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Por que a inflação continua em alta

29 de junho de 2015 1
Diorgenes Pandini

Diorgenes Pandini

ECONOMISTA DO BANCO ITAÚ CAIO MEGALE EXPLICA A ALTA DA INFLAÇÃO E CENÁRIOS PARA PIB, SETOR IMOBILIÁRIO E INVESTIMENTOS. ELE ESTEVE EM EVENTOS DA APIMEC EM SC E DEU ENTREVISTA PARA O BLOG.

Por que a inflação não para de subir?
A inflação continua subindo apesar de o Banco Central estar subindo os juros básicos desde 2013 (só parou de elevar a taxa Selic um pouquinho durante a eleição), mas a inflação continua pressionada. Se dividirmos em duas partes, um pedaço da inflação é de preços livres como bens duráveis, bens de consumo, serviços, restaurantes e outros. Quando a economia vai desacelerando, a inflação desses bens tende a ficar menos pressionada. Ela está desacelerando devagar. Por outro lado, o governo está ajustando preços que ficaram congelados lá atrás. Gasolina subiu, energia elétrica subiu bastante e as loterias foram reajustadas. Essa desaceleração dos preços livres está sendo mais do que compensada por uma alta muito expressiva dos preços administrados. Em 2013 eles subiram apenas 1% porque o governo controlava os preços. Agora, vão chegar perto de 15%. Então, a inflação como um todo não cai porque tem esses preços administrados subindo. Como também representam custos para as empresa, elas tentam passar isso para os preços finais. Então, apesar de o desemprego estar subindo, de o BC estar elevando os juros, a inflação não cede.

Quando ela vai ceder?
Quando esse processo de ajuste de preços administrados de custos terminar, provavelmente até meados do ano que vem. A inflação está chegando perto de 9% agora, deve ficar nesse patamar até no ano que vem. Aí ela vai começar a desacelerar, a partir de maio do ano que vem ela entra para dentro da banda de 6,5% ao ano, continua desacelerando, termina o ano em 5,5% e chega em 2017 perto dos 4,5% ao ano (o centro da meta). Será um longo processo de realinhamento de preços e inflação de custos. Se os preços estivessem mais livres essa inflação teria aparecido antes, a gasolina teria subido antes, a energia não teria caído em 2012, mas agora não estaria sendo pressionada.

Como vai se comportar o PIB?
Vai continuar fraco. No ano passado já foi fraco, cresceu praticamente zero. Para este ano, estamos esperando uma queda mais forte do PIB, de 1,7% e, no ano que vem, estimamos crescimento de 0,3%, que é praticamente zero. É uma queda importante neste ano sem recuperação palpável no ano que vem. Isso está acontecendo porque a alta de custos na economia já vem há mais tempo. Agora, há a alta de energia, mas lá atrás, com a economia aquecida, o custo de trabalho, aluguéis e outros subiram. O Brasil se tornou um país caro para produzir. Então, a gente só vai voltar a crescer quando esses custos de produção derem uma desinflada. Isso é demorado porque nossa economia é muito inercial, as pessoas formam seus preços olhando para trás, por isso os custos altos perduram. Outra parte da história é que boa parte do consumo de 2013 e 2014 foi via crédito. Então, o endividamento de famílias e empresas cresceu bastante nesse período. A demanda por crédito está menor em função disso. São dois processos: desinflar custos e o balanço das famílias, que estão mais endividadas. É com se a gente tivesse batido em 40º de febre e agora precisa ficar de cama para voltar a ser 37º ou 36,5 º. Aí volta a crescer.

E o mercado imobiliário?
O mercado imobiliário do Brasil, nos últimos 10 anos, passou por um realinhamento. Há 15 anos os imóveis estavam muito baratos por falta de crédito. Aí foram promovidas mudanças, especialmente legislativas, o mercado cresceu e os preços se realinharam. Isso era necessário, mas passamos um pouco do ponto. Algumas regiões estão com excesso de oferta e os preços estão se corrigindo. Não tivemos bolha. Outra coisa, o crédito imobiliário como proporção do PIB está em cerca de 4% ou 5%. É muito pequeno. Nos EUA era de 100% e na Espanha era 80%. O ideal para nós seria perto de 15%. Há muita demanda ainda reprimida de imóveis no Brasil. Aí surge a pergunta: é hora de comprar? Eu não teria pressa agora porque estamos no meio da fase do ajuste. Mas já há boas oportunidades. No curto prazo, há mais boas ofertas para compra à vista. Recomendo ao consumidor ficar atento, mas não precisa ter pressa porque o período de ajuste é longo.

Como está o cenário para investimentos?
No curto prazo, as pessoas não estão se sentindo confortáveis para fazer grandes investimentos e a ociosidade está elevada, especialmente em alguns setores como veículos, eletrodomésticos e imóveis. Mas alguns segmentos estão investindo. Ao mesmo tempo, o Brasil tem gargalos do lado da infraestrutura. Por isso o programa de concessões faz todo o sentido porque o país precisa de investimentos. E as multinacionais estão atentas. No Itaú, nós perguntamos para uma gama de clientes multinacionais como veem o cenário. Eles reconhecem que no momento é difícil, mas dizem que estão no país há 40 anos ou 60 anos e querem estar aqui por mais 60 anos. O Brasil é o segundo ou terceiro maior mercado para muitas delas. Ao mesmo tempo em que há os que estão recuando, quem tem visão de mais longo prazo vê como oportunidade porque tem coisas baratas para comprar. Quando o dólar bateu em R$ 3,40 muitas ficaram motivadas a investir mais no Brasil.

Comentários

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Comentários (1)

  • Romulo Bregalda diz: 22 de julho de 2015

    Desculpe-me por discordar, não acredito que houve realinhamento de preços haja vista que os valores dos imóveis estão surreais, comparados a outros mercados chega a ser irônico. Os alicerces do setor imobiliário eram o credito fácil do Governo, e um marketing poderoso, que insiste em reforçar a falsa ideia que imóveis nunca desvalorizam. Não acredito em uma demanda reprimida, até porque esta demanda é em sua grande maioria no segmento da classe c, onde o programa minha casa minha vida atendeu a contento. O que houve foi uma corrente especulativa onde pequenos investidores compravam na planta com a certeza de que venderiam por preços bem acima da correção do INCC, gerando uma corrente imobiliária que com o fim do credito fácil se partiu. Ainda hoje nos deparamos com noticias com esta ,negando a retração do mercado imobiliário e a existência de uma bolha imobiliária. Para os informados, basta analisarmos os números dos distratos ocorridos no período e os reais valores dos imóveis novos negociados, bem menores que os valores pagos nos lançamentos. Será que imóvel nunca desvaloriza? Feliz 2016 ….

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