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Sem a frescura brasileira: alemão é um povo farofeiro e leva marmita para todo o lado

21 de julho de 2015 12
Eu como de tudo, mas tem dias que a cantina das empresas coloca até os estômagos mais fortes à prova

Há dias que a cantina das empresas coloca até os estômagos mais fortes à prova

Uma história que eu sempre conto é a de uma colega jornalista que veio fazer um intercâmbio e, ao se deparar com arroz no bufê do prato do dia, dispara, incrédula, uma pergunta: “Ué, cadê o feijão?”. Não, a não ser que se cozinhe em casa ou se vá a um (quase sempre horroroso) restaurante brasileiro, não tem feijão por aqui. E nem farofa de farinha de mandioca. O que tem sempre é farofa daquele outro tipo: alemães são farofeiros de corpo e alma.

Isso me faz lembrar da época de criança lá no Progresso. Estudei quase sempre em escola pública e adorava comer merenda: meus dias favoritos eram do arroz com sardinha, da canja e daquela imitação de Quick de morango com bolachão mata-fome. Bom, avaliando friamente a coisa, começo a achar que eu sempre fui boa de garfo e que todos os dias eram meus favoritos…

Mas isso é para explicar que eu achava merenda o máximo, até que uma “amiguinha” veio me dizer que era feio eu ir lá na fila para comer, porque todo mundo ia achar que eu não tinha comida em casa. Só pobre ia para fila da merenda, segundo ela. E era mais feio ainda trazer um pão de casa – mesmo que isso desbancasse a teoria de não ter comida. Influenciável que eu era, no alto dos meus 9 anos, passei a cobrar da minha mãe o dinheiro para comprar um pão com chucrute na cantina da escola, enquanto espiava de rabo de olho os pratos de merenda.

Esse bullying contra quem leva comida pronta de casa, que se definiu de forma preconceituosa como farofeiro, se repete em escala nacional no Brasil, onde levar uma marmita para o trabalho ainda é visto como coisa feia por muitos. Até está mudando, mas a passos lentos. Há quem ainda prefira pagar caro por comida ruim no restaurante da esquina do que curtir um restodontê delicioso por pura vergonha do que os outros vão achar. Por aqui, é bem ao contrário! Levar marmita é bacana: significa que você cozinha, que você se alimenta melhor do que a maioria e que seu prato vai ser olhado com cobiça por todo mundo que estiver em volta comendo o bandejão da firma. Sim, quase todas as empresas maiores e as universidades oferecem uma cantina com algumas opções (algumas vezes duvidosa!) de almoço.

Além disso, até hoje não conhecei um único escritório ou empresa alemã que não tivesse uma cozinha com um micro-ondas e uma mesa na qual os funcionários possam comer. Algumas têm até fogão e forno. Todas têm café (seja pago ou uma maquininha de expresso de sachê ou capsula). Comer na cozinha e esquentar a batata com porco do dia anterior é tão normal quanto abrir um saquinho com duas fatias de pão preto com queijo e tomate na mesa do trabalho. Ninguém nota: come a chefia, come o organograma completo.

De manhã cedo, é preciso ficar de olho nas calçadas para não esbarrar em ninguém no caminho que carrega um copo térmico cheio de café quente feito em casa. Estudantes chegam para as primeiras aulas do dia acompanhados de garrafas térmicas de café com leite.

Comer em público o lanchinho preparado em casa não é visto de forma negativa: faz parte da rotina dos alemães tanto quanto andar com uma garrafinha de água o tempo todo e encher ela em qualquer torneira quando acaba. Claro que já vi uns exageros. Cidadão com uma bandeja de sushi no cinema, estudante comendo uma lata de milho de colherada no ônibus. Ou aqueles que insistem em saborear um ovo cozido recém-descascado no trem. Aliás, o trem de viagens é o espaço para uma série de farofadas e me incluo entre os adeptos.

É bem comum encontrar grupos de amigos que aproveitam as horas do trajeto para um brunch regado a espumante, vinho e tudo o que a criatividade permitir acomodar no famoso potinho de plástico com tampa. Então, para quem se incomoda com aquele grupinho falando o tempo todo, rindo alto, com um monte de sanduíches e bebidas sentado perto no parque ou no trem, uma dica:  a Alemanha não é pra você. A farofa por aqui é o segundo esporte nacional e eu adoro isso.

Mas voltemos a farofa propriamente dita, aquela de farinha de mandioca, gordura e amor. A culinária de um país é tão importante quanto os monumentos, os pontos turísticos ou a língua. Ela é parte da identidade de um povo e deixar de conhecer o que se come em um lugar é ignorar um dos aspectos que faz daquelas pessoas o que elas são. Culinária não é apenas um prato cheio: é história, geografia, antropologia temperada de realidade. Claro que depois de sete anos longe do Brasil eu cozinho uma feijoada completa aqui em casa algumas vezes no ano: faz parte do processo de identidade de quem vive longe do seu país.

Agora me perdoem o mau humor: termino correndo o risco de que me abandonem por se ranzinza. Não tenho a menor paciência para quem está uma semana fora de casa e em vez de provar uma das trocentas salsichas ou Späzle, beber uma cerveja, em vez de comer um Strudel de maçã, uma torta de papoula, começa a reclamar da comida e postar nas redes sociais sobre a saudade que sente do feijão. Hallo! Não se pode ver o mundo só com os olhos: é preciso sentir as novidades, cheirar os lugares, ouvir a língua das ruas, cair de boca na cultura: e farofar com todo o prazer!

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comentários

Comentários (12)

  • LUCIANO DE BLUMENAU diz: 21 de julho de 2015

    Bom dia Ivana.
    Pois então….teve um amigo meu que quando voltou da Alemanha, reclamou do absurdo que pagou para comer uma feijoada ae. Na boa, mas o cara viaja para fora e ainda quer comer feijoada ae ? Por mim deveria ser mais caro para deixar de ser trouxa ! kkkkk

    Gente assim deve aproveitar a oportunidade para experimentar outras coisas. No meu caso aproveitei bastante para encher o bucho com a comida alemã, e até a comida turca. No qual salvou meus dias por ae.

  • Marcos diz: 21 de julho de 2015

    Pura verdade !! Hipócritas brasileiros … Tenho pena.
    Um dia cai a ficha …. Parabéns !

  • jessica diz: 21 de julho de 2015

    nossa adorei!!! irei sempre te ler.
    Sou Alemoa das redondezas do vale do itajaí também, nunca fui pra alemanhã, meus planos estão entre dia 22 a 31 de dezembro para Bremen, Berlin e Munique.
    Neste aspecto de ser boa de garfo e de amar merendas temos esta parte da história parecida.
    Uma das minha melhores lembranças é quando tinha sopa, apesar das história que caia a dentatura da merendeira, eu ainda assim comia sem culpa. Um dia teve que levar lanche pra escola porque era um dia temático e eu levei pão com linguiça e margarina, muita gente zoou de mim e eu continuei com meu pão de boas.
    Ja fui pra Europa e tive a oportunidade de conhecer um pouco da Espanha e fiz uma farofada na barceloneta, melhores lembranças, sinto o cheiro do ramon até hoje. Agora me pergunte se faço isso em Piçarras, Penha ou qualquer praia perto daqui? Jamé, coisa de pobre.

    Abraços adorei seus depoimentos e continue assim, desmistificando a alemanha para nós alemoas do vale do Itajaí.

  • Juliana diz: 21 de julho de 2015

    Olá! Conheci o blog há poucos dias e adorei! Sou brasileira apaixonada pela Alemanha e me identifiquei muito com suas postagens! Tá de parabéns! ;)

  • Maicon Eduardo Prange diz: 21 de julho de 2015

    Bom desde pequeno eu fui o cara que levou uma multidão para a cantina, até mesmo as patricinhas que ficavam com nojo da comida da escola, por que fiz elas e todos os outros abrirem mão da frescura? Meus pais tinham uma condição financeira um pouco melhor e isso fazia os meus amigos olharem pra mim e falar, se o Maicon que é riquinho come por que eu não posso comer?

    Agora puxar um pouco seu saco hahaha, adoro suas publicações, posso garantir que é a unica que eu eu realmente paro pra ler por que eu me identifico muito com você, abraços e continue com esses textos maravilhosos.

    Abraços.

  • Juliana diz: 21 de julho de 2015

    Super concordo com tudo o que vc escreveu. Frescura Brasileira: temos isso no sangue! Infelizmente damos muita atenção ao que vão falar da gente e não nos preocuparmos em fazer aquilo que gostamos.
    Já estive na Alemanha e adorei cada uma das cidades visitadas. Comi muitas salsichas, späzle e até carne suína (que não é o meu forte).
    Parabéns pelos seus textos.

  • Marcos diz: 21 de julho de 2015

    É bem por aí!! O negócio é experimentar a comida dos outros locais: se não gostou, paciência, hehe… Apenas alguns exemplos pelos quais eu passei e passaria novamente:
    - Na Costa Rica se como arroz com feijão de café da manhã, o tal “Galo Pinto” (muito bom, por sinal).
    - Nos Estados Unidos o feijão deles é doce e bem ruim se comparado com o nosso (mas tem que provar pra dizer que é ruim, hehe…).
    - Na Turquia comi um peixe frito, no meio de um pão com alface e tomate preparado no próprio barco dos pescadores na beira do estreito de Bósforo: experiência e gosto muito bons!!!
    - Já as pizzas que comi na Itália não chegam aos pés da do Blulanches, kkkkkk… (e o pior é que é verdade).
    - No Uruguai, nas famosas parijas, os caras comem, dentre outras coisas, rim de boi. E por incrível que pareça é muito bom!!
    Resumindo: o negócio é provar as comidas dos outros lugares enquanto se está nos outros lugares. Matar a vontade da comida do Brasil, quando voltar para o Brasil!! Além de uma boa experiência, é bem mais barato, hehehe…

  • Giba Santos diz: 21 de julho de 2015

    Aqui em Blumenau, muitos tem este hábito. Eu por exemplo, adoro fazer um almoço/piquenique no Ramiro Ruediger (parque da cidade) …

  • Erlaine Cristina Barcelos Fecci diz: 21 de julho de 2015

    Boa tarde Ivana,

    Adoro seu blog, espero ansiosamente por cada materia.
    Concordo com seu ultimo paragrafo, esta em um lugar diferente (nao somente fora do Brasil, mas fora de sua cidade ja basta) curta o q o local te oferece, as paisagens, costumes e a comida… Abraço

  • Julio Schmitt diz: 21 de julho de 2015

    Para falar em “farofeiro”: na Baviera existe uma regra nos famosos “Biergarten” que possa parecer estranha mas é ao mesmo tempo interessante: 1) o frequentador pode trazer o que quiser de casa para comer (às vezes cestas bem recheadas, incluindo uma toalha para colocar na mesa); 2) bebidas SOMENTE do local – em particular, é claro, a cerveja, sendo a medida mais utilizada a “Mass” que é 1 litro.

    E no fim de semana um passa tempo de muita gente em Munique e redondezas -quando o clima permite- é “biergarteandoi” adaptando talvez o único gerúndio que existe no Alemão “biergarteln” (ou melhor: no dialeto da região) e que significa passar o dia num Biergarten.

  • bettina riffel diz: 21 de julho de 2015

    Adorei a parte ‘sou boa de garfo’ .. hahahah Eu tb :-p

  • Alexandre Schmidt diz: 22 de julho de 2015

    Morando fora há 3 anos também tive que aprender a fazer meu próprio feijao e também pao de queijo – e ambos vem melhorando ao longo do tempo!

    Acho triste que a sociedade brasileira seja tao preconceituosa a respeito de hábitos tao pessoais. Isso é claramente um ‘efeito colateral’ de nossa cultura extremamente classicista, que no fim se torna algo também superficial, valorizando o status em vez de a essencia das coisas.

    Obs: saudades das cervejas e salsichas alemãs!

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