Numa madrugada mormacenta dessas, acordei com a bexiga na iminência de um transbordamento. Culpa da água com gás, seguramente. Levantei em passos de sonâmbulo e, ai!, bati com o dedão do pé na parede. Ergui as pálpebras e então entendi o acidente. Estava refazendo o traçado da cama ao meu banheiro da Itoupava Norte. Fracassei porque, aqui em São Paulo, até os caminhos da privada são diferentes.
Trata-se de um evento sintomático: quando desamarrado da razão, em completo relaxamento, meu corpo interpreta como se ainda estivesse na floresta. Numa metáfora freudiana e climática, Blumenau, depois de uma década de densa felicidade, tornou-se meu útero quentinho, para o qual a gente sempre almeja voltar quando fragilizado. Precisaria inventar um teorema para enumerar as razões deste sentimento, mas arrisco lançar mão de explicação matemática. Há 322 amanheceres de quarta-feira, sou inundado de afeto pelos pacientes leitores da coluna. Duvida?
Em 11 de abril de 2007, Josieli Cristina Borba ficou me devendo uma comissão: “Estava te lendo quando um cliente ligou. Não consegui disfarçar a risada. Pedi que lesse o teu texto. Depois de dez minutos, ele retornou gargalhando. E fechou o negócio!”
Em 24 de janeiro de 2008, o amigo Leandro Karasinski elegeu-me um porta-voz: “Quisera eu ter a capacidade de colocar no papel de uma maneira tão competente aquilo tudo que eu pensava. Você limpou minha alma.”
Em 3 de setembro de 2008, eu e Margit Didjurgeit nos emocionamos com um texto sobre beijo na bochecha dos filhos: “Tive de respirar fundo, pois lembrei do meu pai.”
Dois meses depois, Luiz Carlos Nemetz e eu compartilhamos amor por uma loira: “Talvez não saiba dizer do amor que tenho pela cidade, nem com palavras nem com gestos. Mas hoje você fez isso por mim... Já vi muitas declarações de amor por Blumenau em minha vida. A sua passa a ser a mais linda! Vou guardá-la para sempre!”
Em 23 de junho do ano passado, a Gisélle Olimpio se deixou enganar por mim, que jamais redigi um verso: “Quem disse que os jornalistas não são poetas?”
Guardo comigo 58 mensagens assim, plenas de ternura, colhidas nestes quase sete anos de convivência quarta-feirina. Todas me ajudaram a compreender que esta viagem a qual chamamos de vida vale muito a pena. É por manifestações assim que hoje deixo este espaço com a convicção de que este espaço jamais me deixará.
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O Evandro de Assis toca rock, mas corta o cabelo todo mês, nunca fumou maconha e namora a mesma menina há quase 10 anos. Transferir a coluna para as mãos dele a partir da próxima semana realiza, em parte, meu sonho de ter um filho assim. Quem disse que só pais podem deixar herança?

