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"Jobs tinha claro que design não é casca"

24 de outubro de 2011 0

O alemão Gui Bonsiepe, que é um dos maiores nomes do design na América Latina, está entre os que admiravam o talento do fundador da Apple, Steve Jobs, e a capacidade de inovar da companhia. Usuário dos produtos da Apple desde 1987, Bonsiepe disse não conhecer empresário tão apaixonado por design quanto Jobs. Para o consultor, que tem mais de 10 livros publicados e veio para Florianópolis no início dos anos 1980, quando o CNPq o contratou para montar o Programa Brasileiro de Desenho Industrial e incluiu, na Capital, o Laboratório Brasileiro de Desenho Industrial (já fechado), o país vem se destacando internacionalmente no design. Esse diferencial vem sendo alcançado porque o Brasil conta com 380 cursos da especialidade e o governo ajuda os profissionais a participarem de concursos e premiações no exterior. Segundo ele, muitas pessoas, inclusive nomes de destaque mundial, como o palestrante Tom Peters, dos EUA, não sabem o que é design. Explica que a profissão ajuda a facilitar a tecnologia na vida dos usuários. Entre as empresas que Bonsiepe atendeu em SC está a Olsen. Ele desenhou a primeira cadeira odontológica da empresa (veja computador da foto).

Gui Bonsiepe

Professor, consultor e escritor alemão que se tornou um dos maiores nomes do design industrial no Brasil e na América Latina. Gui Bonsiepi ou Georg Hans Max Bonsiepe, 77 anos, divide seu tempo escrevendo ou prestando consultoria. Reside em Florianópolis e em La Plata, na Argentina. Em 1964, foi para Buenos Aires visitar um colega da Escola de Design de Ulm, Alemanha, se encantou com a região e passou a trabalhar na Argentina, Chile e Brasil, onde foi contratado pelo CNPq em 1981 e trabalhou em Florianópolis. Tem três filhos do primeiro casamento que residem em SC, e sua atual esposa, Silvia Fernández, também é designer.

 Como avalia a paixão de Steve Jobs (fundador da Apple, que morreu dia 16) pelo design?
Gui Bonsiepe –
Eu não conheci empresário tão apaixonado pelo design quanto Steve Jobs. Ele procurou sempre os melhores profissionais da área e lançou produtos inovadores. Eu estava nos EUA quando ele lançou o primeiro Macintosh. Eu usava somente o Windows em 1987, integrava um grupo científico, me colocaram o computador na mesa e disseram: você aprende a usar este aparelho. A partir daquela data eu passei a usar só Macintosh. O Windows teve que seguir o caminho da interface gráfica. Então, eu considero que ele tinha muito claro que design não é casca, só o exterior. É muito importante isso. Geralmente, na opinião pública, se associa design com uma casquinha bonitinha, como uma estética aplicada. Isso é errado. Seria como identifiar as cirurgias da medicina só pela cirurgia estética.


Ele aplicou este conceito?
Bonsiepe – Ele compreendeu isto. Não se pode separar, fazer um corte, entre o interior de uma máquina, o aspecto técnico, e o exterior. Esses dois aspectos são ligados. Ele tinha isso bastante claro. Os designers que ele contratou sempre entenderam isso, começaram a desenvolver os produtos a partir do interior e não do exterior. Para a metodologia do design é importante o foco dele, que começou nos anos 1950, inclusive na Alemanha, onde estudei na Escola de Design de Ulm.

Como define design?
Bonsiepe – É uma profissão que ajuda a facilitar a tecnologia na vida dos usuários. Na parte digital, nossos vizinhos imediatos são os programadores, e na parte física, são os engenheiros. Somos responsáveis pela articulação de interface entre o artefato físico com o usuário. Design não é arte. Os economistas dizem que design é valor agregado. O design não se agrega, se faz design bem ou mal. Tom Peters, guru do marketing, se diz apaixonado por design, mas não entendeu, ainda, o que é.

Na Alemanha, o design acompanha a tecnologia?
Bonsiepe
– O forte do design alemão é o casamento com a tecnologia. Um exemplo é a indústria automotiva. As pessoas da linha de produção sabem falar com os especialistas e trabalham em equipe. Por isso os produtos alemães têm qualidade. O preço não é, hoje, o argumento decisivo para dominar mercados internacionais. Muitas vezes, o consumidor paga mais por um produto que tem um bom design.

O design italiano tem fama de ser o melhor do mundo. Qual é a sua avaliação?
Bonsiepe –
Os italianos são fortes, sobretudo nas áreas de móveis e luminárias, design interior. Além disso, há excelentes profissionais e, às vezes esquecem que há empresários orgulhosos dos produtos que estão fazendo. Se falamos do design italiano, devemos falar, também, dos empresários italianos, que são pessoas que respeitam o valor cultural de um produto industrial.

E na moda?
Bonsiepe –
No design de moda há uma grande necessidade de renovação, a cada seis meses. Não é o mesmo caso de uma máquina, que precisa durar pelo menos 10 anos ou mais. É um setor muito dinâmico, no qual a inovação formal é condição sine qua non. Os italianos estão fazendo design de moda também com a tecnologia de fibras, eles fazem inovações em tecidos que é difícil de copiar.

Como vê o design brasileiro?
Bonsiepe –
O Brasil é um dos poucos países latino-amerianos que têm apoio público, sobretudo na participação de designers em concursos internacionais. O Sebrae nos ajudou a fazer contratos com a indústria. O ensino do design explodiu. Hoje, existem 380 cursos de graduação de design no Brasil, nas áreas de interiores, indústria, moda, têxtil… O design se consolidou como profissão. Quando eu cheguei em 1981, a Santa Catarina, a palavra design era desconhecida pela maioria dos empresários. Atualmente, quando se fala em design latino-americano, o Brasil tem maior projeção.

Notas

Livros

Perfecionista, Gui Bonsiepe está feliz com a qualidade do seu livro lançado há poucos dias no país, Design, Cultura e Sociedade, pela Editora Blucher. É ela, também, que fará a reedição da sua obra mais procurada por estudantes no Brasil, Tecnologia da Tecnologia. Bonsiepe também lançou livro com sua esposa Silvia Fernández, em espanhol, História del Diseño em America Latina y el Caribe.

Escritor

Apesar de ser escritor, Gui Bonsiepe não tem rotina. Fala sete idiomas e se desloca muito pelo mundo para conferências, acompanhado da esposa Silvia, que conheceu na mesma rua de La Plata onde residia a sua primeira mulher, que faleceu há 10 anos. Ele também acumula uma série de títulos de doutor honoris causa. Recebeu um, há poucos dias, no México. Mais dois serão entregues em breve.
 

Inovação

Hoje, o design que predomina no mundo é o europeu. Mas a Coreia do Sul começa a se destacar e, num futuro breve, haverá o design chinês. O país do dragão forma 10 mil profissionais por ano. Para Bonsiepe, o design italiano vem perdendo espaço porque o país passou a fabricar em outras regiões devido aos custos, o que afeta a inovação.

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