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Falar alemão é fácil. Difícil é fazer com que alguém na Alemanha entenda o que você chama de alemão

15 de julho de 2015 6
A língua é complicada mesmo e os alemães sabem disso

A língua é complicada mesmo e os alemães sabem disso

Alemão não é exatamente uma língua fácil. Eu costumo dizer que falar alemão é a forma mais educada de cuspir nos outros, já que é impossível falar sem disparar dezenas de perdigotos. O célebre escritor americano Mark Twain se deparou com as dificuldades da língua e postulou uma das frases que, para mim, fazem todo o sentido. Ele disse que uma pessoa pode aprender inglês em 30 horas, francês em 30 dias e alemão em 30 anos. Bom, estou no lucro por enquanto.  Depois de ter feito cursos, provas e proficiências, tenho toda a papelada que, legalmente, prova que sou fluente em alemão.

Na prática, aprendi a responder sobre minha habilidade de duas maneiras: se um alemão me pergunta, eu digo que falo um pouquinho. Se um estrangeiro me pergunta, encho a boca com todas as consoantes possíveis para dizer que sim, que eu falo alemão. Mas para mim mesma, essa é uma pergunta sem resposta, já que o cotidiano se encarregou de me colocar em algumas enrascadas.

Logo que cheguei, toda perdida no supermercado, precisava comprar detergente para lavar louça. Alguém já tentou decorar esse nome assim, na primeira semana fora do país? Geschirrspülmittel, saúde. Bom, tentei simplificar a coisa depois de meia hora procurando. Se eu perguntar para a senhorinha onde está o sabão, o detergente vai estar ao lado, certo? Certo, se eu não tivesse trocado sabão (Seife) e mostarda (Senf). Comprei um pote, para não ficar sem graça.

Os anos passaram e eu crente do meu alto nível da língua, me sentindo a encarnação do Goethe, fui acompanhar uma pessoa a prefeitura para fazer o registro obrigatório. A atendente, simpática, pergunta qual o estado civil da mulher do meu lado e eu, sem titubear, querendo logo informar que era divorciada (geschieden), disparo: circuncidada (beschnitten). A sala inteira caiu na gargalhada, menos a cortada em questão, claro, que não entendeu nada.

Mudo de cidade por vergonha. Ta, não foi por isso, mas mudei de cidade e tudo o que eu achava ruim ficou pior. Saio da francesíssima Rua do Palácio (Am Palais) e passo a morar na Rua da Igreja (Kirchstraße), que eu até hoje pronuncio Rua da Cereja (Kirsche). Aliás, a cidade tem três ruas com o mesmo nome. Ficaria fácil dizer que a minha rua é no mesmo bairro da Gotzkowskystraße, mas isso também não ajuda. Ah, maravilha! Roda o taxímetro!

Sempre me atrapalho entre contar uma história (Geschichte) ou um rosto (Gesicht). Não aprendi como se pronuncia Dirndl (o tal do traje típico alemão) e levo alguns segundos para ler palavras com mais de 20 letras. Ah, são muitas. Os números, ah, os números: até hoje leio no visor do caixa, porque falar a unidade antes da dezena é um ato de pura malvadeza. Neunundvierzig “óirro” (é assim que os alemães dizem Euro!) siebenundfünfzig, bitte! 49,57, para quem se perdeu no meio das letras.

Mas é preciso relaxar, afinal! Faz uns anos, fui convidada por uma amiga recém-chegada do Brasil para um chá e ela, indignada, se queixa da maldade do fabricante em batizar aquilo de “Chá de maçã covarde”. Algumas gargalhadas depois ela entendeu que era uma mistura de maçã com figo (Feige). A mesma palavra, em minúscula, também significa covarde.

Embora os alemães sempre fiquem felizes quando notam seu esforço para falar a língua deles (sim! Eles têm plena consciência do quão difícil é), nem sempre a comunicação está assegurada. Você pode até usar a palavra certa, mas a pronuncia errada pode colocar tudo por água abaixo. E pior, tem vezes que eu juro que não consigo perceber a diferença entre a palavra que estou dizendo e a que estão repetindo para mim.

Claro que no meio de uma maioria que quer ajudar tem sempre alguém para criar problema. Seria mais ou menos assim em um universo paralelo. O alemão, contando de sua viagem ao Brasil, diz: “Carra, eu supí na pé de cocô e comeu cocô”. Ai o brasileiro fala: “Nossa, que corajoso! Subir em uma palmeira para apanhar um coco.” O que o cidadão de mau humor te responde aqui: “Nossa! Com tanto coco no país porque você decidiu comer cocô”. Respira fundo, conta até três e faz mais uma tentativa de repetir a palavra.

Depois disso tudo, eu posso resumir meus sete anos de Alemanha assim: Sou aquela que lava a louça com mostarda, conhece uma mulher circuncidada, vive na rua da Cereja mas não sabe dizer o número sem pensar por 30 segundos, quer comprar uma roupa alemã que não consegue pronunciar o nome, se atrapalha na hora de contar a história – ou a cara!? – e, pra relaxar de toda essa confusão, toma um chazinho de maçã covarde. Mas ao menos se orgulha de pronunciar esquilo (Eichhörnchen) e armário de cozinha (Küchenschrank) de forma compreensível!

 

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comentários

Comentários (6)

  • Siegrid Ane Creutzberg diz: 15 de julho de 2015

    Ivana, morei na Alemanha jul/94 a dez/95, lá se vão 20 anos e infelizmente não tive mais oportunidade de retornar, mas me identifico muito com seus post, quando estive ai fui pedir pra um colega que eu queria uma jungfrauK7 (fita virgem) pra gravar algumas musicas, rimos muito até ele me explicar que era leere Kassette, abraço!

  • Luciano de BLUMENAU diz: 15 de julho de 2015

    Tive a mesma dificuldade quando estive em 2014.
    Apesar de meus erros, os alemães ficavam contentes em ver meu esforço.
    O que para mim demonstra interesse e respeito pela cultura deles (ou qualquer outro país). Todo idioma tem suas dificuldades, acho que não devemos ter medo em errar, o importante é a comunicação acontecer. A perfeição vem com o tempo. Ou vocÊs acham que os alemães com seus malditos artigos DER/DIE/DAS também não esbarram na mesma dificuldade no português ? KKKKKK Adoro me vingar de meus amigos alemães quando eles falam em portugues algo do tipo….EU PEGAR A ONIBUS PARA IR A PARQUE ! KKKK

  • Marcos diz: 15 de julho de 2015

    Muito engraçado este post!!! E essa do Jungfrau K7 é boa demais, kkkkk…

  • Carlos Henrique Schmidt diz: 16 de julho de 2015

    Sensacional a jungfrauK7 (fita virgem). Estou tentando conter o riso depois de uns quinze minutos. Sou descendente de alemães, tenho passaporte Alemão, falei só alemão até os quatro anos de idade e me viro bem nessa língua que decididamente não é fácil. Morei na Alemanha e Suiça Alemã durante quase um ano nos anos 1980 e depois, viajei com alguma freqüência a Alemanha. Um de meus filhos esteve por lá durante seis meses em 2008 e o outro esta prestes a voltar de Berlin depois de um ano de intercâmbio da FURB.
    Seu blog é fantástico, sensacional e me divirto muito lendo ele. Me identifico com essa cultura alemã que eu acho simplesmente sensacional. Estive em Leipzig e Dresden no mês passado e fiquei impressionado com as duas cidades que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer.
    Continue escrevendo dessa forma livre, leve e solta sobre com é viver na Alemanha.
    Parabéns.

  • Paula diz: 20 de agosto de 2016

    Só para dizer que amei o seu blog! Dei muita risada com vc e chorei com a história linda do limpador de chaminés!
    E acabei de pensar…

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