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Para imitar o Vale do Silício no social

23 de outubro de 2010 0


Emmett Carson, convidado especial do TiB – Together is Better

Todas empresas devem ter projetos sociais porque são beneficiadas por eles. Esta é a síntese da mensagem de uma das maiores autoridades mundiais em investimentos comunitários, o fundador e presidente da Fundação Comunitária do Vale do Silício (Silicon Valley Community Foundation), Emmett Carson, convidado especial do TiB – Together is Better – Seminário Internacional de Tecnologia para a Mudança Social, realizado quarta e quinta-feira, em Florianópolis. A Fundação do Vale do Silício tem um patrimônio de US$ 1,7 bilhão, constituído por mais de 1,5 mil de fundos de doações de empresas de tecnologia da Califórnia, entre as quais a Facebook, eBay, Google e Sun Microsystems. Ela faz a gestão para que os resultados sociais sejam alcançados. Antes da palestra de quarta-feira, Carson conversou com a coluna. Leia a entrevista.


Emmett D. Carson

É fundador, presidente e diretor executivo da Fundação Comunitária do Vale do Silício (Silicon Valley Community Foundation). Baseada em Mountain View, Califórnia, é uma das principais instituições de desenvolvimento social dos EUA. É um estudioso da área, trabalhou para o congresso americano, a Fundação Ford, que é a maior do país, e, depois, dirigiu a Fundação Comunitária de Minneapolis. Natural de Chicago, tem pós-doutorado em Relações Públicas pela Universidade de Princeton e é autor de mais de cem trabalhos sobre justiça social e análise de políticas sociais. É casado e tem uma filha.

O senhor veio a Florianópolis para falar sobre investimento social para empresas de tecnologia. Como vê essa oportunidade?

Emmett Carson _ Chamam Florianópolis de Silicon Valley do Brasil. Acho essa troca de ideias importante porque vocês podem aprender conosco e nós podemos aprender com vocês. As empresas podem contribuir muito com base no modelo do Silicon Valley, que desenvolve trabalhos junto com a comunidade.

Como as empresas podem contribuir para a filantropia?

Carson _ A minha mensagem é que, tanto pequenas quanto grandes empresas podem colaborar com doações em dinheiro ou com o talento intelectual dos seus colaboradores. A filantropia é medida não pelo tamanho, mas pelo fato de fazê-la. Um exemplo é o das crianças. Elas terão mais dificuldades se não aprenderem cedo.

Qual é o melhor investimento social?

Carson _ Vou começar mudando a pergunta. Uma grande escolha, a mais importante é que a gente tenha oportunidade de escolha. Para algumas pessoas é a globalização; para outras, é a fome. O desafio é fazer esta escolha e investir em filantropia.

Como nasceu a Fundação Comunitária do Vale do Silício?

Carson _ Nasceu há quatro anos. Ela reúne mais de 1,5 mil fundos de empresas, famílias e organizações sociais. Hoje, temos um patrimônio de US$ 1,7 bilhão e investimos, anualmente, a remuneração desse patrimônio, em torno de US$ 240 milhões. (A fundação é administrada por uma equipe especializada em investimentos).

De que forma são escolhidos os projetos na fundação?

Carson _ É uma pergunta difícil, porque cada indivíduo que investe na área social tem decisões e interesses diferentes. Eles aconselham e os técnicos da fundação decidem. Os investidores dão prioridade para a educação, que vai desde o jardim de infância até a faculdade.

Como são distribuídos os investimentos?

Carson _ No ano passado, cerca de US$ 138 milhões, o equivalente a 57%, foram destinados para educação. Para a área de construções comunitárias, US$ 13 milhões, o que corresponde a 13%; em preservação ambiental, US$ 22 milhões, 9%; na área de saúde, US$ 17 milhões, 7%; em suporte familiar, US$ 12 milhões, 5%; em artes e cultura, US$ 10 milhões, 4% e em outras áreas, US$ 12 milhões, o equivalente a 5%.

Há poucos dias, a fundação recebeu doação de US$ 100 milhões do dono do Facebook, o jovem bilionário Mark Zuckerberg. Onde ele quer investir?

Carson _ Ele vai investir do outro lado do país, em New Wark, ao lado de Nova York, porque ele conhece pessoas de lá e confia no projeto deles. Os recursos vão para escolas públicas, para fortalecer o ensino de ciências. O investimento social é uma mistura de arte e ciência. A arte é para ter as condições sociais e a ciência é para poder analisar bem tudo. Este é um exemplo de como pensar estrategicamente. Em New Wark ele encontrou as pessoas, o grupo que pode fazer a diferença, e quem vai fazer a gestão financeira é a Silicon Valley.

Um dos novos projetos da fundação é o reforço do ensino para crianças afrodescendentes e latinos, que estão aprendendo menos do que os americanos e descendentes de asiáticos na região da Califórnia.

Carson _ É um trabalho de parceria com as escolas para elevar o padrão de aprendizado dessas crianças. Um dos passo é a pesquisa para saber qual a causa dessa diferença. Uma problemática encontrada, foi que as crianças da oitava série têm a mesma nota, mas alguns repetem de ano, não vão adiante, por razão desconhecida. Primeiro serão examinados os fatos, depois será feita a comunicação na mídia. Uma semana atrás, eles fizeram uma reunião que atraiu 900 participantes. Agora, eles tem uma força-tarefa de ações não-governamentais, que busca solução para que todas as crianças tenham o mesmo resultado, o mesmo desempenho. Tudo isto custou apenas US$ 15 mil. Liderança não é tomar muito dinheiro, o importante é a coragem de fazer.

O senhor acompanha algo sobre a área social do Brasil. Pode dar alguma opinião?Carson _ Sou um observador casual, mas aconselho mais informação para mudanças. O Brasil tem uma única oportunidade, agora, porque foi um dos últimos a entrar na crise global de 2008 e um dos primeiros a sair. E com isso houve essa ascensão da classe média. Seria uma oportunidade de transformar a realidade social para o país ter uma sociedade mais justa. A pergunta filosófica que deveriam fazer a essas classes média e alta é se elas vão querer pegar tudo para si ou vão compartilhar melhor para que todos cresçam juntos. As empresas fazem melhor quando elas vendem algum produto. Para conseguir sucesso, você precisa de pessoas bem educadas para o mercado de trabalho.

Qual é o risco de não investir na comunidade?

Carson _ É interesse das empresas investir nas suas comunidades porque elas vão precisar de pessoas educadas, preparadas. Todas devem ter projetos sociais, são beneficiadas por isso. O inverso também é verdade, os produtos ficam mais caros e, aí, volto para a favela do Rio que conheci. Quando você não investe na comunidade você cria uma situação de desequilíbrio social que não é bom para as empresas. As pessoas não saem nas ruas, não consomem. É quase como um business case sobre porque você precisa investir. Você precisa de uma comunidade saudável, com renda, para comprar produtos.

Notas

Fundação

O principal objetivo do evento TiB em Florianópolis, foi promover uma aproximação do setor de tecnologia, que é o maior gerador de impostos da Capital, com a área social, seguindo o modelo do Vale do Silício. Lúcia Dellagnelo, que convidou Emmett Carson para o TiB, preside o Instituto Comunitário da Grande Florianópolis (ICom) que é uma fundação comunitária nos moldes da californiana.

_ No Vale do Silício, as empresas de tecnologia têm um papel muito grande nas suas comunidades e elas escolhem investir por meio da fundação comunitária. As empresas de tecnologia daqui podem fazer investimentos na comunidade e uma das alternativas é pelo ICom _ diz Lúcia Dellagnelo.

Educação

O modelo de fundação comunitária nos Estados Unidos existe há mais de 20 anos e está sendo difundido pelo mundo. Para Emmett Carson, essa difusão pode fazer a diferença. As pessoas podem identificar oportunidades e levantar dinheiro para investir.Nos EUA, as empresas priorizam projetos educacionais, especialmente em ciências e matemática, para que haja um bom nível educacional da população. Assim, as pessoas estarão mais qualificadas para o trabalho.

Filantropia

A atuação das pessoas em projetos comunitários é muito valorizada nos EUA. Tanto que eles são conhecidos mundialmente por serem os maiores doadores sociais e também para igrejas. Quando a economia americana entra em crise, o Vaticano também sofre.A importância é tal que até na ficha de solicitação de visto ao país eles pedem para a pessoa enumerar todas as organizações sociais e de caridade para as quais contribui ou trabalha.

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