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Todo o neonazista é ignorante e quem se orgulha de ser alemão por isso precisa rever seus conceitos  

04 de maio de 2015 4
O trabalho liberta, diz a frase na entrada do campo de concentração de Auschewitz, na Polônia

O trabalho liberta, diz a frase na entrada do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia

Nazismo é um assunto tabu na Alemanha e basta mencionar o tema para acabar com qualquer clima de festa. Os alemães sentem uma profunda vergonha do seu passado nacional socialista e qualquer piadinha sobre o tema não é piada: é ofensa. Achei que isso nem precisava ser dito, mas ouvi tantos relatos de alemães que foram ao Brasil e foram “afetivamente” recebidos ao som de “Heil, Hitler” que achei melhor escrever letra por letra.

Esse post é para deixar claro a todos os “alemães” do Vale do Itajaí (e de outros rincões colonizados no Brasil e no mundo) o quão ridículo é achar que ser alemão é ser nazista. E pior: achar que isso é uma coisa bacana. E, de novo, não vou poupar palavras: quem pensa assim é ignorante e mal informado. Mais ainda: quem sai aos quatro ventos propagando um revisionismo que nega o holocausto deveria ser preso.  O que aconteceu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial foi muito sério e muito grave e as marcas estão em cada um que aqui vive e logo são percebidas por quem adota o país como lar.

Não venham me dizer que Hitler pode ser admirado por qualquer motivo. Não, não pode. Não argumentem que o holocausto é um exagero: não, não é. Se alguém pensa assim, vá a Varsóvia, a capital polonesa, dizimada pelo III Reich. Aproveite a viagem e vá a Auschwitz, ou vá a Sachsenhausen, na região metropolitana da capital alemã. Vá conhecer Buchenwald, em Weimar. Todos campos de concentração onde morreram milhões de pessoas.  Venha a Berlim e visite o memorial dos judeus mortos na Europa, o museu que se chama Topografia do Terror. Ou caminhe pelas ruas da Alemanha e se depare a cada dez passos com as pedras douradas em frente as casas de onde os judeus foram arrancados, deportados e assassinados. Se não puder fazer nada disso, leia um livro de história, ao menos. Eu já fiz tudo isso e sei do que estou falando.

pedras_marcam_onde_viviam_judeus_na_Alemanha

Stolpersteine, ou a pedra de tropeço, para marcar as casas onde os judeus viviam antes do holocausto

 

Um país cheio de cicatrizes

Em Berlim as cicatrizes estão por toda a parte. Por aqui, as lembranças dos anos em que o terceiro Reich comandou a Alemanha são evidentes até mesmo na arquitetura característica dos anos 30, ainda presente pelas ruas importantes da cidade. Além disso, neonazismo é uma pauta constante na imprensa nacional e muito se faz para tentar coibir as ações de quem pensa (?) assim: as manifestações que fazem referência ao Nacional Socialismo de Hitler são quase todas proibidas.

Mas os novos adeptos dos movimentos de ultradireita não fazem exatamente questão de se esconder e com o levante do movimento Pegida (por aqui se lê Peguída), muita gente que posava de boazinha colocou as mangas de fora sob o estapafúrdio “medo da islamização do ocidente”. No dia 1º de maio outros protestos de radicais de direita foram acompanhados de perto pela polícia e houve violência em diversos pontos do país.

A intolerância não faz passeatas apenas nas ruas das cidades do Leste, antiga Alemanha comunista. É só olhar para o polêmico Partido Nacional Democrata Alemão (NPD), que é radicalmente contra todo e qualquer não alemão, entre outras causas. Os nacionais democratas fizeram uma série de barbaridades nas últimas eleições: mandaram camisinhas para estrangeiros e passagens de volta para casa a candidatos com background multicultural. Há quem defenda a existência do partido: afinal, assim, os neonazistas são mais facilmente identificáveis. Eu tenho lá minhas dúvidas: acho que dar espaço e palanque para qualquer tipo de plataforma que pregue ódio e intolerância não faz muito sentido.

Em grupos, esses militantes de extrema direita são mais perigosos. Recentemente, atacaram um hostel onde estavam hospedados estudantes e feriram gravemente um menino descendente de chineses. Um caso de maior proporção chocou a Alemanha, com a descoberta de um trio de matadores que assassinou imigrantes em todo o país. Mas nem todos os casos de violência chegam a mídia e estudantes estrangeiros colecionam histórias que são passadas a cada nova leva de calouros que chegam as principais cidades universitárias.

Também já fui vítima

Amigos meus não saem das festas andando em Leipzig: preferem ir de bicicleta para não dar chance ao azar em uma eventual topada com neonazistas no caminho. Em Weimar, onde já denunciei para a polícia um músico que cantava refrãos antissemitas pelas ruas, estudantes latinos foram espancados na saída de um bar há alguns anos.

Comumente me perguntam se é a Alemanha é realmente perigosa para estrangeiros.  Apesar dos exemplos, no geral, acho que não. Casos isolados não podem comprometer o esforço de um país inteiro em mudar sua imagem e fazer o mea culpa de um período de horrores. Mas eles acontecem.

Eu mesma já passei por outra situação ruim, além do nazista cantor, embora sem maiores danos. Acompanhada do meu marido, ao atender o telefone em inglês, dentro de um ônibus, uma pessoa de uns 40 e alguns anos começou a nos agredir verbalmente, nos mandando voltar para os Estados Unidos. Ok: errou feio, mas isso não muda o motivo. Na hora, levei uns minutos para perceber que era conosco. Fiquei tão chocada com a ação que só consegui berrar uns palavrões e fazer um gesto feio com a mão. Ninguém em volta fez ou falou qualquer coisa.

Conto isso porque hoje o assunto é sério e espero que fique a lição: não importa o quão “alemôa” eu seja em Blumenau. Na Alemanha eu e todo mundo que nasceu aí no Brasil, – mesmo que a lei garanta o passaporte bordô – somos estrangeiros como qualquer outro imigrante, expatriado ou descendente de qualquer canto do mundo. E sempre seremos. E o orgulho maior em viver na Alemanha é exatamente outro: é o de fazer parte de uma sociedade que exercita a tolerância (com casamento igualitário, direito ao aborto e tantas outras questões vitais) e busca construir um futuro mais harmônico na tentativa de mudar a imagem de um dos passados mais terríveis da humanidade.

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comentários

Comentários (4)

  • Angela diz: 5 de maio de 2015

    Olá Ivana,muito bom o seu texto.Só quem convive diariamente com os alemães é que sabe a bagagem histórica de culpa e vergonha que eles(inclusive os jovens,que nem eram nascidos na época da guerra) carregam consigo. Infelizmente existem muitos descendentes de alemães no Brasil que ainda teimam em negar ou banalizar o holocausto.Enquanto símbolos Nazistas,pendurados na sala de estar ainda forem motivos de orgulho e não de cadeia,nada mudará.Um abraço.

  • Portes diz: 7 de maio de 2015

    A história humana é repleta de guerras e massacres; a História também é arte investigativa, imagine se fôssemos proibidos de investigar os fatos? E se fôssemos proibidos de perscrutar os segredos sórdidos que normalmente carregam a morte de milhares e a mentira de muitos? E se não pudéssemos questionar aquele espanhol que mentiu por anos falando que esteve em um campo de concentração? Acho apenas que o holocausto é uma das milhares de fatalidades que já aconteceu na história, vale lembrar que mais soviéticos que judeus morreram – homossexuais, deficientes e alemães foram perseguidos, assim como ciganos e negros. Não sei exatamente o valor, mas 20 milhões de soviéticos foram enterrados, boa parte da própria população alemã e aliada. Os russos têm lá o seu dia da Vitória, mas não usam o marketing como promoção e muito menos pretendem sensibilizar as massas com o ocorrido. Visitar campos de concentração no intuito de sensibilizar – o crime de guerra ao bombardear com bombas atômicas milhões de civis inocentes não é tão propagandeado; como a História deve fazer história, sou contra qualquer imposição ao espírito investigativo. Lembrando que o vencedor em uma guerra sempre demoniza o seu inimigo, os exemplos são variados ao longo da história: sensibilização não é ciência e ciência não é só acessar “ponto turístico”. A humanidade sempre praticou esses horrores, acho fascinante a arte da História!

  • Jorge Tadeu diz: 12 de maio de 2015

    Boa tarde, este comentário vem meio atrasado, mas foi uma boa leitura. Só discordo quanto a colocação “Alemães do Vale do Itajaí” Somos brasileiros, nascemos no Brasil, podemos ser descendentes de alemães, em que pese aqueles que vieram nas primeiras levas serem oriundo de principados, pois a Alemanha como país se formou bem depois. No mais seu blog é muito bom.

  • Pedro diz: 19 de maio de 2015

    Olá. Gostaria de saber por que pensas que ”quem sai aos quatro ventos propagando um revisionismo que nega o holocausto deveria ser preso”. Se é um fato tão incontestavel,porque não rebatem os revisionistas e acabam com a discussão de uma vez por todas ? Querer proibir de duvidar de algo é muito estranho… assim como ser proibido duvidar da confiabilidade das urnas eletrônicas no Brasil. Por que ser crime ?

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