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Santa Catarina se prepara para exportar mais moda

25 de agosto de 2014 0

Após nove anos de união pelo avanço do design de moda em parceria com universidades, o Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC), integrado por 17 empresas, dá um novo salto para ampliar as exportações. Está aderindo ao Texbrasil, programa entre a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e a Apex-Brasil, agência de promoção de exportações do país que inclui capacitação, inteligência competitiva, promoção comercial e consultoria da Fundação Vanzonlini.

Sábado, empresários que integram o SCMC, movimento presidido por Claudio Grando, receberam no condomínio Vivá Cacupé, em Florianópolis, o presidente da Abit, Rafael Cervone, para discutir a adesão ao Texbrasil.

Estudos feitos pela Abit, segundo Cervone, revelam que consumidores do exterior gostam do estilo de vida alegre e colorido do Brasil. Ele diz que o maior potencial para exportar é de produtos de qualidade, mas de médio valor. Entre os mercados potenciais estão as Américas, Ásia (especialmente as grandes cidades da China, e Europa). Para o europeu, por exemplo, vestir produtos brasileiros remete à alegria, explicou Cervone.

Conforme Claudio Grando, o objetivo é que todas as empresas do SCMC possam participar do Texbrasil. Outra meta é atrair mais empresas ao movimento voltado ao design de moda no Estado. O grande objetivo, segundo ele, é colocar o Estado como polo gerador de moda, de produtos de valor agregado.
- Queremos atrair mais empresas de todas as regiões para fortalecer a nossa cadeia têxtil, que é completa – diz Grando.

Leia a entrevista com o presidente da Abit, Rafael Cervone:

Como iniciou o programa Texbrasil?
Rafael Cervone - O programa começou há 13 anos numa parceria entre a Abit e a Apex-Brasil, tem como objetivo fomentar as exportações e promover a internacionalização e o posicionamento das empresas lá fora. E um projeto muito grande que envolve a sensibilização das empresas para exportação, capacitação, inteligência competitiva, promoção comercial, missões internacionais e a internacionalização de fato (nivel cinco), que são as empresas que já se posicionaram globalmente e são referência para as demais. Hoje, estamos falando neste evento da gestão do processo de inovação. Não é só a inovação de produtos, mas a forma de inovar dentro das empresas. Isso permite que o sistema todo de inovação seja vivenciado de maneira adequada e isso faz com que a empresa dê um salto tecnológico.

Onde o Texbrasil começou a ser implantado?
Rafael – É um programa que iniciou em SP, estamos partindo para a terceira turma. Nosso parceiro é a Fundação Vanzonlini, da Universidade de São Paulo. Estamos partindo para a terceira turma e já são mais de 50 empresas participantes.

Que cenário vê para o setor têxtil brasileiro?
Rafael
- Estamos fazendo uma revisão do plano prospectivo do setor. Fizemos um plano para 15 anos que termina em 2023 e estamos atualizando para 2030, o que deve ficar pronto até o final do ano. Estamos projetando o futuro do setor, que é um dos mais importantes para a economia brasileira. É integrado por 30 mil empresas que faturaram no ano passado algo em torno de US$ 60 bilhões de dólares. É o segundo maior empregador da indústria de transformação, atrás só de alimentos e bebidas junto, emprega 75% de mulheres, das quais 40% sustentam seus lares, é um setor que tem investido mais de US$ 2 bilhões em máquinas e inovação mesmo depois da crise esse valor dobrou. Até 2008 esse valor médio era de US$ 1 bilhão, o que mostra que o setor está investindo. Temos 30 mil empresas e detemos o know-how de toda a cadeia, que é longa. Acho que pouquíssimos países do mundo detém isso, desde as fibras naturais e sintéticas até o fashion design. As empresas tendem a se verticalizar, partindo para o varejo. Essas têm conseguido resultados melhores. Aqui em Santa Catarina temos alguns exemplos. A Dudalina é um caso típico, que partiu para a inovação do lado feminino, se internacionalizou.
Como estão as empresas de SC?
Rafael - O Estado de Santa Catarina tem demonstrado uma pegada muito interessante. Primeiro com o Santa Catarina Moda e Cultura, que a gente vem acompanhando desde o início e tem feito a diferença no setor. Esse movimento tem mudado o próprio Estado, com esforço enorme de agregação de valor, trabalho em conjunto, capacidade de inovar. Isso se reflete nos números das empresas.

Quais são as perspectivas lá fora?
Rafael
– O Brasil enfrenta falta de competitividade. Não adianta o setor investir US$ 2 bilhões por ano se o país não é competitivo. Aliás, isso tem afetado a produtividade das empresas. Nos últimos anos, os salários cresceram muito acima da inflação e a lucratividade não acompanhou. É importante melhorar a infraestrutura e fazer as reformas. Há 15 ou 20 anos, nós já tivemos market share de 1% no mercado mundial. Esse cenário é muito interessante, considerando o os negócios têxteis internacionais, sem considerar o mercado interno de cada país, falamos de algo em torno de US$ 650 bilhões. Sabemos que nos próximos 10 anos esse mercado, com crise e tudo mais, vai subir para US$ 850 bilhões. Então, pensamos em qual market share queremos ter. A nossa meta é voltar a ter pelo menos 1%, aí vamos exportar US$ 7 bilhões e não US$ 1,3 bilhão como hoje.

Com que produtos vamos competir?
Rafael
– De uma coisa eu tenho certeza: o Brasil não vai competir mais em commodities. A estratégia das empresas, agora, é agregar valor. Eu também acho que o posicionamento da moda brasileira não precisa ser o mesmo da Louis Vuitton, Prada ou Gucci. Há um middle market (mercado de produtos de médio valor) onde os nossos designers podem fazer a diferença, até pela questão do preço. Não adianta se posicionar no meddle market com preço da Louis Vuitton, aí não vamos vender.

As restrições da Argentina estão prejudicando muito o setor?
Rafael
– A Argentina e o nosso principal cliente. Apesar de estarmos inseridos no Mercosul, ela não nos trata como um país do mercado comum. Ela se protege e dificulta o máximo nossas exportações. Resultado disso é que nos últimos quatro anos perdemos 40% do mercado argentino. E eles não ampliaram o parque fabril próprio,mas substituíram os nossos produtos por outros mais baratos da Ásia, especialmente da China.

E outros mercados?
Rafael
– Em função dessa restrição na Argentina, nossas empresas passaram a buscar outros mercados. Primeiro foi em outros países da América Latina. Agora, avançam no mercado Árabe, Rússia e, por incrível que pareça, a China. Nós, da Abit, estamos finalizando um estudo de mercado de dois anos na China, envolvendo as grandes e médias cidades, Essas de segunda grandeza têm de 15 milhões a 10 milhões de habitantes. Também identificamos que os consumidores chineses estão se saturando das grandes marcas e abrindo espaço para o novo. E o Brasil é visto como novo, especialmente em função da Copa do Mundo e Olimpíadas de 2016.

A questão ambiental ajuda a abrir mercados?
Rafael
– Isso tem muito apelo, especialmente na Europa. O algodão brasileiro é bem aceito. Existe algo no mundo que é o BCI, o Better Cotton Iniciative, que considera o produto auditado, controlado desde a origem, que preserva o meio ambiente e não utiliza o trabalho escravo. O Brasil representa mais de 55% do BCI mundial. Isso pouco se conhece ainda. O algodão colorido da Paraíba e da Bahia tem feito sucesso na Alemanha e no Japão. Existe empresa de Minas trabalhando design com base na etnografia indígena ou do corante natural da Amazônia. O Brasil conta com uma diversidade cultural muito grande. A moda de SC é diferente de São Paulo, que é diferente da Bahia que é diferente de Minas. Essa diversidade chama a atenção lá fora. O Brasil tem condições de exportar algo único, criativo, versátil, que agrega valor inclusive do estilo de vida brasileiro. Isto no Primeiro Mundo e na China também. A classe A chinesa está crescendo, como o país é grande, isso pode fazer a diferença para nós.

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