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Deixo sem deixar

23 de fevereiro de 2011 8

Numa madrugada mormacenta dessas, acordei com a bexiga na iminência de um transbordamento. Culpa da água com gás, seguramente. Levantei em passos de sonâmbulo e, ai!, bati com o dedão do pé na parede. Ergui as pálpebras e então entendi o acidente. Estava refazendo o traçado da cama ao meu banheiro da Itoupava Norte. Fracassei porque, aqui em São Paulo, até os caminhos da privada são diferentes.

Trata-se de um evento sintomático: quando desamarrado da razão, em completo relaxamento, meu corpo interpreta como se ainda estivesse na floresta. Numa metáfora freudiana e climática, Blumenau, depois de uma década de densa felicidade, tornou-se meu útero quentinho, para o qual a gente sempre almeja voltar quando fragilizado. Precisaria inventar um teorema para enumerar as razões deste sentimento, mas arrisco lançar mão de explicação matemática. Há 322 amanheceres de quarta-feira, sou inundado de afeto pelos pacientes leitores da coluna. Duvida?

Em 11 de abril de 2007, Josieli Cristina Borba ficou me devendo uma comissão: “Estava te lendo quando um cliente ligou. Não consegui disfarçar a risada. Pedi que lesse o teu texto. Depois de dez minutos, ele retornou gargalhando. E fechou o negócio!”

Em 24 de janeiro de 2008, o amigo Leandro Karasinski elegeu-me um porta-voz: “Quisera eu ter a capacidade de colocar no papel de uma maneira tão competente aquilo tudo que eu pensava. Você limpou minha alma.”

Em 3 de setembro de 2008, eu e Margit Didjurgeit nos emocionamos com um texto sobre beijo na bochecha dos filhos: “Tive de respirar fundo, pois lembrei do meu pai.”

Dois meses depois, Luiz Carlos Nemetz e eu compartilhamos amor por uma loira: “Talvez não saiba dizer do amor que tenho pela cidade, nem com palavras nem com gestos. Mas hoje você fez isso por mim... Já vi muitas declarações de amor por Blumenau em minha vida. A sua passa a ser a mais linda! Vou guardá-la para sempre!”

Em 23 de junho do ano passado, a Gisélle Olimpio se deixou enganar por mim, que jamais redigi um verso: “Quem disse que os jornalistas não são poetas?”

Guardo comigo 58 mensagens assim, plenas de ternura, colhidas nestes quase sete anos de convivência quarta-feirina. Todas me ajudaram a compreender que esta viagem a qual chamamos de vida vale muito a pena. É por manifestações assim que hoje deixo este espaço com a convicção de que este espaço jamais me deixará.

*

O Evandro de Assis toca rock, mas corta o cabelo todo mês, nunca fumou maconha e namora a mesma menina há quase 10 anos. Transferir a coluna para as mãos dele a partir da próxima semana realiza, em parte, meu sonho de ter um filho assim. Quem disse que só pais podem deixar herança?

E o Camorra, hein?

16 de fevereiro de 2011 0

E o Camorra, hein? Depois de tanto reverberar o tunch-tunch, aquelas paredes servirão de eco aos refrões do Luan Santana e afins, soube pela coluna do Cris.

Ficará um vazio no coração boêmio desta cidade de sono precoce, e cada vez mais refém do efêmero. Mas restará também um alívio aos sujeitos de meia-idade, como eu. Não é confortável ser chamado de tio num lugar onde nos divertimos com ardor juvenil.

Ídolos também mentem

16 de fevereiro de 2011 1

Talvez seja uma imprudência vir falar de Ronaldo quase 48 horas depois da aposentadoria anunciada sob espessas e sinceras lágrimas. Ronaldo elevou-se à categoria de fenômeno diante dos olhos de qualquer apreciador de futebol que, hoje, tem entre cinco e 114 anos. Não se trata, portanto, de um prodígio construído em tempos idos, residentes na memória dos mais velhos ou em filmes preto e branco. Ronaldo é dono de feitos vivos, quase palpáveis. Daí a idolatria.

Daí também a minha imprudência de contestar a corrente de tietagem. Já resmunguei aqui contra a transformação do jornalismo esportivo em programa de auditório. Sob pressão de corações apaixonados e da necessidade de se perpetuar, publicações tendem a bajular o torcedor em vez de informá-lo. Não são raros os casos de boicotes orquestrados por torcedores contra este ou aquele veículo, que ousa fazer seu papel direitinho, sem adesões. Pois vejo, com preocupação, jornalistas desempenhando este papel de animadores com desvelo.

Segunda-feira, quando Ronaldo veio com aquela história delirante do hipotireoidismo para explicar o excesso de peso, muitos colegas com visibilidade nacional se apressaram no Twitter. Compraram a versão sem pestanejar, tão travestidos de fãs que estavam no momento.

Ocorre que a história contada por Ronaldo não para em pé diante de uma brisa de ciência. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Márcio Mancini, o ganho de peso proporcionado pelo hipotireoidismo é de quatro ou cinco quilos. “Ninguém fica obeso por isto”, garante. Mancini também descarta o risco de o jogador ser pego no doping em razão do tratamento: “Os hormônios produzidos pela glândula são os mesmos do medicamento. Não há como o exame identificar.”

Bem, Ronaldo ficou roliço por comida, bebida, cigarro e todos os prazeres merecidos por quem está com a vida resolvida aos 34 anos. Não é feio engordar por isto.

Feio é acreditar na primeira desculpa de gordo que aparece.

Médicos turistas

09 de fevereiro de 2011 1

Somos naturalmente receptivos a sugestões. Já vi muito medíocre fazer coisas brilhantes graças ao estímulo de terceiros. Meu molho de tomate, por exemplo, só perdeu a acidez quando meus filhos atestaram, com os beiços tingidos de vermelho: “Pai, você é o melhor cozinheiro do mundo”. Até o Obina, insuflado pela torcida do Flamengo, imaginou-se mais hábil do que o Eto’o. Como ensinou Cazuza, mentiras sinceras nos interessam. Sempre.

Por esta crença no autoconvencimento, vi com estupefação uma turma de ativistas que, na contramão da bicho-grilisse natureba, convocou um protesto contra as homeopatias. Trata-se de uma dissidência de hipocondríacos que, insatisfeita com os resultados, destilou a ira contra as gotinhas. Como? Bebendo litros destes líquidos terapêuticos. “É tudo placebo”, diziam, com largos fios de homeopatia escorrendo pelo canto da boca.

Pôxa, não conheço as motivações subliminares destes sujeitos, talvez sejam apenas hipocondríacos magoados, mesmo. Mas, paranoico que sou, vejo aí um dedo dos laboratórios farmacêuticos. Além do assombroso acúmulo de riqueza neste mundo sedento por pílulas, estes conglomerados do setor químico passaram a comprar mentes de gente com moral flexível?

Vejamos o caso dos médicos, alguns, talvez minoria, mas em tamanho suficiente para serem notados. Há uma multidão de jaleco cruzando o mundo em viagens nababescas, hospedando-se em suítes presidenciais, comendo em restaurante de chef que aparece em revista de celebridade, tudo às custas dos laboratórios.

Soube de mulheres de médicos vangloriando-se em salões de beleza com seis passaportes cobertos de carimbos financiados pela indústria farmacêutica. Não virei jornalista para policiar a conduta dos outros, mas, como paciente, me permito duvidar de médico que prescreve remédio do laboratório que paga suas viagens. Quem aceita um mimo desta magnitude, vende também a própria credibilidade.

É por estas e outras que a saúde virou um questão de princípio moral. Quem adoece, força o outro a mentir.

Resta escolher quem: se o médico ou o homeopata.

Vou latir em breve

03 de fevereiro de 2011 4

Aos poucos começo a entender por que tantos se submetem à fila da fluoxetina, atrás de uma dose farmacológica de felicidade. Se a gente abre o flanco para a depressão, podemos cair na tentação de andar de quatro patas para receber parte da consideração que os animais, em especial os cachorros, gozam na sociedade moderna.

Bem, não quero atrair a ira dos defensores de animais, porque, como já experimentei, este pessoal tem notável sensibilidade: seja para amar o ser indefeso, seja para agredir verbalmente e de forma orquestrada quem os contesta. Só um espírito embrutecido não se enternece com a acolhida de um cachorro. É, de fato, uma incomum manifestação de carinho.

Mas me permito certa preocupação com o exagero desta paixão, que, sorrateiramente, vai conferindo ao animal um posto moral superior ao de um ser humano. E não me refiro à máxima de Dusek, pela qual todo cachorro deve ser trocado por uma criança pobre. Se defendo isto, também terei de abdicar de meus passatempos, como beber cerveja enquanto ouço o jogo do Xavante, para cuidar de meninos de rua. Não sejamos hipócritas, pois.

Meu estranhamento se dá pela aceitação de animais em espaços públicos, onde o homem, paradoxalmente, é repelido. Aqui em São Paulo (peço perdão por fazer outra referência ao meu novo endereço, mas a história é boa), há um shopping num bairro de bacana, o Higienópolis. Experimente você, fumante, acender um cigarro lá dentro. Um segurança de terno preto virá intimidá-lo com sua corpulência, fazendo um convite em tom de ordem para a retirada.

Pois neste mesmo espaço, senhoras de bolsa Louis Vuitton, original, desfilam com cachorrinhos tão delicadamente tosados quanto elas. Então, reparem, há um shopping paulistano onde fumante vale menos do que cachorro. Ok, fumante nos faz inalar fumaça involuntariamente. Mas por que sou obrigado a aspirar pelos ou me submeter ao risco de xixi e cocô dos cães dos outros?

Na revista Época São Paulo desta semana, a reportagem de capa está assim intitulada: “Meu Primeiro Cachorro - Um Guia Com As Melhores Dicas Para Comprar e Adestrar Seu Mais Novo Amigo”. Pôxa, quando o cão é a principal notícia numa das 10 maiores concentrações de seres humanos do planeta, há algo de insano com os bípedes.

Como parto do pressuposto de que alguns veículos, num esforço de sobrevivência, publicam o que leitor quer, e não o que ele precisa saber, vejo aí mais um sinal nefasto desta idolatria aos animais.

Ela, a idolatria, além de patrocinar injustiças com o semelhante, está nos emburrecendo.

Vou de busão, mano

26 de janeiro de 2011 3

Calculo que vocês já saibam, graças à publicidade transbordante de carinho dada pelo Valtinho e pela Neusa, que desde dezembro último sou um dos 11 milhões de habitantes de São Paulo. Bem, tecnicamente, não sei se estou autorizado a me definir assim, como morador, pois dedilho este texto ainda num quarto de hotel. Mas a partir de amanhã, se o Correio não extraviar meu contrato de locação, toc, toc, toc, fixo residência em Perdizes. Trata-se de um arborizado bairro residencial, de ruas íngremes como aquelas perto da Belo Horizonte, lá no Garcia. E a razão por que decidi viver lá, presumo, interessa a vocês.

Perdizes fica a cinco quilômetros do meu trabalho. Viajarei menos do que aí, quando me movimentava entre a Itoupava Norte e o Salto. Neste trajeto mais curto, a assombrosa habilidade dos paulistanos em se expandir para o céu, cobrindo o horizonte de edifícios, me faria disputar espaço no trânsito com umas cinco blumenaus. Coloquei o verbo na condicional, faria, porque vou deixá-los buzinando sozinhos. Decidi me locomover de ônibus.

Não, não saiam fofocando que me aliei aos bichos-grilos, praguejando contra o carro. Tomei esta decisão em defesa própria, de forma egoísta, e não pelo planeta. Primeiro, à beira dos 40 anos, não estou disposto a perder horas de existência ouvindo Ivetinha no trânsito.

Segundo, só ricos ou perdulários bancam o conforto de um carro aqui. O estacionamento menos ganancioso do Centro, destes que os vereadores blumenauenses se assanham para dar incentivos fiscais, arranca com R$ 8 na primeira hora. Terceiro, embora meus detratores até me imaginem em quatro patas, não tolero ser transportado como gado no metrô de São Paulo. Dias atrás, vi uma menina borrar o rímel ao ter o rosto amassado pela multidão na porta do trem. Não costumo me maquiar, mas estou fora.

Depois de testemunhar tantos horrores, optei por Perdizes. Lá, os ônibus partem vazios e, quando chegam às avenidas, encontram um dilatado corredor exclusivo à disposição. Enquanto meus vizinhos levam uma hora de carro, gasto 20 minutos. Lendo.

Portanto, tenham paciência. O corredor de ônibus há de operar na vida de vocês o milagre que operou na minha.

Deixem o carro para os teimosos.

Quem ajuda por mim?

19 de janeiro de 2011 2

Acho meio infantil esta obsessão, sobretudo de políticos e jornalistas, de ficar comparando catástrofes. Fico até imaginando uns dizendo aos outros: “minha tragédia é maior que a sua, nhém, nhém, nhém”. Para quem perdeu gente amada em novembro de 2008 aqui no Vale, sem contar os milhões de reais em patrimônio engolidos por água e lama, não há nenhum consolo em saber que os deslizamentos da Serra fluminense foram mais hostis. Trata-se de um esforço inútil para dar contorno matemático e objetivo a um vazio que só veteranos, como nós, somos capazes de dimensionar.

É justamente por carregar dentro da alma a dor de ver amigos sofrendo sem poder ajudar, de pedir para a família abandonar a casa rumo ao incerto, por conhecer a exata dimensão da nossa impotência diante de umas dessas TPMs da natureza, que me aborreço às vezes. Para ser mais específico, me chateio cada vez que algum canto deste país sofre com eventos naturais. Nestas ocasiões, as redes sociais da internet, terreno fértil para o exercício do individualismo mais vulgar, se ouriçam com uma pseudocompaixão. Alguns exemplos:

“Rio de Janeiro precisa de nós vamos ajudar, quando nós de santa catarina precisamos, eles ajudaram, agora é hr de retribuir”

“Galera, tragédia do Rio pior que Santa Catarina. Já contabilizaram mais de 600 mortes. Vamos ajudar!!!!”

“O Rio está precisando de ajuda. Chegou a nossa hora. Ninguém vai ajudar?”

Não precisa ser versado em análise de discurso para perceber a fragilidade, para não dizer cinismo, desta preocupação com os irmãos do Rio. Todos as milhares de mensagens são dirigidas a terceiros, inominados, a quem caberia organizar a gratidão catarinense. Se a turma com voz na internet está esperando o poder público para dar vazão aos seus mais nobres sentimentos, então não aprenderam nada com 2008.

Quem viveu aqueles dias conturbados deveria ter aprendido que, nestes momentos, a capacidade de liderança vale mais do que o volume da lamúria. Recomendo que este pessoalzinho saia da frente do computador e vá aprender aí na rua, com quem está de manga arregaçada, aplicando os verdadeiros ensinamentos de 2008.

Ou então pare de falar como um de nós.

A luz de Aladim

13 de janeiro de 2011 3

Semana passada critiquei gente que, mesmo paga pelas universidades para pensar livremente, prefere a subserviência ao discurso ideológico. Neste raciocínio, lembrei de um colega da Faculdade de Jornalismo chamado Aladim Lopes Gonçalves. Um sujeito batizado assim, num surto criativo dos pais, naturalmente se candidata a um lugar cativo na memória alheia. Mas não foi pelas repetitivas piadas sobre lâmpadas e gênios que o Aladim marcou minha existência universitária. Ele sobrevive em mim pela coragem de desafiar o pensamento único justamente num espaço onde ele, pela ingenuidade juvenil, acaba tolerado e até cultuado. Já me explico.

Estávamos em 1996 e, a uns dois meses da formatura, os colegas do comitê responsável pela cerimônia sugeriram a pedagoga Esther Pillar Grossi como paraninfa da turma. Esther é uma mulher intelectualmente resplandecente, cujo espírito inquieto se reflete nas cores cambiantes do próprio cabelo. Há 40 anos, dedica a vida a buscar soluções para a escola pública brasileira. Enfim, trata-se de um ser humano importante para qualquer sociedade, sobretudo para uma esculhambada como a nossa. Porém, algo na escolha de Esther incomodava Aladim muito além da estranheza de convidar uma pedagoga para paraninfa de jornalistas.

Naquele 24 de julho de 1996, data agendada para a formatura, Esther cumpria mandato de deputada federal do Rio Grande do Sul pelo PT. Ficaria na Câmara até 2002, quando, por razões que desconheço, mas imagino, desistiu dos cargos eletivos. Pois o Aladim estava aborrecido com isto: como vinte e poucos jornalistas recém-formados seriam lançados ao mercado sob a bênção de uma política?

Aladim vivia um desconsolo plenamente justificável. Qualquer cara que pretende levar a profissão a sério deve lutar contra a adesão. Não creio que assessoria seja jornalismo, mas, até quando presta este tipo de serviço, o jornalista deve fazê-lo de forma técnica, sem paixões, para preservar a credibilidade como patrimônio. Lúcido, Aladim enxergava o mal por trás da festa.

Mas, como Esther era do PT, e o PT era o partido de quem queria mudar o mundo, e só em Blumenau o universitário é de direita, Aladim enfrentou a ira da PUC de Porto Alegre. Foi vítima de um escárnio tão maldoso, inclusive de alguns professores, que colou grau em gabinete, como um leproso. É ou não é uma reação tribal em favor do pensamento único?

Soube que o Aladim trabalha em São Paulo. Vou tentar revê-lo para dar minha solidariedade tardia e me desculpar por ter ficado dançando Katinguelê com as meninas do subúrbio em vez de ter-lhe confiado apoio.

Texto publicado na página 19 do Santa de Papel de ontem

Ciência ideológica

05 de janeiro de 2011 2

Às vezes tenho a impressão que sou capaz de me divertir balançando um chocalho enquanto chupo o outro polegar, de tão ingênuo que me sinto. Foi assim segunda-feira, quando sintonizei a CBN para ouvir o professor Nelson Garcia dos Santos, pomposamente apresentado como mestre em Sociologia Política, analisar a alvorada deste novo ciclo de poder. Diante de tão lisonjeiras referências acadêmicas, levantei o volume e, com a inocência de um bebê, esperei a ciência luzir os governos Dilma e Colombo. Mas o que se seguiu foi um episódio de subordinação do livre pensamento a crenças ideológicas.

Num discurso em que o advérbio efetivamente aparecia a cada duas frases, Santos conseguia lançar visões contraditórias sobre um mesmo fato. Na questão dos cortes de gastos públicos, por exemplo, o professor louvou a determinação da presidente Dilma em controlar a “enceradeira desgovernada”, metáfora usada por ele para definir a sangria do dinheiro do contribuinte. Quando indagado sobre o governo Colombo, manifestou preocupação com... o controle de gastos anunciado pelo novo governador. Pôxa, mas vigiar a gastança é bom, ruim ou depende das simpatias partidárias do cientista?

Colombo também foi criticado pelo secretariado montado segundo interesses políticos, sem viés técnico. Talvez Santos não tenha visto, ou finge não ver, a nominata do ministério de Dilma, formulada para atender a chantagem de todos partidos aliados, sobretudo do PT.

Santos, apesar do título acadêmico, ainda acredita no maniqueísmo da política, como se esta fosse uma luta de mocinhos contra bandidos. Eu, a partir do empirismo vulgar, já percebi que há espaço para virtude e vilania em qualquer partido, razão pela qual acho desprovida de critério científico a aposta no fracasso de um governo simplesmente porque o comandante foi do PFL. Mas há um atenuante para Santos: os discursos de Colombo são tão vazios de conteúdo, que só um ficcionista se arriscaria a traçar cenários futuros.

Por fim, Santos defendeu a criação de conselhos para “democratizar” os conteúdos dos meios de comunicação. Ok, mas quem seriam os sábios a quem caberia filtrar a informação digna de chegar ao povo? Alguém que se reveste da autoridade científica para militar? Quem avalia o protagonista e não o fato em si?

Confio mais no botão da TV.

Nostalgia mesquinha

22 de dezembro de 2010 1

Numa tarde destas, atormentado pelo saudosismo das ombreiras que ornamentavam meu mullet inspirado no Paulo Ricardo, desfrutei de umas prolongadas sessões no YouTube. Mergulhei primeiramente no vídeo de Electricity, do OMD, coisa que 2,8 milhões de coroas já haviam feito antes de mim. Depois deleitei-me com What’s On Your Mind, exuberante performance do Information Society. Ali fui um pouco mais original: só 1,5 milhão de almas vindas ao mundo entre os anos 60 e 70 haviam recorrido a este passatempo.

Já tive surtos nostálgicos remunerados, no computador da firma, embora eu peça que isto fique entre nós. Mas desta vez estava em casa, o que, livre do olhar indiscreto dos colegas, permitiu-me alongar pelos comentários. E me surpreendi como a nostalgia, um sentimento alimentado por boas lembranças, pela falta daquilo que nos fez bem, pode se prestar à mesquinharia.

De cada 10 internautas sensibilizados a ponto de deixar um comentário nos vídeos do YouTube, 11 manifestavam algum tipo de despeito com os tempos atuais. Alguns pontos se repetiam nesta cegueira sentimental patrocinada pelo saudosismo. Vamos a eles:

1) Black Eyed Pies e Lady Gaga não prestam para nada, a não ser para reforçar a supremacia de estilo do Duran Duran.

2) A existência de fãs de Restart, Cine e Hori, roqueiros de shopping obedientes aos pais, só prova a ausência de aspirações da geração atual. Ainda que um batalhão de pensadores tenha tomado um mar de café atrás da rebeldia dos Anos 80, esforço até então sem resultados.

3) By My Side, do Inxs, é a música mais romântica jamais ouvida pela humanidade. Quem viveu o apogeu de outra canção romântica é um ser sentimentalmente incompleto.

Bem, devo confessar, forcei a barra como recurso de estilo para ressaltar o quão despropositada pode ser a saudade da juventude. Sinto que minha geração, a julgar pelos comentários no YouTube, está colocando a nostalgia a serviço de uma mesquinharia, que desperdiça aquilo que de mais precioso o tempo nos traz: a sabedoria.

Afinal, uma das raras vantagens de envelhecer é reconhecer que as coisas boas passam e se renovam. Mas continuam a existir, mesmo quando já não temos saúde e paciência para senti-las.