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Consumidor na Alemanha não tem apenas direitos: me acostumei a ser mimada

29 de maio de 2015 7
Surpresa do dia: recebi um aparelho novinho em folha em casa

Surpresa do dia: recebi um aparelho novinho em folha em casa

Não sou uma especialista em direitos do consumidor, mas sou reclamona por natureza: se comprei, exijo que funcione. Briguei algumas vezes no Brasil depois de horas em atendimentos telefônicos, mas me senti vingada quando vim para a Alemanha. Por aqui, os direitos não são assunto que se discuta: o cliente tem sempre a razão.

Para começar, que comprou e se arrependeu pode devolver. Se for dentro do prazo de 30 dias, ninguém vai perguntar o porquê. É só levar na loja, na embalagem original e pronto: você recebe o dinheiro de volta e essa é a grande diferença. Trocar um produto no Brasil, além de um rosário de lamentações e motivos, é ter a certeza de que vai ouvir aquela ladainha de ter que pegar um vale para gastar na própria loja.

A garantia de quase tudo por aqui é de 24 meses. Ou seja, se estragar nesse período, você devolve e também recebe o dinheiro de volta. Poucas coisas vão para o setor de reparos e quando você precisa deles, o atendimento funciona mesmo. Mas a maioria das mercadorias é substituída por uma nova imediatamente. Confesso que me acostumei tanto a ser maltratada e enrolada no Brasil que quando me deparo com isso por aqui ainda me surpreendo. Vou contar três historinhas.

Primeiro foi com um HD externo, que depois de um ano e meio de uso – e muito uso! – passou a apresentar setores defeituosos. Fiz o backup de tudo, tentei formatar e nada resolveu. Levei na loja. Perguntaram se eu queria o dinheiro ou um crédito. Como eu queria mesmo um outro HD, fiquei com o crédito. Levei para casa um novo, com três vezes a capacidade do anterior e ganhei dez euros de volta, por que o novo custava menos.

Outra experiência tecnológica. Não lembro quando foi a última vez que paguei por um mouse novo para o computador. Sim, eu uso mouse ainda. Não, não gosto de usar o touchpad. Enfim, o ciclo é assim. Eu comprei um mouse faz tempo. Ele estragou com seis meses de uso. Eu levei na loja e devolvi. Ganhei meu dinheiro de volta. Comprei um novo. O novo durou pouco mais de seis meses também. Estragou, levei na loja, peguei meu dinheiro de volta e comprei um novo… Já me perdi nessa conta. Não me parece exatamente algo moral, mas é legal e mesmo que eu quisesse quebrar o ciclo, não saberia como. Se o produto tem que durar 24 meses no mínimo e dura seis ou sete, não posso ser penalizada pelos erros de projeto e escolha equivocada de material.

Mas essa conversa toda tem origem em uma coisa que aconteceu hoje. Em janeiro do ano passado comprei um mixer que veio com uns copos de acrílico. A marca é boa, mas comprei com os pontos das compras do supermercado. Logo, não foi exatamente uma compra tradicional. Ano passado ainda a tampa de um dos potes estragou e eu liguei perguntando onde poderia comprar uma nova. Como resposta, recebi a tampa em casa. Anteontem liguei me queixando que a mesma tampa tinha quebrado novamente e o pote de acrílico estava rachando. Recebi em casa hoje um mixer inteiro, novinho em folha e uma carta pedindo que eu não deixasse de confiar na marca por conta do problema que eu tive. Antes que alguém pergunte, o meu atual está ótimo ainda e vou fazer uma doação para que siga sendo usado.

Nem tudo é perfeito, claro. Faz dois dias que mandei um e-mail pedindo informações sobre como comprar outra tampa para minha panela de pressão e até agora não recebi resposta. Já decidi que nunca mais compro nada dessa marca, mesmo que me escrevam alegando que cada panela tem sua tampa…

Piadinha infame à parte, não creio que o atendimento ao consumidor no Brasil vai dar saltos tão rápido em pouco tempo. Mas fica claro que existe espaço – e muito – para melhorias. Já temos direitos sim, mas as empresas ainda agem como se garantir a qualidade e o funcionamento do que compramos fosse um grandessíssimo favor. Favor é o que nós fazemos a elas quando compramos e os alemães já entenderam isso.

 

Atualização em 20/08/2015:  Quando escrevi esse post  me senti mimada pela empresa que, depois de duas tampas quebradas no meu processador de alimentos, me mandou um produto novo. Pois a tampa do novo quebrou outra vez, com pouco mais de dois meses de uso: a mesma peça, da mesma forma. Claramente é um problema de design! Mandei uma carta pra empresa explicando o quanto isso me aborrecia e pedi, na assistência técnica, uma tampa nova (pela quarta vez!). Recebi hoje outro equipamento na caixa, novinho em folha. Não consigo ficar feliz pela segunda vez: é muito desperdício!

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comentários

Comentários (7)

  • Carlos Bridi diz: 29 de maio de 2015

    Utopia, não pera, é Alemanha mesmo. E digo que tem mais paises com essas “doutrina”. EUA é um exemplo, com itens bastante parecidos, da devolução caso não gostou.
    Hoje o único momento em que podemos fazer isso no Brasil é para compras online e tem no máximo 7 dias após a entrega do produto. Tudo isso porque a evolução tecnológica foi tão grande que o Brasil (como sempre atrasado), não conseguiu fazer aos moldes da constituição de 89 e teve que abrir exceções.

  • Luiz diz: 29 de maio de 2015

    Mania que o pessoal tem de morar fora do Brasil e ficar criticando, então fica ai e ponto final ….
    Isso esbarra na questão cultural, povo,educação,princípios,descobrimento,desenvolvimento, tudo isso vai impactar em decisões como essa. O Brasil precisa melhorar e muito, agora temos que fazer o nosso melhor também, agora quem acha que é melhor morar nos EUA, Alemanha,Dinamarca, é só comprar a passagem e ir …

  • Gabriel diz: 29 de maio de 2015

    Acho que vou parar de ler seu blog. Motivos: primeiro é raiva do Brasil. Segundo é que só aumenta a vontade de sair daqui.

  • Paulo Schaffland diz: 31 de maio de 2015

    Apenas uma palavra resume a diferença entre estas nações: “respeito”

  • Gabriel diz: 31 de maio de 2015

    Quando eu disse raiva do Brasil, é um sentimento meu. Ainda não consegui convencer a minha esposa a sair daqui. Em breve isso acontece. Abraço

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