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Não adianta só copiar roupas de época: chegou a hora de se inspirar na Alemanha moderna e implantar soluções eficazes de transporte

17 de abril de 2015 7
Na Alexanderplatz em Berlim, pedestres, bicicletas e bondes dividem espaço em harmonia

Na Alexanderplatz em Berlim, pedestres, bicicletas e bondes dividem espaço em harmonia

Nós, blumenauenses, somos mais alemães que os alemães em muitas coisas. Fazemos um esforço hercúleo em preservar uma tradição cada vez mais distante no tempo e que tem muito mais valor aí do que parece ter aqui na Alemanha. Nos inspiramos no país dos nossos colonizadores para muitas coisas, mas sempre miramos no passado. A Alemanha de hoje é outra, moderna, prática e com soluções simples que deveríamos copiar em vários aspectos. Na minha última passagem por Blumenau, no ano passado, fiz uma listinha de coisas que custam pouco ou quase nada e que funcionam perfeitamente por aqui desde o século passado. Blumenau e o Vale poderiam copiar muito mais do que danças ou roupas de época.

Estou há sete anos na Alemanha e por aqui nunca tive carro (nem carteira de motorista) e vivo feliz e satisfeita em relação ao transporte. Os alemães estão cada vez menos interessados por carros também: ter um automóvel já não faz parte dos principais objetos de desejo dos jovens. Em Berlim, onde se acha um carro compartilhado em cada esquina, ser dono de um é algo cada vez mais dispensável, mas vou falar do assunto em outro dia.

Quando estive em Blumenau na última vez, usei o transporte público em várias ocasiões. Assim, me dou a o direito não de comparar, mas de observar alguns pontos simples que poderiam fazer o transporte de Blumenau (e de outras cidades do Brasil) muito melhor. Não estou falando de investimentos faraônicos: só de um pouco de organização.

Nas tantas comitivas governamentais que viajam o mundo em busca de investimentos, não posso entender porque nenhuma delas busca exemplos práticos para vida do cidadão. Prospectar negócios é importante, mas melhorar a vida de quem vive na cidade é ainda mais.

Se eu que não tenho qualquer formação de trânsito vejo com clareza o que pode ser melhor, quero crer que falta incluir nessas viagens menos políticos e mais gente apta a abrir os olhos para o novo. Por isso, leitor, não esqueça, sou jornalista e o que falo aqui vem da observação e da minha experiência como usuária do transporte coletivo de Blumenau e da Alemanha.  Vamos à lista:

  • Nome: Todas as paradas de ônibus têm que ter um nome, simples assim. Dessa forma, os transportes deveriam ser mapeados como o metrô (as cidades alemãs fazem isso e uso o mapa de Brauwnschweig – cidade onde morreu o Dr. Blumenau, fundador da cidade, para ilustrar). Assim, quem quer ir para um destino que não seja o de sempre, não perde tempo com um monte de perguntas para saber que ônibus passa e como se pode ir de A a B.
Uma vez que os pontos tenham nomes, é possível fazer um mapa das rotas

Uma vez que os pontos tenham nomes, é possível fazer um mapa das rotas

  • Mapa: Dar nome aos pontos de ônibus permite que sejam incluídos em um mapa digital e, com isso, quem não sabe o nome do lugar que quer descer poderia simplesmente colocar o endereço de partida e o de chegada em um site e receber a rota de ônibus que deve seguir para chegar lá. Esse exemplo da imagem é do site de transportes de Berlin. Simulei a pesquisa a partir de dois endereços: do Parlamento Alemão (Platz der Republik 1) até a Universidade Técnica de Berlin (Straße des 17. Juni 135). O site verificou qual a parada de transportes públicos mais perto das minhas opções e indicou o caminho (incluindo mapas do trajeto a ser percorrido a pé desde a minha localização até o local onde desejo ir). Em tempos de smartphones não me parece nada complicado.
O site - ou uma aplicação pra celular - aponta qual a melhor opção de transportes entre dois endereços

O site – ou uma aplicação pra celular – aponta qual a melhor opção de transportes entre dois endereços

  •  Informação: Os pontos de ônibus têm que ter informações básicas: que linhas passam por eles, o mapa do transporte, uma tabela com o horário que o ônibus deve passar em cada lugar. O quadro mostra uma linha de Bremen: nela consta o horário em que o Bonde 8 (mas é a mesma coisa para os ônibus), vai passar pela parada que se chama Duckwitzstraβe, de segunda a sexta, no sábado e nos domingos e feriados. Em baixo, está a descrição da linha. A parte anterior mostra de onde o trem veio. Em vermelho, a parada onde se está. Depois, as paradas seguintes, com a previsão de quantos minutos se vai levar para chegar até elas e, claro, em que direção o veículo está seguindo: assim ninguém pega o trem ou ônibus para o lado errado.
Todas as informações sobre determinada linha precisam estar disponíveis no ponto de ônibus

Todas as informações sobre determinada linha precisam estar disponíveis no ponto de ônibus

  •  Velocidade: A medida acima acabaria com a sensação de que todos os ônibus estão participando de um rali. Fiquei assustada com a velocidade excessiva em lugares sabidamente perigosos, como a curva do Cemitério no Progresso, por exemplo. Definir o horário previsto para cada ponto de ônibus evita que o motorista meta o pé na tábua para chegar antes. Claro que atrasos acontecem, mas a correria é muito mais perigosa. Assim, caso não tivesse que parar em um ponto, o motorista teria que controlar a velocidade para não passar adiantado no seguinte. Pode parecer chato no começo, mas isso assegura que ninguém vai ver a placa traseira do ônibus saindo do ponto porque ele partiu antes da hora. No fim das contas, confere mais confiabilidade ao sistema. Eu só posso crer que em Blumenau não seja assim porque quem cuida do transporte não conhece essas alternativas: não existe outra justificativa.
  •  Corredores: Alguns corredores de ônibus já funcionam na cidade e acho que devem ser ampliados. Isso evita o que falei no item anterior. Sem congestionamentos, os ônibus podem cumprir seus horários e com isso não precisam correr. Além do mais, quem está comodamente sentado sozinho no conforto do ar condicionado do seu carro pode ir com mais calma. Um veículo com dezenas de pessoas tem que ter prioridade ante aos que carregam um indivíduo só. É a matemática do bom senso. E isso certamente atrairia novos usuários para o transporte coletivo:  se o ônibus chega antes, custa menos, não precisa estacionar e polui menos do que dezenas de automóveis juntos, por que ir de carro? Todo mundo sai ganhando.
  •  Estacionamentos: Quem deixa o carro estacionado fora da cidade e segue de ônibus pode receber desconto, combinando o ticket do estacionamento com o transporte coletivo. Assim, é possível ir de carro até um terminal no bairro, estacionar e seguir o resto da viagem em direção as áreas mais centrais de ônibus. O mesmo vale para bicicletas: um local coberto e seguro onde possam ser deixadas. Funciona que é uma beleza aqui na Alemanha. Eu mesma fazia isso: deixava a bicicleta trancada no ponto e, quando voltava a noite, depois do trabalho, não precisava caminhar sozinha por ruas não muito iluminadas (embora por aqui isso não represente um risco…). Mas também é preciso reservar espaço nos ônibus (não tão altos, como falo em seguida!) para bicicletas,  carrinhos de bebê e cadeiras de rodas.
  •  Ônibus mais baixos: É preciso investir sempre em mais qualidade nos veículos. Não se pode aceitar como renovação da frota carros que tenham saído de circulação de outras cidades. Os contratos devem ser mais claros nesse aspecto. Mas minha dúvida é uma só: por que os ônibus são tão altos??  Modelos mais baixos e que se reclinem para facilitar o embarque de pessoas idosas seriam absolutamente convenientes. Não entendo porque os ônibus brasileiros têm essa altura de monster car. Com modelos mais baixos, as rampas para acesso a cadeirantes não precisam ser mecanismos hidráulicos complexos. Só uma rampa que pode ser aberta manualmente (uma prancha de madeira) e colocada até a parada resolve. Aqui na Alemanha é assim: alguns ônibus mais modernos têm rampas automáticas, acionadas com um botão pelo motorista. Mas todos os outros têm essas rampas simples, que tornam o transporte acessível. Todos! Não tem essa de um horário determinado em que um cadeirante pode pegar ônibus. Pessoas com necessidades especiais têm os mesmos direitos de receber os serviços e precisam ser incluídas e respeitadas.
  •  Saúde: Já passou da hora da proibição de fumar nos terminais, exceto em pequenas áreas específicas, marcadas no chão e com lixeiras para as infinitas bitucas que fazem o mundo mais feio. Porque mesmo em espaços abertos, os não-fumantes devem ser protegidos. E ninguém merece aqueles que dão uma última tragada já com o pé na porta e depois despejam a fumaça imunda já dentro do transporte.
  • Bonde elétrico:  Em uma visão mais sonhadora, sempre me pego pensando na rua XV de Novembro de Blumenau – e tantas outras ruas de comércio importantes do Brasil – como um calçadão, talvez com o espaço compartilhado por bondes elétricos. Sei que não sou a única a sonhar com isso e que estudos deixam claro que essa é uma opção viável. Mas sem vontade política, sei que isso está longe ainda. Em Berlim, esse tipo de transporte existe há 150 anos e em Blumenau a gente pensa nele como sendo uma tecnologia do futuro.
  • Espaço para as pessoas: O que o blumenauense precisa entender é que vale a pena pensar na cidade como os países desenvolvidos pensam e que a cultura do carro é arcaica e burra. Já andei por muito mais países do que tenho dedos para contar e em nenhum deles vi uma rua deixar de ser frequentada porque os carros deixaram de circular nela. Ao contrário: são os espaços mais movimentados da cidade e a Alexanderplatz de Berlim, da foto lá em cima, é um exemplo claro disso. O que muita gente pensa hoje – que os clientes não irão mais as suas lojas se não puderem parar com o carro na porta – é a mais pura mentira: os holandeses que o digam, veja o vídeo e descubra o porquê.

O vídeo está em inglês, mas tem legendas. Caso a legenda não apareça automaticamente em português, basta clicar na figura da engrenagem e selecionar o idioma da legenda.

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comentários

Comentários (7)

  • Daniella Roste diz: 17 de abril de 2015

    Parabéns pelo texto, Ivana. Não resisti e o compartilhei. Blumenau hoje está na contramão do mundo no que diz respeito a transformar a cidade para as pessoas. Veja você que a Rua das Missões terá a velocidade aumentada de 60 para 70km/h. Uma rua que, em alguns pontos não tem calçada e em toda extensão não há ciclovia. Mas há pedestres e ciclistas que circulam diretamente por lá. Hoje ainda foi publicado no Blog do Pancho que o Samae fará a ampliação do abastecimento de água para o Bairro Ponta Aguda, aumentando assim o diâmetro da tubulação e ‘comendo’ um pedaço da calçada da Ponte de Ferro. E o Pedestre? E o ciclista? Como pode ver, precisamos nos reinventar.

  • Angela diz: 17 de abril de 2015

    Oi Ivana,adorei essa matéria.Também sou de Blumenau e moro na Alemanha a 20 anos.Também não temos carro .Meu marido, meus filhos e eu fazemos quase tudo de Bike.É claro que algumas vezes o carro é necessário.Se tiver por exemplol que comprar algo muito grande, difícil de transportar, ou fazer um passeio com a família no fim de semana, para um lugar onde transporte coletivo, seja, por algum motivo, inviável. Para estes casos usamos aqui em Munique um sistema que se chama “statt Auto” ou seja carros comunitários,espalhados por vários pontos da cidade que podem ser alugados pelas pessoas que fazem parte dessa espécie de clube.Você paga uma taxa mensal
    mínima (atualmente €10) mais num valor x pelo km.rodado. Ou seja quem anda mais, paga também mais. São vários modelos de carros a disposição.Tem de corsa à Caminhão ,pois o objetivo é satisfazer as necessidades dos usuários que é transportar coisas ou pessoas de um lugar para outro de maneira segura e econômica. Os carros podem ser reservados com antecedência pela Internet ou seja um mínimo de planejamento é necessário, porém existe quase sempre, carros a disposição mesmo para os “atrasadinhos” que decidem fazer um passeio de última hora.Talvez o carro que costuma ficar estacionado na esquina da sua casa,não esteja mais à disposição,mas um outro qualquer provavelmente estará. Como se sabe se ainda há algum carro disponível?Simples.É só olhar na Internet a lista com todas os estacionamentos e ver onde ainda há um carro livre. Deu sorte?É só reservar ( muito simples,basta um clique e o carro e seu por algumas horas ou dias).Como pegar as chaves? Mais simples ainda: Direto no lugar dos estacionamento há um cofre, onde as Chaves ficam penduradas.Em cada chave um chaveiro,com o número da placa do carro que voc reservou que é pra ninguém errar de carro.Para abrir o cofre, se usa um código, que se recebe quando se entrã de sócio no clube.Caso haja problemas é só ligar na Hotline, que um novo número será fornecido.
    Como devolver o carro? Dentro de todo veículo, há um bloco de anotações onde o usuário deve anotar a placa do veículo e a quilometragem rodada.Ao estacionar o carro de volta na estação onde o apanhou,e só depor as chaves de volta no cofre e colocar a página onde foi anotada a quilometragem rodada na caixa de correspondência que se localiza ao lado do mesmo. A central do “statt Auto” coleta periódicamente as comandas,faz o cálculo do valor a ser pago,com base no tamanho do carro, horas de aluguel e quilômetros rodados e a conta vem dias mais tardes pelo correio. Será que essa idéia não seria também viável um Blumenau?

  • Luciano de BLUMENAU diz: 17 de abril de 2015

    Oi Ivana.
    Ganz gut ?

    Quando estive por ae em 2014. Esse sistema de itinerários e paradas nomeadas, me ajudou 100%. Não tive problemas quando estive em Hamburg e Munchen. Este mesmo sistema sugeri ao vereador Beto Tribess para discutir a implantação aqui em Blumenau com as linhas de ônibus. Até então implantaram um aplicativo para celular chamado AZBUS. Onde mostra todos os horários de cada linha. O bom deste aplicativo é que também fornece somente as ruas que a linha percorre.

    Acho que também deveria mostrar o itinerário através do mapa da cidade. Onde deverá mostrar os pontos de parada. E cada ponto ter um nome (ou numeração) para que assim facilite na localização para o usuário poder descer sem problemas de errar o local de desembarque (mesmo sistema apresentado nesta matéria).

    Porém isso também envolve padronização de algumas coisas. Por exemplo os pontos de ônibus, pois tem alguns onde você não sabe se é uma cabana ou algo parecido, sem falar em muitos pontos destruídos. Acho que também deveriam buscar parceria com empresas. Pois as mesmas também poderiam ser usadas como pontos de referência no mapa da cidade, o que facilita também a localização. Como podem ver idéias não faltam, o problema é nosso governo que não se coça. Não adianta a gente querer manter somente a tradição dos costumes, se a vontade de fazer bem feito está deixando a desejar.

  • freddy diz: 17 de abril de 2015

    Oi Alemoa! Me mudei de Blumenau para Filderstadt (perto de Stuttgart) e estou acompanhando teu blog, muito legal. Só uma coisinha eu queria comentar e talvez você nao saiba. Faz uns 3 meses entrou no Brasil uma lei federal que proíbe fumar em qualquer lugar público coberto (embaixo de marquises, restaurantes, tudo que é coberto é proibido). Não há exceção e fumódromos são proibidos (um pouco de exagero). Me diz como te viras com o teclado de layout alemão? É muito ruim pra programar! No mais, abraço! Und schönes wochenende!

  • Regina Hostin diz: 17 de abril de 2015

    Ivana, tudo bem? Concordo com tudo que você falou. Quando estive na Suíça em 1998, imaginava aqueles bondes circulando por aqui. Depois de estar na Índia também, penso que o trânsito de Bnu mais se compara com o do indiano – sem vacas, of course – do que com o do Europeu. E fico indignada com tt viagens dos políticos ao exterior porque me parece que a bagagem sempre volta vazia de ideias. Não defendo nenhum partido, nem político, mas gostava da figura do Jaime Lerner e do que ele copiava de bom de fora para Curitiba. Somos nós que temos que criar a cidade que queremos. Não dá mais para esperar. Beijos no coração, luz e paz!

  • Raul diz: 18 de abril de 2015

    Olá Ivana, muito bom estes seus comentários, o problema é que esse pessoal do poder público daqui, incluindo todos os partidos, não conseguem enxergar o básico, o minimo que uma administração deveria fazer para beneficiar o cidadão. Não conseguem colocar uma faixa quadriculada amarela nos cruzamentos, uma placa dizendo”não feche o cruzamento”, não conseguem pintar uma faixa separando as pistas, coisas baratas de se fazer e que ajudaria um monte a melhorar o fluxo do trânsito. Mas para isso teriam que tirar a bunda da cadeira e ir verificar onde estão os gargalos do nosso trânsito, não é só isso, tem mais um monte de pequenas coisas que poderiam ser feitas, mas nossos incompetentes administradores públicos não querem enxergar, infelizmente.

  • Antonio diz: 22 de abril de 2015

    Pois bem Ivana, faz um ano que moro em Blumena e sou um pedestre feliz…porque meu trabalho fica a 5 min de distância….concordo plenamente com o seu artigo, congestionamentos mil, parece mais BOMBAIM que Bremen …;) A rua São Paul0parada todas as manhãs.

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