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Cinco coisas que Blumenau e qualquer cidade deveriam copiar da Alemanha já

02 de junho de 2015 12
Rio Reno, em Bonn, já foi a cloaca da Europa e hoje é um dos cartões postais

Rio Reno, em Bonn, já foi a cloaca da Europa e hoje é um dos cartões postais

Eu sempre brinco que Blumenau (e Pomerode junto, claro!) é a cidade mais alemã do planeta. Isso porquê o desejo de manter a cultura trazida pelos imigrantes cria uma missão quase impossível: criar espelhos para um modelo de vida e cultura que se usava na Alemanha do século 19. Isso não é uma crítica: eu acho o esforço valioso. Vou além: deveria ser ainda mais incentivado, com mais recursos para museus, festivais e, especialmente, com o poder público olhando para a história da cidade como parte de seu patrimônio mais precioso.

Mas não basta olhar para o passado, imitar fachadas de casinhas enxaimel, fazer pesquisas de roupas e danças. Se ideia é se parecer com a Alemanha, é preciso ver o que o país se tornou e aprender com as soluções que foram testadas e aprovadas por aqui. Sei que as comitivas de políticos e “técnicos” governamentais adoram uma viagem para a Alemanha. E além de acordos fictícios de cooperações que só rendem papel, essas viagens poderiam focar em copiar (copiar sim, na cara dura!) soluções que beneficiariam todo mundo. Afinal, a cidade tem que ser para as pessoas.

Para facilitar, fiz uma listinha. Pode copiar também.

1 – Despoluição dos rios: O rio Reno era conhecido, na década de 70, como a cloaca da Europa e hoje tem praias onde crianças e adultos nadam nos dias de calor. E não foi o único a passar por esse processo de despoluição. Faz uns anos alguém fez uma montagem de uma praia ao longo da Beira-Rio, em Blumenau, como se isso fosse um sonho. Salgar a água não vai dar, mas recuperar a Prainha – sem uma ponte hedionda passando por ela! – pode ser um bom começo. O projeto não precisa nascer faraônico. O do Reno envolveu vários países. Em Blumenau, é possível começar com o Ribeirão Garcia e o da Velha. Eu lembro com saudade de quando eu era criança e tomávamos banho no ribeirão e nem era preciso ir para os recantos no meio da Nova Rússia. A gente nadava embaixo da Ponte Preta, na entrada da Rui Barbosa. A ideia é inspirar o Vale e despoluir também o Itajaí-Açu. Existem recursos internacionais para projetos sérios dessa natureza e é inaceitável que muito pouco tenha sido feito nesse sentido até agora.

2 – Mais espaços para pedestres no Centro: Uma das coisas que mais gosto de ver são fotos das pessoas caminhando e pedalando pela rua XV de Novembro nos fins de semana. Essa rua tem que ser das pessoas e os comerciantes só terão a lucrar com isso. Em vez de ter dois carros na sua porta, vão ter cinco mesas de pessoas tomando café e namorando suas vitrines. A rua poderia comportar um veículo leve sobre trilhos – o Straβenbahn -, uma “novidade” que na Alemanha está completando 150 anos de serviços.  Fechar a rua e oferecer alternativas de transporte por ela completa exatamente o próximo item.

3 – Centro histórico preservado: O centro histórico é uma das áreas mais charmosas de Blumenau e tem que ser o coração do turismo da cidade. Tenho uma dificuldade imensa de entender porque essa área é vista como um corredor de tráfego pesado e escoamento. O patrimônio cultural não pode ser descaracterizado pela falta de planejamento urbano. Preservar centro histórico da cidade é preservar a própria identidade cultural. É a única coisa que faz com que Blumenau seja especial e não apenas mais uma cidade qualquer no mapa. Na Alemanha, todas as cidades cresceram em volta do seu centro histórico e trabalham duro para manter esses espaços o mais fiel possível: são eles que atraem turistas. São essas praças que nos perdemos de tanto fotografar por aqui. Mas temos um espaço assim em casa e nem olhamos para ele.

Em Erfurt, transportes, restaurantes e pedestres compartilham o centro histórico

Em Erfurt, transportes, restaurantes e pedestres compartilham o centro histórico

4 – Turismo a pé: É só fazer uma pesquisa rápida por “walking tours” para ver que são raras as cidades da Europa que não oferecem o serviço. Os grupos têm hora e ponto de partida agendados e percorrem por duas a três horas os principais pontos turísticos da cidade. Blumenau é perfeita para isso. Pomerode também. Timbó pode ter. O roteiro tem que ser interessante, os pontos bem estudados, os guias capacitados. Os turistas caminham pela cidade, observam os detalhes da nossa arquitetura, aprendem as histórias de cada construção e da própria cidade. O serviço pode (e deve!) ser oferecido também aos estudantes, que passam todos os dias pelo Centro e olham sem ver. A propaganda boca-a-boca, que ganha o mundo pelas redes sociais e plataformas de viagem, atrairia os turistas. Se uma única dessas comitivas tivesse feito um único desses passeios por aqui, não haveria dúvidas de sua validade!

5 – Transporte mapeado: volto a esse ponto como um papagaio que repete, repete, repete. Já escrevi sobre isso e não entendo a dificuldade de ver a coisa implementada: o que cada parada de ônibus precisa é de um nome. E vereador adora dar nome para qualquer coisa: há espaço para centenas de projetos de lei. Ai, esse nome passa a integrar um mapa. E nesse mapa aparecem as linhas que passam por esse ponto. Simples assim. Eu queria mesmo que alguém me contasse porque isso não existe ainda. Vai ver é porque em todas as visitas de estudo todo mundo anda de transporte fretado ou taxi e está mais preocupado em comprar lembrancinhas do que em entender o que faz das cidades europeias um espaço para as pessoas.

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comentários

Comentários (12)

  • Bernadete Kertzendorff diz: 2 de junho de 2015

    É lamentável, mas é exatamente o que acontece por aqui, sem preservação inclusive de nossas casas enxaimel, que estão pela cidade toda, caindo aos pedaços por falta de verba para a manutenção. Muito triste.

  • Luciano de BLUMENAU diz: 2 de junho de 2015

    Pois então Ivana.
    Sobre o transporte mapeado, esta idéia já foi repassada para os vereadores.
    Eu ainda enviei algo no começo deste ano para o vereador Beto Tribess, no qual foi bem recebido e aguarda ser discutido (so não sei quando rsrs). Foi sugerido também a participação de algumas empresas para fazer o mapeamento. Sem falar na padronização dos nossos pontos de ônibus. Pois muitos você não sabe se é um ponto ou um abrigo para animais. Espero que eles levem a sério esta idéia.

  • Luciano de BLUMENAU diz: 2 de junho de 2015

    Esqueci de comentar sobre o rio !
    Até pensaram em fazer algo voltado para o turismo no rio.
    Com barco etc, mas do jeito que as coisas funcionam aqui. O que a gente vai ver são casas penduradas nas barrancas, onde foram construidas de forma irregular !

  • Marcos diz: 2 de junho de 2015

    Post perfeito, Ivana!! O problema é que, daqui a pouco, já vai ter um (inteligente) para comentar que não devemos transformar o Brasil em Alemanha porque aqui é assim e não devemos mudar, ou então que nos mudemos se em outro lugar é melhor e blá, blá, blá…

  • Julio Schmitt diz: 2 de junho de 2015

    Excelente. E algumas ideias que poderiam inspirar ainda o tal de Plano de Mobilidade. Corrigindo um gigantesco de um equívoco que se deveria tornar as cidades aqui “mais atrativas para os turistas”. Cidades não são parques de diversão, parques temáticos. Cidades devem ser, em primeiro lugar, atrativas para os seus moradores, bonitas, organizadas, etc. – e isto (quase com certeza) espanta curiosidade, atrai turistas.
    O “turismo a pé” no entanto, ainda não seria recomendável. Pois o turista, de tanto ser obrigado a prestar atenção onde coloca os seus pés para não tropeçar em calçadas irregulares, nem poderia desfrutar de vistas, das belezas das cidades.
    Rua 15 de Novembro como calçadão? Seria o fim de todo o comércio nesta via – pelo menos na visão do comércio. E o contrário da “vida bombando” nos calçadões pela Europa.

  • Rafael F. diz: 2 de junho de 2015

    Claro que há muito o que se fazer por aqui. Mas algumas coisas já estão melhorando. É inegável que a poluição no rio diminuirá com a finalização das obras de coleta e tratamento de esgoto. Claro, não irá resolver nada da noite pro dia, mas a melhora será sentida por todos.

    E a Rua XV está sendo bem utilizada, ao menos nos finais de semana. Mas deveria e poderia ser bem melhor utilizada, realmente. Se tornar um grande passeio público seria ótimo. O problema atual é que o fluxo do trânsito não permitira a exclusão dessa rua.

  • Ana Carolina diz: 2 de junho de 2015

    Parabéns pelo post! Está tudo de acordo com o que penso, e , para os comerciantes que acreditam que o comércio morreria em função de transformar a rua XV em um grande calçadão, estão totalmente enganados, não precisamos nem ir tão longe para ter um ótimo exemplo sobre isso : rua das flores em Curitiba! Quando resolveram implantar o calçadão, os comerciantes foram contra, e só contrário do que pensavam, o calçadão só melhorou o comércio local. A despoluição do rio também, deve-se incentivar desde o alto vale com políticas públicas a despoluir, um exemplo pode-se se tomar de New York…

  • Michel Imme Sabbagh diz: 2 de junho de 2015

    Parabéns pelo texto. Assino embaixo. Acrescentaria a necessidade de outras parcerias regionais, com usina de lixo, e melhoria do transporte coletivo com nossos vizinhos. Outra ideia que Bnu pode debater eh restricao mais severa de carros no centro, compensada com onibus circulares, e construçao de predios altos, que nao aprovo.

  • Napo diz: 2 de junho de 2015

    Lamentavelmente as pessoas estão sendo contaminadas pela pior escoria, virando uma verdadeira lata de lixo com pichações para todos os lados, inclusive em construções históricos. O turista aqui nos finais de semana irão bater pernas para achar restaurantes e outras opções de lazer, principalmente no final de ano. Politico brasileiro viaja a lazer pessoal e compras, não observa e não aprende nada. Veja exemplo de nossos Deputados Estaduais maior gasto da região Sul. Resumindo, para chegar aos pés da Alemanha por mais que queremos copiar vai demorar no minimo mais 500 anos…..

  • RAGE diz: 2 de junho de 2015

    Em primeiro lugar não podemos nem comparar e tão pouco copiar tudo isso que foi escrito acima da Alemanha!! Temos que lembrar que você está se referindo a um dos países mais ricos e desenvolvidos tecnologicamente do planeta!! Querer implantar várias soluções de 1° mundo em um país pobre de 3° mundo como o Brasil, é muita utopia. Mas algumas coisas podem ser copiadas sim…

  • Alfredo Lindner jr. diz: 2 de junho de 2015

    Muito bom Ivana, perfeito! Não custa tanto dinheiro, basta crer e querer, consciencia coletiva. Acredite, ainda há pessoas lutando por isso…”água mole em pedra dura, tanto bate…”

  • Samya diz: 3 de junho de 2015

    É besteira achar que o comércio vai fechar se transformar a rua XV em calçadão. Isso é desculpa! Quando eu vou ao centro preciso deixar o carro bem longe e fazer todo o trajeto a pé. E a rua nem foi fechada!!! Porque é simplesmente irritante, para não dizer impossível, transitar pela XV de carro.
    Acho que temos de tirar exemplo destas cidades sim! E a exemplo do tema “tratamento de esgoto”, eu trabalho com projetos nesta área, representamos duas empresas alemães de tecnologia e o que surpreende nos nossos equipamentos é a simplicidade de engenharia utilizada. É ridículo de tão simples e lógico. E os setores de desenvolvimento implementam inúmeras “melhorias”, complicam o processo e no final vc tem um equipamento ruim com alto valor para justificar o que foi agregado até o momento.

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