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Como o empresário Udo Döhler administra Joinville, a maior cidade catarinense

01 de agosto de 2015 0
Diogenes Pandiini / Agência RBS

Diogenes Pandiini

Há dois anos e meio, Joinville, a maior cidade do Estado, é administrada pelo prefeito Udo Döhler, um dos principais nomes da indústria de Santa Catarina, acionista da centenária empresa têxtil Döhler. Poderia ser apenas conselheiro empresarial ou se aposentar, mas está feliz trabalhando na administração da cidade. Entre as mudanças que implementou estão a expansão de 80% nas vagas de creches e melhorias na infraestrutura de ensino, informatização do governo, prevenção rígida à corrupção, investimentos em saúde e infraestrutura. Apesar de o município estar sendo duramente afetado pela crise no momento, Udo está otimista com o futuro da economia e acredita que o Encontro Empresarial Brasil-Alemanha, que Joinville sediará em setembro, vai atrair mais investidores ao município. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

O plano de ser prefeito era antigo?

Nunca me passou pela cabeça ser prefeito de Joinville. Foi uma coisa recente. Acompanhei a gestão pública de perto por mais de três décadas porque fui presidente da Associação Empresarial de Joinville. Agora surgiu a oportunidade de retribuir um pouco o que a cidade me propiciou.

Como se sente no cargo?
Bem. É um desafio bom, algo difícil de ser compreendido. Sempre perguntam qual é a diferença entre a gestão pública e a privada. Digo que gestão é uma só. No setor privado, quando uma empresa não é bem administrada, vai à falência e fecha as portas. Eu não tenho conhecimento de uma cidade no pais que tenha fechado as portas. É claro que o processo de gestão é mais complexo, mais trabalhoso. Mas isso não significa que não ocorre com o setor privado. O clientelismo político envelheceu a gestão pública, fez com que ela apodrecesse no país inteiro. A economia cresceu em descompasso com a gestão pública. É claro que existem as diferenças em relação ao setor privado como a estabilidade do emprego, os processos licitatórios. Mas esses são atrapalhados pela falta de instrumentos adequados.

O que a prefeitura de Joinville faz para melhorar a gestão e coibir a corrupção?
O setor público não tem habilidade de cobrar desempenho, prevenir desvios de conduta, o que devia acontecer num vap vupt demora para ser alcançado. Essa é uma proposta nossa, prevenir desvios de conduta, ou seja, corrupção zero. Eu tenho lutado muito por isso. Nós centralizamos as licitações. Até hoje, não tivemos nenhum desvio identificado, trabalhamos fortemente nesse particular. Conseguimos avanços importantes. Por exemplo. Uma licença na infraestrutura levava 170 dias. Hoje, nos emitimos essa licença em 15 dias, um décimo do tempo. No meio ambiente, temos demandas de um ano, pretendemos resolver em semanas. Uma das mudanças foi a adoção de processos digitais. Há mais de um ano a prefeitura de Joinville é totalmente digital. Faz um ano que não assino nenhum documento legal, somente de forma digital. Temos as informações disponíveis para quem quer acessar. Vou dar um exemplo que até a nós surpreendeu. No passado, os postos de saúde não falavam entre si. Hoje, isso não acontece mais.

Quem vai a um dos nossos 55 postos de saúde entrega a sua receita, recebe um kit como num supermercado. Informa a receita, nome do medicamento e preço.Teve um que adquirimos num leilão publico por R$ 1,73 enquanto o preço na farmácia era de R$ 6,20. Até hoje, não recebemos nenhuma denuncia de preço fora do mercado. Então é possível avançar. Pena que hoje, embora a ouvidoria tenha estimulado a denuncia, ela não ocorre como se deseja porque, equivocadamente, nos lembramos ou do corrupto ou do corruptor. Mas é o binômio. Por isso a corrupção continua grassando e a forma de acabar com isso é lavá-la a jato, faltou isso na operação Lava Jato. Lavá-la a jato significa lavar rápido e com pressão. Sem isso, as coisas se acomodam e não mudam. Estou tranqüilo porque ao longo dos dois anos e meio de governo não recebemos nenhuma denúncia de ter contratado algo com preços fora de mercado.

Como industrial, o senhor sempre defendeu educação de qualidade. Que avanços foram alcançados na área?
Quando assumimos, estávamos com 10.300 crianças abrigadas em nossas creches. Tínhamos um déficit de mais de 3,5 mil vagas. Em dois anos e meio, aumentamos para 18 mil, ampliamos em 80% as vagas nas creches. Aí perguntam por que esse investimento tão forte nas creches quando, em outra ponta, há pavimentação para ser feita? Educação é prioridade número um. No ensino fundamental temos um corpo docente invejável. Recebemos no ano passado o prêmio de melhor gestão de educação infantil do país.

Joinville gasta 37% da receita em saúde. Por que é tão acima da média e como mudar?
Não são 37%, mas 37,5% da receita. Nossa intenção era reduzir para 27% para ficar perto das demais cidades que gastam 23%. Não foi possível porque há uma cobrança do poder judiciário. Isso ocorre porque o hospital municipal São José tem que atender a região metropolitana na alta complexidade, que é uma função do Estado, e as outras cidades não.Hoje, o grande hospital do Norte é o de Joinville e quem paga a conta é o contribuinte de Joinville. À medida que essa cobrança se intensifica, vamos gastando mais com a saúde. Vai chegar a um ponto que se fecha uma escola, uma unidade de assistência social, não há como fazer. Esse recurso curto, precisa ser distribuído para as diversas áreas. Hoje, os municípios de porte médio que têm no seu entorno municípios menores precisam fazer esse atendimento, por isso estão sendo empurrados para a insolvência. Se eu pudesse, entregaria o hospital ao Estado. Estou pedindo ajuda para o Estado e ao governo federal.

Em setembro, Joinville vai sediar o Encontro Econômico Brasil-Alemanha. Quais são as expectativas?
Estamos muito otimistas para esse encontro. Já temos mais de 150 empresários alemães confirmados. É um encontro para realizar negócios. Aqui está sob o chapéu da CNI, que delegou isso para a Fiesc e o município está dando sua contribuição. Vamos mostrar a Joinville do presente, a dos próximos 15 anos e daqui a 30 anos. Infelizmente, o Brasil está em crise, mas os alemães olham o longo prazo e somos uma das 10 maiores economias do mundo. Atraímos várias empresas alemãs recentemente, inclusive a Siemens.

Como a crise está impactando o orçamento da prefeitura?

O nosso orçamento era de R$ 2 bilhões, contigenciamos para cerca de R$ 1,6 bilhão. Ele não está sendo realizado porque os recursos do governo federal deixaram de ser aportados no tempo devido. Parte dos recursos do governo estadual, da mesma forma. A nossa receita local do IPTU está acontecendo. O ISS é local, mas depende da atividade econômica e tudo isso caiu. O déficit é de 10% porque a receita caiu embora a arrecadação tenha subido, mas os nossos compromissos cresceram numa proporção maior. Nesse cenário, podem perguntar por que investimos mais em educação e corremos atrás do melhor Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do país. Isso vai ser o futuro da cidade para os próximos 30 anos, quando ela vai dobrar de tamanho. Pensando nisso, também estamos investindo R$ 200 milhões em mobilidade urbana, incluindo 56 quilômetros de corredores de ônibus, ciclovias, passeios e recuperação do pavimento.

De que forma enfrenta a queda de receita?
Há queda de arrecadação de todo lado. Estamos suportando porque fizemos cortes e estamos comprando mais barato. Quando assumimos, reduzimos em um terço os cargos comissionados e fizemos a repactuação dos compromissos. Devíamos R$ 300 milhões, dos quais, quase R$ 100 milhões para fornecedores. Decidimos pagar em quatro anos sem juros e correção monetária. Ninguém gostou. Vimos que o município comprou algo que poderia ter adquirido com preço menor. Anunciamos que daquela data em diante compraríamos com preço de mercado. Com isso o nosso tiket médio caiu em 40%. O município recuperou seu crédito.Temos oferta de diversas linhas de financiamento para grandes investimentos em infraestrutura. Fomplata nos procurou para financiar uma ponte de quase um quilômetro no bairro Boa Vista, um investimento da ordem de R$ 120 milhões. Estamos negociando porque recuperamos nosso crédito. E o BID aprovou US$ 70 milhões, que não foram liberados porque necessitam do aval do governo federal.

Como está o setor privado do município e quais as perspectivas?
A economia passa por dificuldade porque o setor metalmecânico é o mais penalizado com a crise do país. Nós somos grandes produtores de autopeças, temos a GM e a BMW ao lado, em Araquari. Perdemos alguns mil empregos e isso vai continuar até o final do ano. Nesse particular, não se pode ser muito otimista porque o governo não está conseguindo implementar o ajuste fiscal, alinhar preços e avançar nas concessões. O ônus previdenciário cresceu, as medidas do Brasil maior estão encalhadas no Congresso e se isso não avançar, como acertar nossas contas? O que resta ao governo é deprimir os preços do setor privado. Há uma proposta para reduzir os salários em 30%, o governo arca com 15%. Isso significa que ele vai produzir o mesmo volume de bens, só que ele vai comprar 15% menos. O que via acontecer? Serão consumidas as reservas do setor privado e na hora em que a economia voltar a crescer vamos buscar dinheiro onde? Estamos perdendo nosso crédito no exterior, haja vista a movimentação na bolsa nos últimos dias.

Quais são as expectativas para o futuro, na sua avaliação?
Nos próximos 20 anos, o município terá um futuro generoso. As nossas oportunidades são invejadas. Joinville investiu fortemente em educação, está acima da média disparado. Temos a melhor indústria de compressores, de refrigeradores, a maior fundição de ferro, a maior processadora de PVC. Lá na frente, esses mesmos talentos estarão na biotecnologia, na economia verde. Nós vamos importar ainda mais talentos. Mas para vir para a cidade, além de boas escolas, que já temos inclusive uma internacional, precisamos de opções de lazer. Hoje, estamos muito próximos de dar balneabilidade à Baía da Babitonga, vamos construir marinas e poderemos ter praias.Além disso, com os projetos de novos portos na baía, vamos ser o segundo maior entroncamento portuário do país, ficaremos só atrás de Vitória, no Espírito Santo.Teremos mais dois estaleiros na região.Junto a isso
colocar mais um atracadouro de navios de turismo não será façanha nenhuma. A Baia da Babitonga é um paraíso e vamos usá-la mais para o turismo.

PIB de Itajaí superou o de Joinville. O senhor ficou abalado?
Não, ao contrário. Existem duas formas de se ler o PIB. Em Itajaí, o PIB se constrói com o transporte de contêiner. Em Joinville, com a oferta de manufatura. São duas coisas diferentes. É claro que aqui em SC se centralizou toda a distribuição, a importação, Isso é bom para o Estado. Então, em dado momento, o PIB do contêiner está em Itajai. Se Joinville tivesse um terminal de contêineres poderíamos aumentar o nosso PIB em 17% num piscar de olhos. Isso já está começando a acontecer porque Joinville já tem o seu porto seco. O fato de Itajaí ter passado não me preocupa. Compara a população obreira de Itajaí com a de Joinville, a nossa é o dobro. Temos uma boa qualidade de vida e Itajaí também. Estive lá terça, é uma cidade muito bonita. Isso (liderança do PIB) pode acontecer também com Palhoça. Atualmente, Joinville tem 8,5% da população do Estado e 13,5% da economia.

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