a reduzir isso, e tabelar efetivamente esses custos, unificar, padronizar as formas de cobrança aos consumidores.

Para evitar o pagamento mínimo da fatura?
Pellizzaro
– Para se ter uma ideia, se você pegar uma fatura de cartão de crédito vai ver o total da fatura e, com destaque, o valor mínimo a pagar, que é bem pequeninho, induzindo a pessoa a pagar o mínimo, ao invés do valor total. Quando é uma pessoa esclarecida, que sabe os custos das taxas de juros dos cartões, tudo bem, ela vai saber que o melhor é pagar tudo na data do vencimento. Mas quando você pega pessoas das classes C e D e E, que não têm conhecimento de finanças, essa indução leva a cair na areia movediça do crédito rotativo, que tira renda das pessoas. Por isso, o nosso trabalho é solicitar que o governo tabele esse processo e padronize a forma de apresentação, seja por nomenclatura ou layout.

Como resolver as perdas quando o sistema do cartão tem falha?
Pellizzaro
– Também estamos cobrando mais responsabilidades de toda a cadeia de cartões. Por exemplo, dia 24 de dezembro do ano passado, a Redecard teve problema técnico e deixou milhares de lojistas sem poder vender. Quem é que paga essas perdas? Hoje, não imputamos responsabilidade a alguém. Nós precisamos ter isso muito mais firme como o sistema bancário. É preciso de uma lei que defina que credenciadoras e bandeiras são agentes financeiros, aí o Banco Central poderá intervir nelas.

Notas

Classes

Pesquisa da Associação Paulista de Supermercados apurou que as compras com cartões de crédito nas lojas do setor passaram de 20% do total para 40%, entre 2005 e 2010. Esse aumento no país ocorreu com o avanço das classes C, D e E. Há 153 milhões de cartões no país, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços. Desses, 60% são de pessoas das classes C, com renda mensal entre R$ 1,1 mil e R$ 4 mil.

Crédito

A média diária de emissão de novos cartões de crédito é de 48,5 mil, segundo dados da Abecs. No primeiro semestre do ano, foram emitidos no país 8,7 milhões de cartões. No período, os números foram 44% maiores do que nos mesmos meses do ano passado.

Pagamento

Na visão da CNDL, o lojista pode vender à vista com dinheiro e com cartão com preços diferentes. Existe uma decisão do STJ que transitou em julgado, promovida pelo Sindilojas do Distrito Federal, que reconhece que isso é possível porque não existe nenhum preceito legal que diz que a venda com cartão é à vista, porque o lojista recebe 30 dias após.

Indústria

A própria indústria de cartões de crédito, integrada por bandeiras, credenciadoras e bancos, começa a discutir, internamente, para equilibrar ganhos e perdas diante do novo cenário. Isto porque o emissor estava ganhando demais com os juros, o credenciador estava ganhando demais com a taxa de desconto e a antecipação, e a bandeira ganhando dos dois de forma excessiva. 

Comentários

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Comentários (3)

  • Pedro diz: 29 de agosto de 2010

    Digamos assim, se as pessoas deixassem de “rolar” suas dívidas nos cartões, obviamente que aquelas empresas abaixariam seus juros. Aliás, nos cartões vinculados aos bancos, os juros variam em função da reciprocidade eou da gama de negócios elencados entre eles e os clientes. Ainda, são enormes as diferenças entre as diversas bandeiras eou bancos emissores. Então, acontece que a demanda é tanta que os emissores se fartam em juros. A utilização consciente, por si só, seria o divisor das taxas e juros. Daí, a população em geral tem que aprender que muito mais do que “poder” pagar as parcelas mensais, está em jogo a sua inteligência ao não transformar seu dinheiro em juros a pagar. Pois é.

  • João Carlos Jaszczerski diz: 29 de agosto de 2010

    Qual a explicação para que o juro do cartão de crédito seja tão alto (12% ao mês), se a poupança rende 0,6%, em média e juros bancários chegam a 5%?

  • LUIZ HENRIQUE ALVES diz: 29 de agosto de 2010

    São juros mais altos do que do cheque pessoal. Só compra em parcelas sem juros ou à vista.
    Desta forma, o cartão de crédito, vale a pena. Nunca parcelo fatura final.
    Atenciosamente,
    LUIZ HENRIQUE ALVES – CURITIBA/PR.

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