A África do Sul é destes países, como Cuba, em que o relato de qualquer habitante dá uma tunda nos livros de História. Mandla, 60 anos, presta serviços de guia e motorista em um albergue de Johanesburgo. É um especialista em guiar.

Mandla dirige durante duas horas por Soweto, mais que um bairro, um símbolo da resistência contra o apartheid. Esta visita rápida custa 400 rands (R$ 100). Se a opção for por um tour de um dia, o dobro. Bem mais barato, e seguro, do que pegar um táxi nas ruas de Johanesburgo.
Mandla conhece estas bandas. Morou em Soweto quando o lugar era um gueto no qual foram jogados, sem eletricidade, água ou esgoto, os não-brancos (expressão do apartheid). Parte deste Soweto ainda existe.

Johanesburgo nasceu com a favelização. Criada em torno da descoberta do maior filão de ouro do mundo, viveu uma explosão populacional. Quando milhares de operários descobriram que a extração era muito mais complicada do que se imaginava, já estavam ali. Tornaram-se parte dos bolsões de miséria.
O conflito racial se acirrou quando os operários brancos com baixa qualificação sentiram que seus empregos seriam ameaçados pelos negros. Da reação organizada saíram as bases do apartheid (separação, em afrikaans) em que Mandla viveu a maior parte dos seus 60 anos. Entre outras humilhações, ficou três meses preso por não levar o "passaporte" exigido para andar em determinados pontos de Johanesburgo. Perguntado sobre como está a situação agora, é lacônico:
— Estamos melhorando.
Soweto hoje é um bairro onde predominam as residências de classe média. Casas como a de um ilustre advogado, tranformada em museu para receber turistas que chegarão em hordas no período da Copa do Mundo.
— Aqui morava Nelson Mandela — aponta.
Depois de passar em frente à residência de Winnie Mandela, de quem o ex-presidente se separou em 1996, Mandla estaciona no coração do bairro. Um igreja. Saúda as vendedoras ambulantes com uma piada e pede que o acompanhe.
— Não tomo jeito, já estou fazendo o tour com você — se recrimina, antes de entrar no templo e, na falta de um guia local, começar a falar.
Em junho de 1976, conta o sul-africano, cerca de 500 estudantes foram mortos durante um protesto contra o ensino obrigatório de afrikaans nas escolas. A polícia entrou na igreja, onde buscavam abrigo os moradores, e disparou. No teto, ainda estão as marcas das balas. No vitral, o retrato da ação de Mandela contra o apartheid.
Com o fim do regime do apartheid, em 1994, os casebres que dominavam Soweto (à direita, abaixo) começaram a dar lugar a casas populares geminadas (na parte superior da foto). Embora seja um dos pontos maior carga simbólica do país, Soweto não significa nada em qualquer idioma africano. É apenas a contração da expressão inglesa South Western Township, algo como Município do Sudoeste. Soweto está longe de ser pitoresco. Atrai sobretudo gente interessada na História contada pelos seus protagonistas.
Fotos: Rodrigo Cavalheiro
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Postado por Rodrigo Cavalheiro