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Endereços na Alemanha: números sem lógica, nomes nas portas e uma grande chance de se perder

21 de agosto de 2015 10
As ruas floridas escondem um segredo: onde fica mesmo o endereço?

As ruas floridas escondem um segredo: onde fica mesmo o endereço?

Desde que me mudei para a Alemanha, a bicicleta, minha companheira de adolescência nos recantos do Progresso, voltou a fazer parte da minha vida. Foi em Bremen, primeira cidade onde morei, que me reencontrei com os pedais. Nos fins de semana e nos dias de folga, saia sempre com meu marido sem destino. Nosso roteiro era basicamente assim: sair pedalando e dobrando em cada esquina que parecesse interessante, seguindo alamedas verdes, cortando parques, cemitérios, dobrando aqui e acolá, seguindo um córrego, virando no primeiro arbusto florido a esquerda, até perder completamente o senso de localização e direção. Então, descobrir o caminho de volta para casa. E aí que estava o desafio.

Quem passeia pelas ruas arborizadas e limpas da Alemanha não sabe o segredo que se esconde por trás dessa aparente organização ornada por flores e cantos de passarinhos. Procurar um endereço por aqui é daquelas coisas que me deixam preocupada. Claro que a tecnologia mudou tudo isso, mas sem um GPS no bolso qualquer um fica mais perdido que cachorro que caiu da mudança.

No Brasil a gente sabe que vai encontrar os números das casas pares de um lado e os ímpares do outro lado da rua. Pois é: por aqui também é mais ou menos assim, mas nem sempre. As exceções são tantas quanto os verbos irregulares da gramática alemã: quase todas. Mas aí você pensa: porque tanta queixa se é só atravessar a rua? Na na ni na ni não!

Os números das casas no Brasil é determinado pela distância da residência desde o início da rua, ou mais ou menos isso. Então, se você mora na casa número 115, está a cento e alguma coisa metros de onde a rua começa e por aí vai. E aqui!?!?? Surpresa!!! As casas são contadas… A casa um é a primeira da rua, a próxima é a dois, a três e por aí vai. Ai, se o seu amigo mora no número 20 da rua, calcule mais ou menos quanto tem as fachadas da rua e vá tentando adivinhar onde fica a tal casa.

Mas piora! Claro que muitas novas casas foram construídas depois da contagem inicial e então os números começam a ser criativos: 19a, 44/II e segue. A álgebra do cotidiano! Acabou? Não. Piora. Nem todas as ruas foram numeradas com as casas contadas em ordem: número um de um lado, a dois do outro. Várias, muitas foram assim: vai de um lado da calçada e conta um, dois, dez. E volta pelo outro, de trás para frente. Assim, a casa número 2 pode ficar na frente da 43 ou da 48, dependendo da rua. Alguém consegue explicar isso? E tem mais uma: um endereço, especialmente em cidade maior, só funciona com o CEP. Muitas ruas têm nomes repetidos (só em Berlim existem três ruas com o mesmo nome da minha!). E outras ruas, indecisas, mudam de nome a cada meia dúzia de quadras sem avisar!

Nos apartamentos, não há números e sim os nomes das famílias

Nos apartamentos, não há números e sim os nomes das famílias

Bom, se conseguiu achar o endereço, ótimo. Vem a parte dois: os apartamentos não têm número. Na campainha das portas está o sobrenome das pessoas que moram na casa. Você aperta a campainha e fica ouvindo o barulho para adivinhar em que andar mora a pessoa! E o nome na campainha é também a chave para receber cartas: não adianta mandar uma encomenda para o meu endereço se ela não vier no meu nome ou, ao menos, aos meus cuidados. Se o serviço de entrega ou o correio não encontram o nome na porta, a coisa é devolvida ao remetente.

Já desisti de entender a lógica dos endereços por aqui e, quer saber, aprendi a aproveitar essa complexidade. Deve ter alguma lógica escondida em algum lugar, mas até hoje não a encontrei. Então simplifiquei as coisas. Como eu não chego atrasada – e odeio que se atrasem também! – saio bem mais cedo de casa quando estou indo a primeira vez em algum lugar e aproveito a possibilidade de me perder. Nessas idas e vindas sem saber exatamente aonde, já vi muita coisa bonita, fiz fotos muito legais e descobri que o melhor mesmo de uma cidade dificilmente faz parte dos roteiros turísticos.

Na verdade, andar perdida é mais ou menos um resumo da minha vida. Não perdida naquele sentido maldoso que se usa por aí. Prefiro pensar em perdida como sinônimo de solta, livre e sem amarras. Meu futuro, por enquanto, é com um endereço alemão anotado em um papelzinho. Sei mais ou menos onde quero chegar, mas não faço a menor ideia de em que ponto do caminho fica esse lugar. Mas não me preocupo muito: prefiro viver a vida sem GPS. Aprendi que quanto mais me perco, mais me encontro, mais descubro, mais me descubro. E faço isso desde o dia que tive que encontrar meu primeiro endereço aqui.

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comentários

Comentários (10)

  • Bernadete Kertzendorff diz: 21 de agosto de 2015

    Olá Ivana, falei com algumas pessoas que moraram na Alemanha e comentaram sobre esta dificuldade de encontrar endereços e lugares. É verdade que o povo alemão não gosta muito de dar informações? Abraços.

  • Marcos diz: 21 de agosto de 2015

    Bernadete, morei em Bonn quando ainda era a capital e, no começo não me importava em dar informações. Depois de um tempo (e de muitas informações) fui ficando sem paciência e incorporando o jeito pragmático alemão e sempre pensava: “porque as pessoas não compram um mapa?”, rsrs…

    No interior da Alemanha nunca tive nenhum problema, muito pelo contrário, o pessoal é, em geral, muito solícito. Já em cidades maiores é meio que um loteria.

    Aqui em Blumenau já senti que a cada Oktoberfest é assim: no começo tenho toda a paciência do mundo mas quando a festa está acabando a minha paciência também está. Imagino que os berlinenses sigam a mesma linha…

  • Julio Schmitt diz: 21 de agosto de 2015

    É verdade, a sistemática da numeração dos endereços na Alemanha é meio confusa e no Brasil é geralmente fácil achar, tanto de carro quanto a pé (contando passos, se for necessário). Única vantagem da sistemática na Alemanha que dificilmente passa da casa das centenas enquanto no Brasil vai às vezes nas dezenas de milhares – quase precisando ampliar a casa para acomodar o número com tamanho adequado.
    Que tal comentar num blog futuro como os costumes ao telefone? Pessoas ligando para um número conhecido, pessoas conhecidas. E o que dizem? É quem? Kkkkk.

  • Marcos diz: 21 de agosto de 2015

    Comece (se já não começou) a escrever um livro!
    Me envolvo com seus textos. Vá em frente!

  • Joerg G.Chromy,D-78467 KONSTANZ-Alemanha diz: 22 de agosto de 2015

    Hahahahaha,porqué naum usando um simples mapa da cidade ???
    Mesmo as minhas visitas de Minas-Gerais,achandos a minha casa
    aqui de-carro aluguel !
    Pior no Brasil,sendos os enderecos de Ruas sem-número ai,no
    interior ! Ou nomes de Fazendas em pleno-pasto !
    Um conselho: antes de rodando de BICI pela cidade,olhando antes
    no mapa da-cidade,como Eu faco tambem em rotas de aviador
    em terras desconhecidos no Brasil,mesmo no Aeroclube-Blumenau
    no Quero-Quero,kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk !!!!!!!!!!!!!!!

    Bom fim de-Semana

    J.G.Chromy
    PP-24.276 ANAC-DAC

  • ISAIAS GIRARDI diz: 23 de agosto de 2015

    Olá, Ivana. Além da advocacia, também sou músico nas horas vagas. Gosto da música alemã, tenho inúmeros cds e muitas gravações musicais da Alemanha. Pergunto? Quem são os Roberto Carlos, os Caetanos, Gils, enfim os maiorais que se encontram no topo do sucesso musical na Alemanha?
    Abraços.

  • Isabel diz: 25 de agosto de 2015

    Então somos duas a gostar de se ¨perder¨. Eu só anoto o destino certo e certeiro quando ando de táxi. Hehe

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