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Churrasco na Alemanha não é nada daquilo que se imagina no Brasil

11 de abril de 2015 15
Salsichas variadas e até coração de frango fazem parte do cardápio

Salsichas variadas, mas achei coração de frango pra deixar o sabor mais brasileiro.  Muitos alemães têm nojo dessa nossa “iguaria”

Sabe aquele velho dito de que a primeira vez a gente nunca esquece? Pois é. São muitas as primeiras vezes na vida e o causo aqui não tem nada a ver com amor. Vamos falar de comida. De churrasco, propriamente, já que é fim de semana e o tema me parece inspirador. La vai então.

Era maio de 2009, em um daqueles anos que o inverno parece não querer terminar, e a minha primeira primavera na Alemanha ainda escondia seus espirros por trás de manhãs geladas. Mas naquele dia o sol rompeu as nuvens e os 18 graus no termômetro não deixaram dúvidas: era hora de fazer um churrasco no quintal.

Meu marido, que já havia morado no país antes, era um expert em fogaréu. Mané de Floripa, fez muito churrasco pra mim no Campeche e eu estava ansiosa pela reestreia dele como churrasqueiro no Velho Mundo. Ele arregimentou um amigo alemão e foram para o mercado providenciar todo o material: carne, churrasqueira, carvão, pão com alho. Ao menos era isso que eu imaginava.

Eu fiquei em casa fazendo uns espetinhos e uma maionese, como a gente chama ai no Vale, que na verdade é uma típica Kartofelnsalat, um dos pratos mais populares aqui na Alemanha. Pois eu já estava com tudo pronto – pratos, talheres e afins – quando meu marido entra pela porta esbaforido dizendo pra eu andar logo que o fogo já estava aceso.

Só entendi o porquê da pressa quando vi o churrasco montado em um canto do jardim. Minha cara, nessa hora, foi de um desapontamento tão grande que me esforcei ao máximo pra não chorar. Tudo o que havia aprendido a vida toda sobre churrasco foi-se embora naquele minuto e minha cara deve ter sido tão feia que os dois churrasqueiros da hora desataram a rir.

O riso deles embalava meu sofrimento ao ver uma bandeja de alumínio com salsichas, uns espetinhos e uns pedacinhos de frango. Aprendi que se tratava de uma churrasqueira descartável e que, com sorte, poderíamos assar até duas rodadas de salsicha. Só me consolei com o cheiro de assado que, me perdoem os vegetarianos, cura qualquer mal. Confesso que, passado o desapontamento inicial, não foi ruim e hoje já me consolei de que churrasco por aqui nunca vai ser muito diferente disso.

Esta é a foto do primeiro (e decepcionante!) churrasco na Alemanha

Esta é a foto do primeiro (e decepcionante!) churrasco na Alemanha

Mas meu desapontamento deixou marcas e acho que foi o primeiro choque cultural doloroso da minha estada em terras germânicas. Com o passar das semanas, tratamos de melhorar a situação. Remediar, ao menos. Compramos uma churrasqueira de pés – não muito maior que uma frigideira grande! -, umas cadeiras de jardim, uns espetinhos de metal e nos conformamos em comer picanha só no Brasil (ou na frigideira!). Aprendi também que churrasco por aqui – especialmente entre os estudantes – tem regras bem diferentes, especialmente quando é em um parque ou jardim.

A coisa toda é muito simples e não pesa no bolso de ninguém: cada um leva o que vai comer e se responsabiliza por assar o que levou. Alguns levam coisas para dividir, cada um leva a sua bebida e ninguém é o churrasqueiro oficial. No começo, eu preparava um montão de coisas e achava que, se tinha convidado, tinha que fazer tudo para todo mundo. Hoje já aprendi que a vida aqui é muito, muito mais descomplicada e que para ter amigos por perto não preciso passar um trabalhão. O que no começo soava esquisito, hoje cai como uma luva nesse estilo de vida com menos frescura, mais natureza, muito mais piquenique e nenhuma picanha.

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comentários

Comentários (15)

  • Viliam Oto Boehme diz: 11 de abril de 2015

    Muito bem. Respeitemos os hábitos de cada um. No entanto, se eu convidar uma galera pra vir passar algumas horas, com “churrasco” e algumas bebidas, cabe a mim procurar atendê-los da melhor forma. Detalhe: combinar antes que será da forma de “rachide”, com prestação de contas ao vivo.

  • Leomar diz: 12 de abril de 2015

    NÃO concordo, há opções de cortes de carne na Alemanha que substituem os convencionais brasileiros. Pelo visto seu marido não entende muito de churrasco, qualquer grande supermercado tem TODAS as opções para um churrasco de boa qualidade.

  • Carla stern diz: 12 de abril de 2015

    Achei sensacional a matéria, pois meu namorado mora ai e qdo nos encontramos ai em Minhas férias, é desse jeito mesmo que ocorre o “nosso churrasco” só acrescentando que as vezes temos um pequeno peixe tb. Abs!

  • cris diz: 12 de abril de 2015

    Nossa, imagino que minha amiga Rita Cristina maya sofre por ai, ela já mora na Alemanha a uns 15 anos, quando ele vir ao Brasil vou convida- lá para um verdadeiro churrasco brasileiro. Quanto a forma de cada um leva o que consome, pra mim não tem novidade pois morei no interior de sp em sjrp e por lá já fazemos isso a muito tempo, é o famoso churrasco comunitário, alguem sede a casa e todo mundo colabora, não pesa.pra ninguém e vai pra churrasqueira quem gosta , mas todos colaboram inclusive com a limpeza pós churrasco.gostei da materia.

  • Hans Nicolai diz: 12 de abril de 2015

    Com tanta coisa boa, barata e saudável, na Alemanha ng precisa disso.
    Picnic nos parques, sem fogo e fumaça é muito mais tudo.
    De Munique… Englischer Garten.

  • Lotar Kaestner diz: 12 de abril de 2015

    Eu trabalho com turistas alemães aqui em Curitiba. Quando eles vêm, querem comer o que os brasileiros comem, experimentar suas comidas típicas. Mas deve ser um sofrimento para quem se aferra muito às suas tradições. Em Londres muitos brasileiros vivem em guetos porque não conseguem se integrar na sociedade local…mas é boa chance para quem quer matar a saudade da feijoada…porque lá vai encontrar com certeza.Agora, as churrascarias aqui no Brasil….de 10 se tira 2 que servem a carne bem assada, sem ser seca, ou dura, ou muito crua….ou muito salgada! Não tem outros temperos…Em vez de quantidade, tem que ter mais qualidade. Mas os churrasqueiros das churrascarias são pessoas que ganham pouco, suam muito e fazem a tarefa pressionados pelo tempo…fazem por fazer. É um modo primitivo de fazer comida, sem chefs. Se come correndo, se serve 10 tipos de carne ao mesmo tempo. Todas esfriam e o turista fica desesperado…porque jantar/almoçar é uma cerimônia para se degustar e também conversar. Mas as churrascarias são uma gritaria e correria. Tem que ter mais profissionalismo e pagar melhor os garçons. Matar tantos bois para comer tanto…Aquelas placas verde/vermelho são colocadas….vermelho se quer uma pausa…mas não funcionam….enfim…Bom apetite para todos.

  • Alexandre Schmidt diz: 13 de abril de 2015

    Esse desapontamento foi exatamente a mesma reacao que tive quando fizemos nosso primeiro churrasco em Berlim. Claro que a cereja do bolo foi a cerveja quente, direto da prateleira do supermercado (que raramente é refrigerada na Alemanha). Aqui em Londres é bastante parecido com isso, mas com uma diferenca: SEMPRE tem hambúrgueres! Eu gosto, nao me importo. Gosto do estilo brasileiro e do Europeu. Bem como voce falou, aqui a coisa é mais descomplicada e é mais um evento social que gastronomico.

    Lotar: exato, de 20% das churrascarias sao boas. Assim como 20% das pizzarias ou qualquer outro tipo de restaurante no nosso país! Tenho alguns amigos europeus bem carnívoros e pra eles, toda a experiencia do rodízio é algo sensacional, que aqui mesmo só existe em locais brasileiros. Eu nao sou o maior fã, prefiro um bom filé na tábua a um espeto corrido, mas acho que a experiencia do rodizio é válida como qualquer outra maneira de se preparar carnes.

  • Jorge Zeplin diz: 13 de abril de 2015

    Me desculpa mas morei 5 anos ai e se vc for numa Metzgerei (açougue) e pedir pro açogueiro separar algumas peças “zum Grill” vc vai ter. Em Munique (Pasing, Donnersbergerbrücke) peguei muitas peças como entrecote, maminha, contra-filé e também normalmente nos grandes mercados como Aldi, Edeka, Sky Coop se vc for na área de carnes sempre tem o setor de carnes argentinas embaladas a vácuo como no Brasil. É claro que pra quem não sabe, a carne vermelha aí é muito mais cara que uma carne suína. Me desculpa mas vc somente mostrou o lado ruim de um churrasco germânico, por acaso vc comentou dos diferentes tipos de salsichas e a particularidade de cada uma (Bratswurst, Bock, Viena), ou do que é realmente um grill no jardim?? Eu até estava empolgado com suas primeiras postagens mas me decepcionou com essa e se vc não tem condições de fazer um grill em uma churrasqueira a gás, vá então na Churrascaria Villa Rodizio, na Milastr. 2 em Berlin, (Prenzlauer Berg) +49 30 44046900.
    En gueta!!

  • Isabel diz: 13 de abril de 2015

    Duas coisas boas da crise: as pessoas comem menos carne e os hospitais ficam com mais leitos livres. Semana passada pude constatar pessoalmente em visita a um hospital do interior com mais ou menos 20 leitos, mais da metade estavam vagos. É a crise…E aí na Alemanha os hospitais também tem crises por falta de pacientes? Vida longa ao Blog. Parabéns! Adorei!

  • Jonas Krueger diz: 13 de abril de 2015

    Ivana,

    To contigo e não abro. Já morei um ano na Alemanha e meu primeiro domingo de churrasco com minha gast Famillie foi exatamente assim.

    Tinha uns 3 tipos de linguiça como o Jorge falou, porém eu queria mesmo é carne vermelha *-* Tinha lá um pedaço e outro, porém não era uma fartura, era algo meio que contato pra cada um.

    Como morei com uma família típica alemã e esse foi o churrasco que eles prepararam sem nenhuma influência de alguém que já morava no Brasil, creio que esse seja realmente o churrasco TÍPICO alemã, não duvido que hajam algumas diversificações, porém na casa que fiquei e nas casas dos amigos, opas e omas da família, era sempre assim.

    Claro que esse churrasco não desmerece a maravilha que é a Alemanha e tudo o que foi construído por lá. É um exemplo de país, cultura e etc…

    Um Abraço e viele Grüsse!

  • Carla diz: 13 de abril de 2015

    Cada país com suas tradições e particularidades, não é? Da mesma forma que o churrasco é diferente aqui, nos EUA, na Alemanha etc… são outros pratos também! E é aí que está a graça de viajar e conhecer!!!

  • Pessoa Comum diz: 13 de abril de 2015

    Não querendo estragar a festa, mas esse churrasco aí da foto tá bem parecido com o bife na grelha que os catarinenses dos Vales de SC, da capital e os da fronteira gaúcha pelo sul costumam chamar de churrasco. Churrasco mesmo é o estilo gaúcho ou da região da Serra e dos Oestes do estado. Churrasco que merece ser chamado de churrasco leva no mínimo dois quilos de carne no espeto. Duvido que o churrasco que os manezinhos da Ilha preparam é melhor que esse aí da Alemanha. Sorriem.

  • Rocha diz: 13 de abril de 2015

    É só me dar a grana da passagem, estadia e compra dos ingredientes, da carne e da cerveja que eu façoum belo assado com picanha e outras carnes menos nobres!!!!!!

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