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Na Alemanha, não existe tempo feio: existe roupa inadequada

09 de abril de 2015 6
Pais "empacotam" os filhos e levam como podem nos dias de muita neve

Pais “empacotam” os filhos e levam como podem nos dias de muita neve

Eu quero aqui confessar um vício. Sou doente por previsão do tempo e tenho um prazer secreto em achar graça da sensação térmica alheia. É mais ou menos assim: quando minha mãe reclama de frio em Blumenau e eu olho discretamente na previsão do Puchalski: vejo 19 graus de friaca enquanto aqui estão 18 de calor e eu suando em pipas. Nessa hora, solto uma risadinha malvada no canto da boca.

Deve ser coisa na genética ou na água que a gente do Vale bebe: estou convencida de que a teoria da relatividade só poderia mesmo ter sido criada por um alemão. Isso porque tanto ai como aqui, as coisas são muito relativas mesmo. Claro que alemão adora um manual e segue tudo à risca, mas se tem uma coisa que varia muito é o significado de 15 graus Celsius. Vou explicar, mas faço desde já um convite para todo mundo ai ser um pouco mais alemão nesse sentido.

Por aqui, os dias cinzentos são maioria, ninguém reclama do calor e quando faz sol, vai todo mundo pra rua, não importa a temperatura. Os alemães têm até mesmo um ditado que eu adoro: Es gibt kein schlechtes Wetter, es gibt nur falsche Kleidung! Ou seja, não existe tempo ruim, existe roupa errada. Isso vale para todas as idades.

Uma das coisas mais divertidas por aqui é ver as crianças pequenas no inverno. Mal podem andar de tanta roupa: as mães colocam um tipo de macacão por cima de tudo e pronto. Soltam na rua, na chuva, na neve, no frio. Ninguém deixa de fazer qualquer coisa por conta de uma chuvinha à toa ou o termômetro marcando negativos.

Mas volto para a polêmica dos 15 graus. Comecinho de abril é quando a temperatura chega a essa marca pela primeira vez do ano. E nem precisa olhar pro termômetro para conferir. Basta sentir no ar o cheiro dos primeiros churrascos (churrasco alemão, claro, mas isso é assunto para outro dia!). Pelas ruas, todo mundo de mangas curtas, meninas de pernas de fora, gente correndo de bermuda e, em cada centímetro de gramado, um alemão mais branco que a lua estirado ao sol.

Ah, o calor. É época de andar de bicicleta, de sair caminhando por ai pelo simples prazer de estar na rua. É a temporada de jogar bocha com os amigos em qualquer espaço, jogar vôlei no parque, colocar o pé na agua no primeiro laguinho que aparecer. É época em que o desodorante faz muita falta do lado de cá do mundo e onde a natureza apresenta seus odores com liberdade e força. Na Alemanha também faz calor

Mas o tempo por aqui também voa. Os 15 graus logo viram 18, 20 e fervilhantes 25 na altíssima temporada. Durante dois ou três dias as temperaturas podem chegar – e passar! – dos 30 e quando isso acontece, as escolas de vários estados suspendem as aulas por conta da onda de calor. As salas de aula têm poucas janelas que podem ser abertas e nenhuma vai ter ventilador ou ar condicionado.

Ar condicionado, aliás, é uma tecnologia que não faz muito sucesso na Alemanha. Mesmo nos prédios de escritórios, não é sempre que se vê. Já trabalhei em um prédio que era um caixote de vidro de seis metros de altura, onde a única janela que abria era uma basculante de 25 centímetros a dois metros. E claro, sem ar condicionado.

Juro que, no auge da minha fúria provocada pela sensação de estar em um forno, cheguei a pensar que, culturalmente, pode ser um privilégio sentir calor. Mas sou de Blumenau e aprendi que calor se combate com muito, muito ar condicionado. No entanto, esse desconforto dura uma, duas semanas por ano talvez: acontece na época em que quase todo mundo está de férias e não justificaria o investimento em refrigeradores de ar.

Mas verão alemão dura pouco e a teoria da relatividade emplaca outra vez: quando voltam os 15 graus, lá por setembro… que friaca! Nessa hora sou como a minha mãe, denunciada pela previsão do Puchalski. Mas, outra vez, quem precisa de termômetro na Alemanha?!??! É só sentir no ar o cheiro de guarda-roupa e de casacos que passaram a temporada inteira sem um arzinho, esperando pelos próximos oito meses de frio.

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comentários

Comentários (6)

  • Denise C. Schmidt diz: 9 de abril de 2015

    “Mas volto para a polêmica dos 15 graus. Comecinho de abril é quando a temperatura chega próximo a essa marca pela primeira vez do ano. E nem precisa olhar pro termômetro para conferir. Basta sentir no ar o cheiro do chocolate quente. Pelas ruas, todo mundo de mangas compridas, meninos de casaco de moletom, gente correndo de touca e, em cada centímetro de sol, um blumenauense. Ah, o frio. É época de tomar chocolate quente, de ficar enfurnado em casa debaixo do cobertor. É a temporada de fazer fondue em casa com os amigos, usar o Netflix como se não houvesse amanhã, colocar o pé em qualquer remanescente de orvalho dizendo que é geada. É época em que continuamos cheirosos como no resto do ano, pq somos limpinhos.”

    Desculpe a brincadeira… É muito relativo mesmo. Semana passada a temperatura baixou dos 20 graus e o povo já começou a se comportar como se fosse inverno. E como se aqui tivesse inverno… kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Me diverti horrores uma vez em Hamburg, quando depois de duas semanas de chuva um domingo amanheceu com sol e TODAS as famílias com crianças e cachorros foram pra Elbestrand. Foi um dos dias mais legais que já vivi. Praia com gelo! E o povo se divertindo horrores!!!

  • Julio Schmitt diz: 9 de abril de 2015

    Só tem uma coisinha: na Alemanha, quando faz frio, o pessoal geralmente tem a escolha por quanto tempo quer se expor ao frio. Pois quando basta, volta à sua casa ou seu apartamento com agradáveis pelos 20 graus. Claro que nem faz tanto tempo que é assim. Mas torna o frio bem “relativo” pois “míseros” 15 graus, mas ao longo de 24h, pode ser beeemm desagradável – mais ainda para tomar banho.

  • Carla diz: 10 de abril de 2015

    Que delícia!!! O alemão realmente valoriza e aprecia um dia de sol… é uma alegria ainda maior quando se tem crianças por perto, que ficam doidas para sair e brincar fora… entretanto, elas continuam fofíssimas no inverno, vestidas que nem esquimós, andando de trenó, fazendo bonecos de neve…

    Lembro que lá, com 13 graus eu botava t-shirt e ia andar de bicicleta.. aqui, porém, com 13 graus a vontade é de ficar debaixo da coberta o dia todo! rs

    Acho que essa é uma das fantásticas características da Alemanha, as quatro estações bem demarcadas e igualmente belas!

  • Isabel diz: 13 de abril de 2015

    Bingo! Por estas e outras que de típica alemã Blumenau não tem quase nada. Em Blumenau, é só uma nuvem esconder o sol que lá vem as moças e os moços do tempo informar de cara feia que não vai dar praia. E as pessoas só para ter o que falar já vão resmungando: ¨Que calor!¨ ou ¨Que frio!¨. Se uso uma roupa sem manga no inverno sempre tem alguém perguntando se não estou com frio. Ar condicionado: por mim não precisaria existir se for só para refrescar ou aquecer ambientes. Tenho uma vantagem que adoro: meu organismo se adapta à temperatura ambiente e não sofro por causa das mudanças das estações por causa de frio ou de calor. É só usar as roupas adequadas mesmo. Curto as mudanças nas estações e costumo ficar de bem com São Pedro. Mais uma vez, parabéns pelo Blog. Didático e vai botar muita alemon de Blumenau pra repensar.

  • Marcos diz: 13 de abril de 2015

    Será que o verão da Alemanha, ao menos na parte sul, não é um tantinho mais quente? Morei 1 ano em Viena, passei as quatro estações lá e o verão deles variava entre morno/quente a sufocante/escaldante: batia fácil 35 graus ou mais em vários dias e em Budapeste, logo ali perto, vez ou outra chegava a 40. A falta que fazia um ar condicionado por lá era grande. É basicamente o mesmo clima do sul da Alemanha, excetuando-se as partes montanhosas, obviamente bem mais frias. Também curto monitorar as previsões do tempo e sempre me espanto com o mau humor blumenauense, tanto faz o clima, em contraste com a disposição de aproveitar tudo ao máximo dos europeus, mas acho que é cultural e folclórico do povo daqui reclamar de tudo o tempo todo. Adoro o blog!

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