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Médico, bancário ou pedreiro? Sistema de ensino alemão separa as crianças e define seu futuro ainda na escola

19 de junho de 2015 7
Em Blumenau, diferente da Alemanha, as crianças não são separadas em escolas diferentes

Em Blumenau, diferente da Alemanha, as crianças não são separadas em escolas diferentes

As três profissões do título são ilustrativas: igualmente importantes na sociedade (e não tão distantes financeiramente quando a justiça social é maior do que a que vemos no Brasil), servem apenas para ilustrar os três caminhos mais comuns na formação dos alemães. Por aqui, sistema de ensino é bem diferente do Brasil e define desde cedo os caminhos do futuro. Já explico, mas antes faço uma ressalva: eu pessoalmente não gosto, mas os resultados dos testes internacionais de educação colocam, por N motivos, os alemães em vantagem em relação ao Brasil.

Bom, vamos aos fatos. Os primeiros anos de escola – a Grundschule –, onde os alemãezinhos entram aos seis anos, são iguais para a maioria das crianças por aqui. Exceção daquelas que precisam de atenção especial. Os estados têm autonomia sobre a educação e por isso a duração e o modelo de escolas variam um pouco. No geral, quando chegam a 4ª série – ou por volta dos 10 anos – as crianças mudam de escola e aí que começa a diferença maior.

Elas são encaminhadas para uma dessas três: Hauptschule, Realschule e o Gymnasium (um modelo visual para a entender como é). A grosso modo é mais ou menos assim: os “fracos”, os médios e os mais “espertos”. A decisão sobre para onde vai cada criança é feita pelos professores com base no desempenho escolar durante a educação infantil. Os pais podem interferir, a criança pode ser mudada de escola no decorrer da educação, mas isso não é tão frequente. No geral, o destino das crianças começa a ser traçado aí e existe uma pressão muito grande nos primeiros anos para que os pequenos cheguem ao Gymnasium. Isso porque o ensino é diferente.

Na Hauptschule serão de cinco a seis anos de escola e os alunos são encaminhados diretamente a cursos profissionalizantes que os preparem para vagas na indústria, na agricultura, na construção civil. Quem foi para a Realschule fica, geralmente, um ano a mais. No fim da escola, segue para um Ausbildung, que é um curso de educação profissionalizante dual: uma parte na escola e outra na prática, em uma empresa, já com um pequeno salário. Muitas empresas grandes têm programas específicos: formam elas mesmas os profissionais que vão empregar.

Mas quem sai de uma Realschule pode ainda fazer uma prova para entrar em uma faculdade técnica. As universidades por aqui também são divididas: Fachhoschule, Hochschule e Universität. As duas primeiras têm perfis mais técnicos e práticos, voltados ao mercado. As universidades oferecem os cursos mais tradicionais, como medicinas e engenharia. São também a porta de entrada para quem planeja seguir uma carreira acadêmica.

Para entrar em uma universidade é preciso fazer uma prova única chamada Abitur, que se parece com o Enem brasileiro. Faz essa prova quem cursou o Gymnasium. Quem passou pela Realschule pode estudar um ano a mais e se preparar para prova também, ou fazer uma prova um pouco diferente que é aceita pelas faculdades mais técnicas. Os alunos se candidatam para as universidades e cursos que desejam e é a nota dessa prova que define sua aceitação.

O tema é um tanto espinhoso para os alemães: percebi isso ao logo dos anos por aqui. Na universidade, só conheci gente que veio do Gymnasium e a maioria acha uma boa ideia separar logo “quem gosta de estudar e quem não”. O zelador de um prédio onde morei há alguns anos, uma vez disse que achou ótimo ter ido para a Hauptschule, porque “não queria nada com os livros” e assim começou logo a trabalhar e comprou a casa dele.

Pessoalmente não gosto da ideia de separar as crianças e nem concordo que o sistema de notas é eficaz para julgar as competências de um indivíduo. Por outro lado, enquanto o modelo de escola integrada do Brasil pontuou 391 no Pisa (um teste internacional de avaliação de desempenho e que tem como média 494 pontos), a Alemanha chegou a 514.  Apesar disso, o Brasil é o país que mais melhorou seu desempenho desde 2003. No entanto, está longe da Alemanha ainda. Aliás, o 16º lugar dos alemães (O Brasil é o oitavo pior!) é assunto sério por aqui: é motivo de vergonha e de debates acalorados sobre o que pode ser feito para mudar e melhorar. Nesse quesito, não estamos apenas longe de tirar 10: seguimos reprovados.

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comentários

Comentários (7)

  • Isabel diz: 19 de junho de 2015

    Essa separação não parece ser o ideal, mas pode ser copiada ou inserida em parte na Educação brasileira. Quando os pais definem a profissão dos filhos, é um pouco pior. Na Alemanha, o que um pedreiro ganha é muito distante do salário de um médico? E há discriminação entre profissões como existe aqui no Brasil? Aqui basta ostentar…

  • Carla diz: 19 de junho de 2015

    Não sei julgar se é o certo ou o errado… mas é mais um questão vista de maneira racional pelos alemães, como praticamente tudo no país.
    Pessoalmente, não conheci ninguém que estudou na Realschule frustrado com isso… e muitos do Gymnasium que não seguiram para a Universidade.
    Mas eu posso imaginar e entender que seja complicado para uma criança lidar com isso.

    É uma questão bem delicada para se pensar para o Brasil… até porque a qualidade de ensino difere demais da alemão (mesmo dentre as três diferentes linhas).

  • Luis diz: 19 de junho de 2015

    Moro na Alemanha há 16 meses e se tem algo marcante que percebi na cultura alemã é o anseio põe manter as coisas em ordem, se existe algo que está fora do patamar desejado, isso segundo a visão deles, logo eles não pouparão esforços pra fazer o que tenha que ser feito pra adequar isso. Mais interessante é que eles não se sentem “bem” ao saber que algo que depende apenas deles mesmos está abaixo do que esperam. Tratando-se de educação, conforme dito no texto e também o que eu disse, eles sentem vergonha por não estarem “tão bem posicionados” no ranking no Pisa, porém de uma maneira bastante positiva, de uma forma que os faz trabalhar mais para alcançar uma posição melhor. É isso que ao meu ver falta no Brasil, pois enquanto somos o oitavo pior colocado nesse ranking existe um certo contentamento por parte principalmente daqueles que são os responsáveis diretos pela educação pública no país, no caso nossos governantes.

  • Julio Schmitt diz: 20 de junho de 2015

    Bem, a descrita “separação” das crianças pode parecer estranha. Mas qualquer forma de “tratamento igual” também tem tendências problemáticas quando for considerado que está se tratando de “indivíduos” – com todas as suas particularidades. É importante saber que o ensino na “Hauptschule” não termina depois dos 9 ou 10 anos de ensino obrigatório, mas continua por mais dois a três anos num “sistema dual” em paralelo ao aprendizado de uma profissão (desde clássicos “ofícios”, até funções no comércio), acontecendo por um ou dois dias na semana em escolas específicas, ou às vezes em blocos. Outro aspecto importante é a “permeabilidade”, no sentido que não há limitação. Quem tem passado pelo caminho profissionalizante, quando quer e for capaz, pode também chegar ao ensino universitário. Assim, por exemplo, o estágio final de uma carreira profissionalizante, de obter o título de Mestre (de Ofício) tem a equivalência do “Abitur” no sentido de formalmente possibilitar à pessoa de iniciar uma carreira acadêmica, sendo a mais frequente, neste sentido, em áreas técnicas da área de atuação anterior (Mestre Pedreiro -> Engenharia Civil, por exemplo), aliás um caminho até valorizado no mercado pela proximidade das pessoas com a prática – diferente de outros que tenham seguido pelo caminho “tradicional”, geralmente mais teórico e com menos ligação com a prática.

  • Charles diz: 20 de junho de 2015

    Boa explicação, Ivana ! Não tinha idéia de que o ensino era assim na Alemanha.
    Só uma dúvida : os Gymnasium e a Universität são bancados pelo governo ou os pais dos alunos que se dedicaram mais terão de arcar com os custos ?

  • e-Saúde diz: 24 de junho de 2015

    Por ser uma forma de ensino que vem dando certo para uma população, pode ser que alguma coisa poderíamos aplicar aqui. Valeria a pena um estudo mais detalhado desta questão para o cenário Brasileiro.

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