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Babel é aqui: A Alemanha é, cada vez mais, um país de imigrantes e muitas línguas

25 de maio de 2015 6
Mural em um centro de compras asiático deixa claro que alemão não é a única língua

Mural em centro de compras asiático mostra que o alemão não é a única língua

A cena é típica: eu e meu marido (ou amigos brasileiros) conversando em algum lugar público -  pode ser o trem, um restaurante, um parque. Um grupo de alemães em volta começa a olhar e sorrir discretamente. Nós começamos a aposta. Quanto tempo ou qual das pessoas do grupo vai se aproximar e soltar a clássica pergunta: com licença! Mas, que língua vocês estão falando?

Já perdi a conta das vezes que isso aconteceu. Não é algo que me chateie: pelo contrário. É sempre engraçado ver a reação dos alemães quando falamos que somos brasileiros. É uma forma de quebrar paradigmas. Poucos, muito poucos sabem da colonização alemã no Sul do Brasil. Se eu digo que sou de Blumenau, me perguntam se fica na Baviera. Quando estou de bom humor, conto um pouco sobre a história da imigração europeia para as Américas no século 19, coisa que passa bem distante dos currículos escolares por aqui.

Uma das situações mais cômicas aconteceu uns dois anos depois de eu chegar aqui. Sai da universidade e esbarrei, por acaso, com um grupo de brasileiros que estava fazendo uma visita técnica. O grupo era o resumo do suprassumo do Brasil: gente de Norte a Sul. De pele negra, de olho puxado, de cabelo escuro e escorrido, gente de olhos azuis. Falávamos português com animação quando uma senhora de meia idade (com cara de professora, me perdoem o estereótipo!) chegou perguntando: vocês estão falando Esperanto? Para ela, só podia ser. Como um grupo tão eclético poderia ter uma língua comum? Explicamos um pouquinho de história do Brasil e veio o trem.

Por aqui, nosso país ainda é um grande clichê. O Brasil é popular na Alemanha por causa do futebol. E da caipirinha. E do samba. Amazônia e Foz do Iguaçu também são mencionados. Mais recentemente, alguns ouviram falar de Florianópolis. Mas termina aí: a importância que a Alemanha tem no imaginário blumenauense não é correspondida nem por uma fração de segundo. Com exceções claro, para confirmar a regra. Conheci dois ou três alemães que acertaram na lata de onde eu era. Um deles já tinha ido pra Blumenau só para conhecer a nossa Oktoberfest e jurou de pé junto que a nossa é melhor que a original. Tá. Mentira. Não jurou. Mas fez muitos elogios.

Meu país nem é tão tropical assim

Para eles é engraçado pensar em uma versão tão tropicalizada das tradições. E mais que isso: entender que nem tudo no Brasil é tropical – praia, mar e calor. Na última estatística oficial do governo alemão, somos em 38.253 brasileiros por terras germânicas, mas creio que esse número seja bem maior pelo tanto de português que escuto nas ruas. Muitos têm dupla cidadania e ficam fora da conta por serem também alemães ou engrossam o volume de italianos, portugueses e poloneses por essas bandas.

Os turcos ainda são a maioria dos imigrantes na Alemanha: em torno de 1,5 milhões entre uma população de 81,1 milhões. No total, o governo estima que mais de 10% da população alemã seja de pessoas de outras nacionalidades. Só no ano passado chegaram 519.300 novos estrangeiros no país e a taxa de natalidade também é mais alta entre quem vem de fora. Hoje, 20% dos bebês que nascem na Alemanha têm ao menos um dos país estrangeiros. Entre os alemães, tem mais gente morrendo do que nascendo, o que me leva a crer que, em poucos anos, uma roda tão eclética quanto o nosso grupo de brasileiros, mas falando alemão, não será mais surpresa pelas ruas de um país cada vez mais internacional.

Em Berlim já é assim. É mais ou menos como ir a Brasília ou Florianópolis e tentar encontrar alguém que nasceu na cidade. Outro dia mesmo, no metrô, parei para olhar em volta: alguns grupos de pessoas conversavam entre si animados, a caminho da festa. Contei oito línguas diferentes em não mais do que 25 pessoas e, curiosamente, ninguém estava falando alemão. Claro que isso é uma coisa de Berlim. Há quem passe a vida inteira aqui falando só inglês. Já no interior da Alemanha, pouca gente fala uma segunda língua fluentemente. No que era a Alemanha Ocidental, muitos entendem inglês e arranham francês. Mas na parte comunista, senhoras e senhores ainda lembram algumas palavras de russo. Coisas que só se vê em um país que um dia já foi dois e hoje está disposto a ser muitos.

A Alemanha se entrega ao multiculturalismo com programas de acolhimento, escolas de alemão subsidiadas pelo governo, programas de asilo e vistos de trabalho. No Brasil, nós, descendentes de imigrantes, temos memória curta. Não faltam aqueles que investem um bom dinheiro para conseguir o passaporte europeu por um direito de sangue ao mesmo tempo que se viram com ferocidade contra os haitianos que, com 75% de desemprego em seu país, buscam a mesma chance que foi dada aos nossos avós.

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comentários

Comentários (6)

  • Pedro diz: 25 de maio de 2015

    Estereótipos e curiosidades que nós também temos quando vemos estrangeiros por aqui (no Brasil)…
    Quanto ao conhecimento de uma segunda lingua, acho que eles estão a mil anos luz a frente de nós… morei em cidade pequena e ficava abismado como falam bem inglês ou francês. Aqui no Brasil, até quem faz cursinho de inglês costuma falar mais ou menos…

    E concordo plenamente com o paragrafo final! É isso mesmo!!! O povo fala de boca cheia que quer sair desse país, se mudar pra Miami, pra Europa… e crucifica quem quer se mudar pra cá… dois pesos, duas medidas, como sempre!

    Parabéns pelo blog!!

  • May-Lin Falconi da Rocha diz: 27 de maio de 2015

    Sendo descendente de alemães, italianos, portugueses, tendo um nome chinês (não sendo descendente), e morando em uma cidade colonizada por alemães (Petrópolis-RJ), que possui uma festa dedicada à colonização germânica chamada Bauernfest, entendo bastante dessas confusões culturais e raciais. Acho na verdade que tudo isso dá colorido à vida nesse planeta maluco.

  • Antonio diz: 27 de maio de 2015

    Um minutinho: O que está acontecendo aqui em SC é TRAFICO DE PESSOAS ,condenado pela ONU ,e patrocinado pelo DESgoverno Brasileiro e não imigração.Os Haitianos e outros PAGAM uma boa quantia(Dólares)para coiotes(traficantes de pessoas) e depois vão receberm 500 reais por mês em subempregos.Esta é a triste realidade

  • Luciano de BLUMENAU diz: 29 de maio de 2015

    Concordo com o Antonio acima !
    Olha gente, tenho nada contra imigração !
    Mas o que está acontecendo aqui no Brasil é sacanagem !
    O que quero dizer é que imigração tem que ser controlado, assim o cidadão ao longo do tempo se adapta ao nosso local e também se adapta a nova cultura. Sem falar que aprende o novo idioma. Agora imigração desordenada é um problemão ! Muitos não se adaptam, formam grupos diferentes e o conflito cultural começa a piorar ! A identidade cultural das regiões começa a desaparecer ! E a qualidade de vida também !

  • Rudi diz: 1 de julho de 2015

    Comparar os imigrantes (italianos, alemães, poloneses, etc) que colonizara Santa Catarina com os atuais haitianos e senegaleses é um total despropósito (muitas vezes feito com viés ideológico).
    Ao contrário dos antigos imigrantes, os haitianos e senegaleses não foram convidados a colonizar o estado e chegam sem planejamento algum, sendo empurrados de um estado para o outro (com a aquiescência do governo federal). E olha que nem refugiados são e possuem bons recursos para chegar aqui, por vias ilegais.

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