Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Governo federal adota ciclo reverso, diz economista

18 de janeiro de 2014 0

Sanson1

O Brasil inicia mais um ano com projeção de baixo crescimento econômico. A última estimativa da pesquisa Focus é de alta de 1,99% do PIB em 2014. Para o economista João Rogerio Sanson, professor da UFSC e PhD pela Universidade de Vanderbilt, EUA, a principal razão é a política econômica. Ele diz que o governo federal adotou o ciclo político reverso, com ênfase no crescimento desde o início.

Por que a economia do país tem crescido menos do que o esperado?

João Rogerio Sanson – O Brasil abriu sua economia nos anos de 1990, no governo Collor. Aquela decisão provocou uma forte integração internacional e a gente se beneficiou da grande onda de crescimento comercial no mundo desde o primeiro mandato do presidene Lula até a crise internacional de 2008. Aí o volume de comércio diminuiu significativamente, principalmente nos EUA e na Europa. Nos anos recentes, a gente perdeu o benefício do dólar porque ele ficou muito barato. Isso trouxe dificuldade à área indústrial principalmente porque oBrasil perdeu competitividade. Para ser competitivo é preciso ter produtividade e isso falta ao país.

E a dúvida sobre os estímulos nos EUA?

Sanson – A intenção dos EUA de reduzir os estímulos montários (oferta de dólar ao mercado) aumentou as dificuldades. Tivemos uma apreciação do dólar no Brasil e a expectativa é de que esse efeito continuará.

As incertezas da política econômica brasileira também afetam muito?

Sanson – Uma boa explicação sobre as razões de o Brasil ter crescido menos tem a ver com incertezas na política econômica do governo. Uma delas foi forçar o preço da eletricidade para baixo, a outra foi segurar o preço das passagens de ônibus. Mas o reajuste vem lá na frente. O investidor pega um capital agora, quer aplicar em algo e retornar um valor maior lá na frente. Em parte há essa incerteza na política econômica.

Como avalia a influência do governo no crescimento econômico?

Sanson – Tem um fenômeno chamado ciclo político econômico que é o processo político de influenciar o ciclo econômico. Em mandatos de quatro anos, nos primeiros dois o governante controla os gastos públicos e nos dois últimos, pensando na reeleição, gasta mais para aquecer a economia. Mas, às vezes acontece o ciclo político reverso. Nos primeiros dois anos, por interesses numa eleição intermediária, o político faz esse estímulo na economia.

A presidente Dilma adotou o reverso?
Sanson
– Eu acho que os primeiros dois anos do mandato da presidente Dilma já foram de estímulos à economia. Agora vai ter conflito porque o governo gostaria de continuar os estímulos mas tem dificuldades para controlar a inflação. De um lado o Banco Central eleva os juros básicos, do outro seguem os estímulos.

Quais as expectativas para este ano?

Sanson – São generalizadas as previsões de crescimento baixo para o Brasil.

E Santa Catarina como fica nesse cenário?
Sanson  –
Aqui há muita ênfase no comércio exterior, mas o Estado se desenvolveu com o comércio interno e depende muito dele. A maioria das nossas empresas começou com atuação nos mercados locais. Como sou de Jaraguá do Sul, sempre lembro a história da WEG, que era uma microempresa numa cidade que tinha algumas empresas da área têxtil mas havia um forte espírito empresarial no Estado. Essas empresas se expandiram primeiro na sua localidade, depois no Estado, nos Estados vizinhos, em todo o Brasil e, depois, no exterior. A Dudalina, que foi incorporada por fundos recentemente, também tem trajetória com esse perfil. Você tem que ter uma base de comércio interno para garantir vida longa para uma empresa. Precisamos de um balanço do comércio interno, com as matrizes de insumo-produto do mercado nacional. Veja o caso da BMW, em Araquari. Ela monta uma fábrica de automóveis não pensando apenas nas exportações, mas no mercado interno. Por isso eu penso que para onde o Brasil for, Santa Catarina vai junto. Se o país não tem perspectivas muito boas, você não pode esperar cosias muito boas para o Estado. Você não vai ter crise, queda de PIB, mas vai crescer menos do que gostaria. O fato de estarem ocorrendo investimento na área de infraestrutura e instalação de novas fábricas dá novas perpectivas mas, talvez, não para este ano. Apesar de termos muitos investimentos em infraestrutura e fábricas sendo instaladas no Estado, se não resolvermos problemas de insumos, como é o caso de grãos para a agroindústria, teremos problemas no futuro porque elas vão se instalar onde os insumos são mais baratos.
No Mato Grosso eles têm incentivos para agroindústrias, mas o maior diferencial é o preço dos grãos graças ao mercado e não a estímulos do governo. A ferrovia Norte-Sul é fundamental para poder manter as agroindústrias no Oeste catarinense.

Que outros problemas estão inibindo o crescimento econômico do Brasil?
Sanson  –
Além das deficiências de produtividade e de infraestrutura, há problemas de longo prazo que são de aspecto institucional. O longo prazo está lá na frente, mas se você não mexer com ele agora, ele nunca vai acontecer. Há coisas como demorar muito para poder abrir uma empresa, o lado institucional que cerca atividades empresariais e pessoais.As pessoas que passam alguns anos no exterior em ambientes em que as coisas são mais simplificadas e mais rápidas levam vários anos para se adaptar à realidade brasileira. Eu morei cinco anos nos EUA (para fazer mestrado e doutorado em economia na Universidade de Vunderbilt) e levei vários para me readaptar no Brasil. Não foi fácil. Outro aspecto institucional é a lentidão do Judiciário, o que é um escândalo. Outra questão é a burocracia e a continuidade do uso de muitos papéis ao invés de digitalizar. Há um termo em inglês que acho mais adequado, o red tape, que significa lentidão no andamento das coisas. Muitos burocratas do serviço público gostam disso, mas essa lentidão afeta a vida das empresas e dos cidadãos comuns. Há casos em que o setor público promove um aumento brutal de imposto de uma hora para outra. Isso não deveria acontecer. Nos EUA e Europa isso não ocorre. A Alemanha, que tem um sistema tributário semelhante ao nosso, estuda uma reforma tributária há décadas.

Como avalia a questão da inovação?
Sanson  –
É um tema que se discute muito na Fiesc. Foi eleito como importante de entidade, Glauco José Côrte. Eu tenho minhas opiniões sobre isso, que não necessariamente coincidem com a de outros professores e lideranças. Acredito que pesa, nesse aspecto, também a cultura do nosso empresário. Ele esteve muito tempo protegido da concorrência externa. Podia fazer produtos de qualquer jeito que conseguia vender. Quando você tem a concorrência externa, precisa enfrentar coreanos, japoneses, americanos ou chineses é diferente. Ou você trabalha com mais produtividade ou se dá mal. Não é pedir um favor a um ministro e conseguir aumentar os lucros brutalmente. Você tem que baixar custo, o que significa aumento de produtividade. Isso envolve não só comprar máquinas novas, mas administração, como fazer. Progresso é fazer a mesma coisa com custo mais baixo. Muitas vezes você baixa custo só reorganizando o espaço. Os japoneses, como não tinham capital, fizeram adaptações com engenheiros para baixar os custos. Com isso eles se tornaram competitivos no mundo. Isso não acontece só com incentivo fiscal, mas você tem que ir à luta e vencer seu concorrente. Isso se faz via maior produtividade.

Como é o trabalho que o senhor desenvolve atualmente para o setor de logística?
Sanson  –
Eu me aposentei da UFSC como professor em 2012. No momento, estou vinculado a um curso de ensino à distância de Economia da instituição, no qual ministro microeconomia. Na primeira versão foi oferecido para cidades polos fora de SC. Devo voltar à atividade de professor voluntário, mas meu trabalho principal, agora, é em planejamento portuário. Estou vinculado ao Laboratório de Transporte e Logística da UFSC, o LabTrans. O principal projeto envolve 34 portos brasileiros. Fazemos um plano mestre, incluindo instalações e ativos, com vistas à demanda do setor nos próximos 20 anos. É um trabalho que serve de guia para os futuros investimentos em portos. A Secretaria de Portos da presidência da República usa os estudos para aconselhar investimentos portuários. A gente faz projetos para toda a parte de infraestrutura, incluindo ferrovias e rodovias. O laboratório estuda a área profundamente e tem muitos bolsistas que fazem dissertações e monografias sobre o tema.

De muitos lugares

ASanson2Nascido em Lages e morador de Jaraguá quando criança, o professor João Sanson, mestre e PhD em Economia pela Universidade de Vanderbilt, EUA, diz que é de muitos lugares. Professor aposentado pela UFSC, é consultor do Laboratório de Transportes (LabTrans) da instituição e ministra aulas no curso de Economia à distância. Uma das recentes viagens foi à trabalho ao Porto de Vila do Conde, no Pará (foto). É casado com a advogada Nadir e tem duas filhas: Luciana (médica) e Beatriz (cantora lírica e jornalista).

Comentários

comments

Envie seu Comentário