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Alta do dólar é bem-vinda mas pressiona a inflação, diz economista

22 de agosto de 2013 0

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A volatilidade do câmbio, que anima exportadores mas preocupa por gerar mais pressão inflacionária, ainda não tem um prazo para acabar porque tanto o banco central dos EUA quanto de outros países estão mudando suas políticas monetárias adotadas para sair da crise de 2008. O alerta é do diretor-executivo do FMI para o Brasil e mais 10 países, Paulo Nogueira Batista Junior, que recebeu terça-feira, em Florianópolis, o título de Personalidade Econômica do Ano 2012, concedido pelo Conselho Federal de Economia. Nogueira, que fala em seu nome e não pelo FMI, explicou nesta entrevista, pela primeira vez, as razões do seu polêmico voto sobre programa do fundo em apoio à Grécia.

Diário Catarinense – Há muita preocupação com o câmbio. Como está o cenário para o dólar?
Paulo Nogueira Batista Junior – Um dos problemas que estamos enfrentando agora é o rescaldo de um longo período de sobrevalorização cambial e que só agora, depois de muitos anos, está sendo corrigido. A sobrevalorização do real, no meu entendimento, prejudicou bastante a economia brasileira. Prejudicou as exportações, os setores que competem com importações e contribuiu para gerar um desequilíbrio externo. Temos um déficit na balança comercial pela primeira vez, em muito tempo, o desequilíbrio do balanço de pagamentos está aumentando e começa a ser preocupante. De uma certa maneira, essa depreciação do câmbio que se verifica nos últimos meses é bem-vinda. O problema é que, se for muito forte, muito acentuada, pode ser desestabilizadora. Pode atrapalhar o controle da inflação, gerar desestabilidade financeira e insegurança. Então, o equilíbrio tem que ser buscado. O Banco Central está atuando diariamente para fazer face à essa volatilidade excessiva da taxa de câmbio e tendência de forte depreciação. É um fenomeno global, ligado à mudança da política monetária americana e está afetando, de maneira geral, as moedas dos países de economia emergente.

Há um prazo para o banco central americano finalizar esse processo?
Nogueira - Não. O Federal Reserve (Fed), banco central americano, se engajou, nos últimos anos, num processo sem precedentes de expansão da sua base monetária, em um processo que é conhecido como quantitative easing ou políticas monetárias heterodoxas. São políticas monetárias não-convencionais como a que o Fed adotou de maneira persistente, em grande escala, para evitar uma depressão na economia americana. Outros bancos importantes, como o da Inglaterra e, mais recentemente, o do Japão fizeram o mesmo. O que acontece é que estamos entrando em uma fase em que os principais bancos centrais do mundo estão se preparando para normalizar a política monetária e este processo de normalização dificilmente vai ser tranquilo. A saída das políticas não convencionais heterodoxas vai ser provavelmente tumultuada. Vai ter efeitos no mercados fianceiros dos países desenvolvidos, vai ter efeitos nos países em desenvolvimento, nos mercados emergentes como o Brasil. Isso nós já estamos vivendo desde maio. É uma estrada acidentada essa do retorno de normalidade monetária nos Estados Unidos e em outros países avançados. 

Como está a recuperação da economia dos EUA?

Nogueira – Nos últimos anos, tem sido lenta e menor do que se esperava, mas está acontecendo, está havendo uma volta do nível de atividade normal. As taxas de desemprego estão ainda altas, mas caindo. Então isso motiva o BC americano a reconsiderar as suas políticas. Na medida em que se percebe que a atividade econômica está voltando ao normal, aquelas políticas monetárias que foram adotadas em uma situação de risco e de depressão têm de ser revistas. Inclusive o BC americano se engajou tão pesadamente em políticas monetárias expansivas que o processo de saída é difícil para ele e para o resto do mundo. A moeda americana é, ao mesmo tempo, a principal moeda internacional. É a distorção do sistema internacional com a qual nós convivemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, o chamado previlégio exorbitante – vou usar uma expressão que os franceses usavam desde os anos 60 que faz com que a moeda que é usada internacionalmente no sistema econômico e financeiro é também a moeda de um país e ela é administrada por esse país, tendo em vista os interesses nacionais daquela nação. Neste contexto, é importante que os países periféricos à ordem monetária internacioal, dentre eles o Brasil, protejam-se para que não se pague um preço excessivo pelas turbulências monetárias financeiras que ocorrerão nesta difícil volta à normalidade por parte do BC dos EUA.

Juros no Brasil

E o esforço de combate à inflação no país?
Nogueira – A inflação brasileira, nos últimos anos, tem ficado abaixo do teto da meta, mas na faixa superior da meta oficial de inflação, que é 4,5% mais dois menos dois pontos percentuais. Então ela está beirando o teto da meta. E no início deste ano houve uma preocupação grande com a tendência de alta da inflação e o BC resolveu apertar a política monetária mesmo com a recuperação econômica. Diante de uma recuperação econômica ainda não consolidada, o BC, por causa da inflação e da necessidade de recuperar a credibilidade da política monetária, resolveu elevar a taxa de juro. Essa decisão difícil, problematíca, parece ter começado a obter seu retorno, porque as perspectivas de inflação estão cedendo, em parte pela melhora das condições climáticas, dos preços dos alimentos, mas também, eu presumo, porque muitos mercados perceberam que a decisão do BC de iniciar um ciclo de alta da taxa de juro, em 2013, é uma decisão difícil que sinaliza para os mercados a autoridade monetária brasileira e do governo brasileiro, porque as duas coisas não se separam – é uma ilusão achar que a autoridade monetária se separa do poder público. Então essa sinalização foi: autoridade monetária e governo brasileiros estão preocupados com inflação e estão dispostos a adotar medidas de elevação de juros e de aperto da política monetária  mesmo que a recuperação econômica esteja apenas começando. Essa decisão foi importante e creio que está começando a dar seus rendimentos.

Qual é a sua avaliação sobre as taxas de juros?
Nogueira – Na verdade, é importante considerar o seguinte: o governo Dilma conseguiu algo que nenhum governo anterior tinha conseguido, que é reduzir de forma muito expressiva o patamar do juros da economia brasileira. Agora, quando o BC inicia um novo ciclo de alta de juros, é dentro de um novo contexto, de juros substancialmente mais baixos. Então não há o porquê, ninguém espera que, quando o BC iniciar um novo ciclo de alta de juros, esteja programando volta ao cenário de juros altos que prevaleceu em governos anteriores, especialmente o do Fernando Henrique Cardoso. Não é isso: agora o patamar de juros no Brasil sofreu uma baixa duradoura. Ainda que, é claro, a política monetária e de juros é um instrumento do qual o governo e o BC têm de se valer para fazer as transações econômicas, as conjunturas e ambientes da economia. Então ora tem de abaixar o juros, ora tem de elevar. O juro não está congelado num patamar baixo, permanentemente fixo. Nem o juro nem o câmbio. Essa flexibilidade do câmbio e dos juros é fundamental para que a política econômica possa ser bem-sucedida.

Qual é a sua expectativa sobre o crescimento da economia brasileira?
Nogueira - Eu noto que, embora a economia esteja se recuperando desde o final de 2012, essa recuperação tem sido lenta, mais fraca do que se esperava, do que esperava o mercado, o governo e o fundo monetário internacional, então ela tem sido decepcionante. Ela está ocorrendo, acredito que vá continuar com algum ritmo, mas me parece claro que a economia brasileira crescer 3% não é suficiente. O Brasil tem necessidade e potencial para crescer muito mais. Mas, para isso, precisa acontecer uma coisa que o país está tentando, mas não está plenamente conseguindo, que é investimento na economia brasileira. O nível deste investimento está bastante baixo. Este é um desafio enorme e que é a chave para manter um crescimento significativo de médio a longo prazo.

O que falta para aumentar o investimento?
Nogueira -É uma multiplicidade de fatores. Tem de haver um programa, que não existe. Tem de haver capacidade de implementar, capacidade de superar as dificuldades que existem, jurídicas, ambientais, gerenciais, tem de haver confiança no e do setor privado, para que o investimento privado possa deslanchar. O governo tem de ter capacidade de interagir com o setor privado de uma forma construtiva para que ele se sinta animado a avançar em grandes projetos de investimento. Isso tudo exige um esfoço enorme e uma dedicação permanente. Do lado externo, as variáveis não estão ajudando, porque a confiança é relativa. O Brasil foi o quarto maior receptor de investimentos diretos estrangeiros no ano passado. Então, se a desconfiança fosse tão grave quanto dizem alguns senadores aqui no Brasil, nós não seríamos o 4º maior receptor de investimentos no mundo. O Brasil é um campo de atração de investimentos. Nós precisamos consolidar isso de maneira que a taxa de investimento global na economia aumente, a produtividade aumente, a eficiência da economia aumente, e que o país cresça a longo prazo mais do que tem crescido nos últimos três anos, que foram uma decepção. Primeiro ano, 2011, houve uma decisão deliberada do governo de desacelerar, não foi por acaso. O que surpreendeu negativamente foi a fraca recuperação em 2012 e agora em 2013. Mesmo assim, 2013 vai ser melhor do que 2012, e 2014 pode ser melhor que 2013, embora seja difícil de prever agora.

Polêmica no FMI

aaaaaasdSua decisão de se abster em voto para programa do FMI à Grécia gerou muita polêmica. Por que tomou aquela medida?
Nogueira – A diretoria executiva do FMI é responsável pela condução dos negócios do fundo em uma base diária. Nos reunimos com muita frequência e várias vezes por semana, por isso ela fica em Washington. Os 24 diretores estão com suas equipes residindo em Washington e trabalhando no mesmo prédio. Muitas decisões são da órbita da diretoria-executiva. Por exemplo: a de aprovar um programa de um país ou a de desembolsar parcelas deste programa para um país; tudo isso faz parte legalmente da estrutura decisória da diretoria. Então, naturalmente, os diretores procuram ouvir suas capitais nas questões mais polêmicas. Eu tenho 11 países. Não é possível ouvir sempre os 11 países, dada as quantidade de volume de decisões tomadas. Mas, nas mais importantes, costumamos ouvir. Por exemplo: a escolha do diretor-gerente. Quem vota é o diretor, mas dada a importância da decisão, eu acredito que todos os diretores consultam seus países. Por que eu me abstive numa revisão do programa grego, que aconteceu recentemente?

 O que acontece quando um diretor se abstém?

Nogueira - Ele sai da base de cálculo da maioria requerida para aprovar uma revisão e um desembolso, não vota contra ou a favor. Foi o que eu fiz: resolvi sair da base de cálculo porque queria, sem obstruir o desembolso da Grécia, indicar uma preocupação com o andamento do programa grego. Acredito que o governo brasileiro, o diretor brasileiro, como outros brasileiros que operam em organismos internacionais, têm uma condição ambivalente, porque somos agora credores do fundo monetário, mas não muito tempo atrás éramos devedores, e devedores acostumados a sofrer na condição de devedores. Então, quando o brasileiro está no FMI avalia a posição de um país como a Grécia e vê o massacre em que está sendo submetida a população grega, temos uma empatia com uma situação de um país devedor, que eu tenho certeza que um diretor de um país desenvolvido não tem. Isto porque não tem memória viva como a minha geração do que é ser devedor do fundo monetário. E no caso da Grécia é pior porque ela é um país devedor do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, frequentemente as autoridades da área do euro são mais duras do que o próprio Fundo Monetário. Então, quando me abstive, quis manifestar uma preocupação com a Grécia, uma preocupação com o programa do FMI para o país. É uma maneira legítima que um diretor tem de se manifestar, como uma maneira de sinalizar a preocupação do diretor com o andamento do programa.

Foi uma medida para favorecer a população grega?
Nogueira – A favor da população grega e a favor da integridade da instituição também. Eu sempre falo para os jornalistas: não me apresentem apenas como o representante do Brasil no FMI, porque o diretor-executivo não é só isso; ele é responsável fiduciário pela instituição legalmente. Então, temos uma preocupação com a reputação e a integridade financeira da instituição. Um programa como o do FMI para a Grécia que, efetivamente, exige demais da população grega, em um país que está com taxa de desemprego geral aberta, o desemprego entre os jovens chegando a quase 60%, um país há cinco anos em recessão, dizer que aquilo vai resolver a situação da Grécia? Não.
Hoje li com satisfação uma matéria em que o ministro de finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, está reconhecendo, pela primeira vez,que a Grécia precisa de um terceiro programa de ajuda. É isso que eu estava dizendo quando me abstive. Esse programa, o segundo, não é suficiente. O grande problema é a inflexibilidade dos alemães. Agora a declaração tem um lado negativo, porque o ministro reiterou que não deve haver um corte, uma redução da dívida grega. A Alemanha não gosta de dar ajuda aos países do Sul da Europa.

Com quem seria esse programa novo?
Nogueira – Os países europeus que recorreram à ajuda foram Portugal, Irlanda, Grécia, Chipre e Espanha em menor medida. Todos eles fizeram programas com a Troika, que seria a Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o FMI. A menos que haja mudança de formato, seria novamente com a Troika.

BRICs e liderança global

Qual a sua avaliação sobre a atual situação econômica dos BRICs?
Nogueira – Os BRICs como realidade política remontam a 2008, e como articulação política, eles têm cinco anos. E desse ano até hoje, tem sido um período de muito sucesso para os BRICs de um modo geral. Mas do ano passado para cá, eles passaram a ter maiores dificuldades. Tem sido um desafio para eles. Todos estão desacelerando, até mesmo a China, embora em menor medida. E como a China é a maior economia do grupo e a segunda maior do mundo, ela tem uma influência enorme no mercado de commodities. Ela afeta o Brasil através das quantidades desses produtos e também a Rússia e África do Sul, que vendem commodities. E na conjuntura atual, quando a Europa ainda não se recuperou das suas dificuldades, a crise na área do euro ainda não foi resolvida, os EUA estão numa recuperação lenta e o Japão está fazendo um enorme esforço de sair da sua estagnação de longo prazo, mas ainda é uma questão aberta. E nesse contexto, me preocupa que dois dos BRICs estão mostrando um certo enfraquecimento, a Índia e a África do Sul. E também o Brasil e a Rússia. A posição externa do Brasil ainda é forte, temos reservas elevadas e um fluxo de investimentos diretos estrangeiros muito alto, mas nossa posição este ano já não é tão forte quanto anos anteriores. A situação da Rússia se enfraqueceu e a China tem uma posição fortíssima, mas está em desaceleração e há muita insegurança sobre certos aspectos da política financeira chinesa. Então, os BRICs estão enfrentando muitos desafios. Vão passar por um teste agora nesse período de dificuldades. Os cinco estão desacelerando.

A negociação de um acordo comercial Estados Unidos e União Europeia vai evoluir rápido?
Nogueira – É um projeto muito ambicioso. Antes dessa negociação transatlântica Estados Unidos –União Europeia já está em curso uma negociação semelhante entre os países do Pacífico (TPP da sigla em inglês), que envolve os EUA e o Leste asiático, incluindo o Japão. Esse movimento EUA e EU é muito significativo do ponto de vista geopolíticos e, talvez possa ser uma tentativa dos Estados Unidos de refluir para os seus aliados tradicionais, que são os europeus ocidentais e centrais. Você sabe que esses países já têm tarifas muito baixas. O grande conteúdo desse acordo possível de livre comércio são as políticas não-tarifárias. As políticas públicas mais amplas, então, são acordos de enorme complexidade que envolvem tudo o que você pode imaginar: políticas de compras governamentais, culturais, proteção da saúde , do meio ambiente… Não é fácil chegar a um acordo, pode demorar bastante. São países muito próximos política e culturalmente mas a Europa está numa crise mal resolvida.Os EUA estão saindo de uma longa crise. A Europa e EUA podem tentar refluir para uma política tradicional, das antigas potências. Podem tentar, mas no mundo que existe hoje não vejo se essas alianças entre grandes potências serão suficientes. Eles terão que negociar com os asiáticos, os BRICs. A União Europeia está tentando negociar com o Mercosul de novo. Então, tudo isso vai demorar muito. Você viu que os franceses querem proteger seus produtos culturais contra a indústria cultural de massa dos americanos. Outros países vão querem proteger outros setores.

Como os americanos estão enfrentando a perda relativa de hegemonia?
Nogueira – Eu noto que os americanos, durante o governo Obama, até 2010, estavam muito próximos à idéia de um mundo que transcendem o Atlântico Norte. Com diálogo com a China e com outros BRICs. Depois disso, talvez por causa das dificuldades políticas internas que são muito graves, o impasse é seríssimo, isso reduz muito a margem de manobra interna e externa, eles estão refluindo para o canal tradicional, o canal Europa. Acho que esse não é o futuro do mundo. Estou lendo livro de um historiador húngaro. Ele diz que os 500 anos que vão da renascença, de grandes descobertas, até o século XX, foi a era europeia. Essa era acabou. Agora há uma época muito mais multipolar, em que a Europa continua importante, os EUA continuam importantíssimo, mas a perda de expressão relativa das potências tradicionais vai acontecer. Os europeus estão perdendo expressão relativa rapidamente. Os americanos menos, mas estão lidando com o problema, que é quase existencial para eles, que em breve não serão mais a economia número um do mundo. Como moro lá há mais de seis anos, posso dizer que está sendo difícil para eles não serem mais número um em tudo. Eu digo a eles: não se preocupem não, a Inglaterra deixou de ser a número um em 2019, mas só perdeu a hegemonia mundial 40 ou 50 anos depois. Eles não aceitam esse consolo. São fixados na ideia de que os EUA são um povo com vocação missionária. Não é que eles vão perder essa liderança de uma hora para outra, mas é visível, desde o governo de George W. Bush, a perda de influência dos EUA. Com a crise econômica, os erros do governo Bush e o impasse político entre democratas e republicanos, os EUA estão perdendo liderança.

Estamos entrando numa nova fase?

Nogueira – Acredito que estamos entrando numa fase de incerteza porque as potências tradicionais como EUA e Europa não têm mais a capacidade de exercer a liderança, mas as novas potências, como a China, os BRICs e outros países importantes ainda não estão preparados para ocupar o lugar. Eu acho que vamos enfrentar um vazio que é perigoso, mas acho que o Brasil, mesmo com suas limitações que não são pequenas, pode ter um papel importante, para estabelecer uma voz que faz uma ponte, o diálogo porque é um país naturalmente global por formação. Muito mais do que os EUA, nós somos o caldeirão, temos um conjunto de raças, etnias, tadições culturais e históricas, o que outros países não tem. Por exemplo o Japão é um país admirável, mas é purista. Entre os países do G-7 é o mais restritivos à imigração para preservar sua unidade e uniformidade cultural. Isso gera uma enorme dificuldade para exercer um papel mais ativo no plano internacional. O Brasil, com toda a sua limitação de país de economia emergente, tem, a meu ver, um papel muito importante a desempenhar se souber se posicionar. Nos últimos anos, o país deu um salto em termos de posicionamento internacional. Se isso vai se manter é outra questão. Estamos enfrentando, nos últimos três meses, um desafio novo porque, pela primeira vez, desde o governo Lula, nós temos um governo questionado pela sociedade.

Que  avaliação o senhor faz das manifestações nas ruas em junho?
Nogueira – Foi um movimento que pegou todo mundo de surpresa. Pegou os próprios organizadores de surpresa pela extensão. A classe política subestimou o grau de insatisfação da população porque o Brasil teve um desenvolvimento, cresceu, mas uma série de questões fundamentais para a vida das pessoas ficou para trás. Serviço público, educação, saúde e transporte nas grandes cidades e, de repente, a elite brasileira e a classe politica se viram confrontadas com essa insatisfação em grande escala. Isso foi positivo, deu uma sacudida importante. Os governos federal, estaduais e municipais não reagiram enquanto que em outros países as manifestações foram recebidas com dureza pelas autoridades. Aqui houve um esforço de diálogo. Vamos ver como evolui esse quadro, se as manifestações vão voltar ou não. As ruas cobraram mais do que qualidade de gasto, mais seriedade e controle no gasto. Eu espero que o poder público fique atento a isso. A sociedade disse que quer uma resposta do poder público. Acho que foi correta a proposta do governo, embora não bem sucedida politicamente, de sugerir uma reforma política. Isto porque o discurso moralista não é suficiente. Os próprios corruptos, quando questionados, dizem que não são a favor da corrupção. Como garantir que o sistema não induza à corrupção, garanta uma disciplina mínima? Isto está faltando no Brasil. A contestação, nas ruas, no médio e longo prazo, vai ser positiva para o Brasil.

Foto 1 – Nogueira Batista perto do Museu  Cruz e Souza, em Florianópolis

Foto 2 – O economista na solenidade de entrega do título Personalidade Econômica do Ano, no Conselho Regional de Economia na Capital.

Fotógrafo: Jessé Giotti

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