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A Alemanha me ensinou o desapego, a simplicidade e a viver com muito menos

10 de julho de 2015 9
Desapego é deixar as coisas materiais e carregar apenas as boas lembranças

Desapego é deixar as coisas materiais e carregar apenas as boas lembranças

Em sete anos na Alemanha me mudei umas oito vezes e aprendi na prática a importância do desapego. Desfazer-se de roupas, objetos, sapatos está diretamente atrelado a reforçar a ideia de ser em detrimento de ter. Explico por partes.

Saí de casa pela primeira vez com 19 anos mas continuava chamando a casa da minha mãe, em Blumenau, de minha casa. Sei, de coração, que para ela, sempre vai ser a minha casa. Mas as andanças e/ou a maturidade que vem com elas me fizeram mudar de perspectiva e, de repente, não faz nenhum sentido manter do outro lado do oceano um armário cheio de livros, roupas e sapatos que eu nunca mais vou usar na vida.

Primeiro por que não me servem: engordei, emagreci, a moda mudou, leio outros autores agora. Segundo, porque mesmo que todas as coisas que deixei por lá estivessem saindo de um catálogo do mês, eu não sou mais a mesma pessoa que as comprou. Minhas escolhas hoje são completamente diferentes, porque cada vez que eu troco de endereço, não sou mais a mesma de quando cheguei para morar naquela casa.

A versão que saiu do Brasil adorava saltos altos. Hoje, meu objeto de desejo são botinas de couro bem baixas, forradas de lã quentinha para o próximo inverno. Tive uma coleção de bolsas e hoje só compro uma nova quando a atual se desfaz. Eu não preciso de dez se só ando com uma de cada vez.

E não sou a única a passar por isso. Conheço gente que fez malabarismo para colocar dezenas de camisas lindas em uma mala e desde que chegou na Alemanha só aparece em fotos usando camisetas. Ou os dez pares de sapatos de salto que jazem em um armário poeirento porque aqui se anda muito mais e as calçadas são, muitas vezes, de pedrinhas irregulares. Ainda as caixas de mudanças que foram deixadas no porão de um amigo cheias de coisas absolutamente queridas e que depois de uns meses, já nem se sabe o que está dentro.

Isso não significa que eu não preserve laços com o passado, especialmente com a família, com amigos ou com lugares queridos. Mas quando se decide sair do país – seja por seis meses, por um ano ou para nunca mais voltar – é preciso aceitar que a vida de quem fica segue sem a nossa presença. E a história que passamos a escrever não cabe mais nas páginas da vida de quem ficou. A grande aventura de finalmente achar no mercado um arroz que fica igualzinho ao do Brasil pode parecer ridícula (ou esnobe!) e não interessa em nada a quem ficou, mesmo que essas pessoas continuem nos querendo igualmente bem.

A história que escrevemos longe de casa tem referenciais de cultura tão distantes que quase nada faz sentido para quem segue a mesma rotina, no mesmo endereço. E quando você aparece – de visita, no computador, no telefone – e alguém pergunta como vão as coisas no novo país, a resposta é sempre a mesma: vão bem. Não tem como contar, como explicar que o ar tem outro cheiro, o sol brilha diferente ou que você descobriu um restaurante absolutamente fantástico na esquina de casa. Ninguém tem paciência para ouvir.

Mudar de país é a prova da existência de universos paralelos: o nosso eu que ficou na memória dos amigos segue uma trajetória completamente diferente do eu que somos agora. E essa diferença afasta, pouco a pouco, mesmo que a gente insista que não.

Me considero uma boa cultivadora de amigos, em uma avaliação nada modesta. Tendo a preservar muito mais a memória dos meus amigos distantes do que sou preservada na vida deles: insisto em escrever postais, cartas que mofam em gavetas mesmo sem nunca ter recebido resposta a nenhuma delas. Escrevo mesmo assim porque sei que os destinatários não fazem por mal: tiveram que aprender a viver sem mim e, mesmo com saudades, levaram a tarefa a cabo com maestria. Também porque, na verdade, nem sou mais a pessoa de quem eles sentem falta.

No fundo, a insistência em fazer parte da vida deles é puro egoísmo meu. Não sei se vou voltar um dia e, sinceramente, não sei se me encaixo no papel que um dia representei na vida de cada um. O amor que sinto por eles e pela cidade onde eu nasci e por aquelas onde morei é uma vaidade de querer manter um pedaço de mim mesma em cada pessoa que passou pela minha vida. O que me leva crer que meu desapego material não se reflete nos sentimentos.

Na verdade, o que preciso mesmo a cada mudança são muitas caixas não para as coisas, mas para cada uma das pessoas que fui ao longo desses anos. Porque sair de casa é, definitivamente, sair de si mesmo e se reinventar com novas prioridades.

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comentários

Comentários (9)

  • Marcos diz: 10 de julho de 2015

    Falou bem Alemoa !!! Parabéns !

  • Regiane diz: 10 de julho de 2015

    Ivana, achei seu “desabafo” perfeito. Eu tenho como objetivo de vida sair do país e também moro em Blumenau. Mas de antemão eu já sei que as pessoas que aqui ficarão não vão compreender e isso é egoísmo. Porque na vida achamos que os outros nos “pertencem”, sendo por amizade, por familiaridade ou por amor. Mas também penso que a vida é minha e as escolhas e consequências também e aos outros cabe apenas aceitar.
    E parabéns pelo blog. Leio sempre que posso. Um dos meus sonhos é conhecer a Alemanha :)

  • Gisele diz: 10 de julho de 2015

    Adorei seu relato. A mais pura realidade.

  • Iara diz: 10 de julho de 2015

    Excelente texto, Ivana.
    Lúcido e verdadeiro.
    Lembrando que o ‘desapego’ é um sentimento que deveríamos exercitar diariamente, em qualquer circunstância. Como colocaste: ” Desapego é deixar as coisas materiais e carregar apenas as boas lembranças.” Estas cabem em nossa memória e coração.

  • Willy diz: 10 de julho de 2015

    É isso aí!

  • Carlos diz: 11 de julho de 2015

    Belo texto… Faco de suas palavras as minhas.
    Maravilhoso!

  • lea diz: 14 de julho de 2015

    Achei ótimo texto como reflexão. Respeito e admiro seu desprendimento.
    Mas enxergo e sinto a vida diferente; só faz sentido se eu mantiver meus amores
    ao alcance dos abraços. Minha memória reservo a quem realmente não posso mais abraçar. Viajar e morar fora por um tempo é maravilhoso pra abrir a mente e se reciclar.
    Meus encontros periódicos com amigas de infância, ou com as da fase adulta, são tesouros inegociáveis. Bjs e enjoy!

  • Kimberly Renée diz: 13 de agosto de 2015

    Muito bom seu texto me fez refletir em várias situações da minha vida. Irei morar na Alemanha daqui um tempo, começar uma nova vida,fazer novos amigos, construir algo que aqui no Brasil está impossível de ter.

  • Simone Steinert diz: 14 de agosto de 2015

    Hallo Ivana,
    Nossa seu texto representa uma verdade.E exatamente o que sinto.

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