Um sistema tributário mais simples, associado a gastos públicos equilibrados, pode viabilizar um ciclo de crescimento econômico com maior renda para todos e Produto Interno Bruto (PIB) superior a R$ 10 trilhões daqui a 20 anos. É por isso que trabalha o Movimento Brasil Eficiente (MBE), que tem entre os coordenadores o economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Instituto Atlântico, e o presidente da Associação Empresarial de Joinville (Acij), Carlos Schneider. O movimento já tem apoio de mais de 80 entidades do país e começa a ganhar a adesão de centrais sindicais.
Isto porque os trabalhadores com renda de até três salários mínimos são os que mais pagam impostos. Cerca de 50% do que recebem são gastos com tributos indiretos. A proposta do MBE prevê reforma para reduzir a carga tributária para 30% do PIB em 10 anos e criar ambiente econômico para crescimento sustentado de 6% ao ano. Para que a classe política seja convencida de que é preciso fazer uma reforma tributária, uma das propostas é mobilizar a sociedade. A coluna acompanhou seminário do movimento, quinta-feira, no jornal O Globo, no Rio de Janeiro, onde entrevistou o economista Paulo Rabello de Castro.
Paulo Rabello de Castro
O economista e professor Paulo Rabello de Castro é um dos coordenadores do Movimento Brasil Eficiente (MBE) e presidente do Instituto Atlântico, voltado ao aperfeiçoamento de políticas públicas. Rabello também é diretor da RC Consultores e presidente da empresa de classificação de risco SR Rating. Junto com o economista Raul Velloso, assina a publicação Panorama Fiscal Brasileiro: Proposta de Ação, na qual é autor do livro Reforma da Reforma: A Estrutura Tributária “Dez, Dez, Dez”. Os dois livros embasam as propostas do MBE. Rabello estuda o tema há cerca de 20 anos. Também é autor do livro Tributos no Brasil: Auge, Declínio e Reforma, juntamente com o jurista Ives Gandra Martins.
Por que é importante que a população vá para as ruas defender a simplificação tributária?
Paulo Rabello de Castro – Porque o imposto é a arma da cidadania. É através dele que construímos um Estado, seja o brasileiro, inglês ou o norte-americano. É o imposto que financia a ordem política e a ordem social. O mau imposto financia a desordem, e, portanto, qualquer cidadão tem que estar preocupado com o seu imposto, assim como um proprietário de um prédio participa na taxa de condomínio, elege o síndico e deve participar do processo político do condomínio. O imposto é o condomínio maior, e o mau imposto é a má cidadania. Nesse sentido, ir às ruas para denunciar o manicômio tributário brasileiro, esse verdadeiro hospício de impostos e contribuições que enfrentamos, é importantíssimo nesse momento em que estamos buscando, também, a reforma política. Acho que a reforma política e a simplificação tributária são as duas faces de uma mesma moeda.
Qual é a proposta de reforma do Movimento Brasil Eficiente?
Rabello – O objetivo final da nossa proposta é ver o Brasil crescer mais. Só que ele não cresce de graça. Só pode crescer por meio de mais investimento e produtividade, e isso será trazido através da simplificação tributária. A melhor maneira de a gente fazer o país saltar de uma média de 4% de crescimento do PIB ao ano para 6%, o que duplicaria praticamente a renda dos brasileiros em 10 anos, e daria um Brasil a mais aos brasileiros, quase de graça, em 20 anos, é a simplificação tributária, porque a desordem dos impostos no Brasil é tão grande que arrumar esta casa dará uma sensação de conforto, alívio e transparência, como quando a gente quebrou o processo inflacionário e o Brasil estabilizou a sua moeda. Nesse momento deu um salto. Vamos ver esse mesmo salto acontecer quando nós estabilizarmos as contas públicas, tendo simplicidade tributária, transparência e eficiência nos gastos públicos.
Como poderemos ter um Brasil a mais na economia?
Rabello – Isso representará R$ 3,5 trilhões em 20 anos sobre o que a gente crescer. Estou falando que o Brasil crescerá de qualquer jeito, ele cresce até de noite, mas ele não vai crescer esses trilhões a mais em 20 anos. É muito, muito, muito dinheiro. É praticamente duplicar tudo o que temos hoje. Isso ocorre por causa do salto de produtividade pela melhor organização tributária.
O que o MBE sugere para os gastos públicos?
Rabello – A proposta é, nos próximos 10 anos, gradualizar esse processo de redução, como no processo de inflação. Com metas fiscais muito semelhantes às metas de inflação, é uma experiência que o Brasil já teve. Ano passado tivemos uma carga tributária superior a 36%, mais o déficit fiscal de 3%, o que dá quase 40%. Estamos propondo que, lá em 2020, esses 40% de carga tributária mais déficit convirjam para 30% de carga tributária com equilíbrio orçamentário. O gasto público continua crescendo, mas de forma mais moderada.
Como avalia o sistema tributário brasileiro?
Rabello – Quando tínhamos inflação alta, em 1994, parecia que estava tudo bem, mas a economia se debilitava a cada momento. O Brasil, junto com a Turquia, foi um dos últimos países do mundo a estabilizar a moeda. Agora, é um dos únicos que não fizeram reforma tributária. A grande maioria dos países desenvolvidos tem sistema tributário muito mais simplificado. Somos um bando de estúpidos metidos a besta porque a gente aceita viver na iniquidade, na disfuncionalidade e na antieconomicidade como se estivéssemos no lugar mais eficiente e financeiramente equilibrado do mundo.
E a volta da inflação?
Rabello – A inflação é o desafio que vai nos ajudar a pensar melhor o sistema de impostos porque ela é uma maneira de tributar. O Brasil é um Jaguar, ou uma Ferrari, mas está superaquecendo por ineficiência da máquina tributária. Na hora que a gente mexer nessa máquina, a gente pode ajudar a controlar a inflação.
Notas
Reforma
O que realmente pode deflagrar a reforma tributária, na avialação de Paulo Rabello, é uma crise financeira fiscal, que pode ocorrer devido à extrema volatilidade da crise financiera internacional, forçando uma decisão da classe política.
– Um dos exemplos aparentes do problema tributário brasileiro é a conta de energia elétrica, com 50% de tributos.No entanto você não vê ninguém marchando pra cima da Aneel. Há um conformismo instalado no país. Temos que fazer a nossa praça Tahir – afirma o economista.
Propostas
Entre as ações para alertar a população de que a soma dos impostos pagos é alta demais está uma campanha institucional do Movimento Brasil Eficiente, que começa a ser veiculada em breve na Rede Globo e, depois, vai para outras emissoras. Conforme o presidente da Acij, Carlos Schneider, vai ser lançado um abaixo-assinado para obter mais de 1 milhão de assinaturas e está sendo elaborado o projeto de lei do Brasil Eficiente, que será apresentado ao Congresso.
Tributária
A proposta de simplificação tributária do MBE prevê, entre outras mudanças, a transformação do ICMS em um imposto nacional compartilhado, a exemplo do Imposto de Valor Agregado de alguns países. O modelo do Canadá é bastante parecido com o sugerido por Paulo Rabello de Castro.