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Alemanha, Tatort e eu: canecas gigantes de cerveja escondem noveleiros de plantão

24 de agosto de 2015 5
A casinha verde bem que  mereceu virar cenário, né?!?!?

A casinha verde bem que mereceu virar cenário, né?!?!?

Abro esse texto confessando minha total falta de brasilidade, a considerar os estereótipos: não sei sambar, não gosto muito de carnaval, até que entendo de futebol, mas nunca fui fã de novela. Me perdoem, se puderem. Quando eu era pequena eu assistia novelas com a minha mãe e, por vontade própria, a última que acompanhei foi O Clone: não a reprise, a exibição original. Eu estava nos finalmentes da faculdade naquela época, estudava a noite e, junto com a sala inteira, fazíamos malabarismos para não perder os capítulos. A motivação toda é porque uma colega de turma fazia figuração como dançarina do ventre nas intermináveis cenas festivas da trama.

Me permiti essa digressão de memória para chegar até a Alemanha e dizer que, por traz do amor a cerveja e a salsicha, se esconde um povo noveleiro, mas que não assume. Não me perguntem quais estão passando agora: mal ligo a tv. Mas já conheci até um ator famoso de uma das tramas: um alemão-turco chamado Tayfun que faz o papel de um turco na Alemanha que se chama Tayfun em Gute Zeiten, schlechte Zeiten (Bons tempos, maus tempos, em uma tradução aproximada). É, a vida imita a arte.

Mas tem outra coisa que os alemães gostam muito, muito mais do que novela: a série criminal Tatort (algo como cena do crime). A prova disso é que o programa está no ar desde 1970! É certamente a produção mais famosa da televisão por aqui, não só na Alemanha, mas também na Áustria e na Suíça. A coisa toda funciona assim: são nove emissoras regionais parceiras que produzem a série e cada uma tem seu próprio elenco. Cada episódio de 90 minutos conta um crime e sua investigação: tem começo, meio e fim. A história se passa em uma das cidades parceiras ou arredores.

Existe uma disputa bem grande e uma rivalidade ainda maior para ver quem faz o melhor episódio. Mas como brasileiro faz com as novelas, nem todo mundo se assume fã por aqui. No entanto, é só perguntar para qualquer um na segunda-feira sobre o episódio do dia anterior: todo mundo viu. Vários bares exibem Tatort e, escondidos atrás de canecas gigantes de cerveja, os alemães reúnem os amigos para o “ritual” dos domingos, as 20:15.

Hoje em dia, até assisto, mas juro que mais por um experimento social do que por desejo. Mas a série não me deixa desistir dela: deve ser uma maldição. Confesso que fui saber que Tatort existia depois de alguns anos morando na Alemanha e de uma maneira bem inusitada.

Eu morava em Weimar há poucos meses quando recebi uma carta de uma equipe de filmagem pedindo minha casa emprestada. Emprestar a casa? Como assim? Ignorei a carta. Recebi outra. Pediam para usar a minha casa (que tinha sido construída em 1632) para fazer as locações de uma série de tevê. Ignorei a segunda carta, a terceira, e todas as outras. Em um dia qualquer acompanhei, pela janela, todo o vaivém e o zunzum das filmagens: achei que eram os alunos da faculdade de artes inventando alguma coisa.

Esqueci do causo até que um dia comentei com um amigo alemão que tinha estranhado a insistência da tal equipe de filmagens e ele me olha estupefato: O que? Pediram para gravar Tatort na tua casa e tu não deixastes? Pois é. Não deixei.

A minha sala escapou de ser cenário da série, mas a fachada aparece no vídeo ai de baixo, para quem ficou curioso. A cena está no minuto 54’43”. As duas janelas no alto, à esquerda do vídeo são do meu antigo quarto e quando a cena se passa dentro do carro, da para ver a porta da minha ex-casa. E, um detalhe: a rua de onde sai o carro não tem saída, embora a cena sugira diferente. Coisas da dramaturgia.

Quando me mudei pra Berlim, tive que fazer uma entrevista com o dono do apartamento. Entre perguntas sobre a minha vida e histórias sobre a dele – ele já foi deputado, reitor de universidade, é escritor e tem muita coisa para contar! – ele fala um pouco sobre os antigos moradores do apartamento que eu acabei alugando. “Eu comprei o imóvel de um ator que trabalha no Tatort”. Vai ver os riscos todos no assoalho são marcas de ensaio de tantos “crimes”…

Bom, o fato é que desde o tal episódio de Weimar eu não tinha visto mais nenhum, até esse domingo. Estava pensando em escrever sobre o assunto e fui ver um episódio na televisão. A história se passava em Stuttgart e quem morreu ou quem matou não vem ao caso. O mais legal de tudo foi que em uma cena em que um dos policiais leva até o aeroporto uma das mocinhas da história, ela conta que está indo pra Blumenau, uma grande cidade, onde ela planeja estudar a cultura e a língua alemã falada lá. Viu só: a arte também imita a vida!

Pra quem ficou curioso, o episódio desse domingo era reprise e está na íntegra no vídeo abaixo. A parte que fala de Blumenau fica no minuto 26’33”.

 

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comentários

Comentários (5)

  • Santirio diz: 24 de agosto de 2015

    TATORT pode ser acompanhado por aqui…
    http://www.ardmediathek.de/tv/Tatort/Tote-Erde-Video-tgl-ab-20-Uhr/Das-Erste/Video?documentId=30207214&bcastId=602916

    inclusive em ‘live-stream’…

    recomendo total…e nao tem nada a ver com ‘noveleiros’…
    é uma série policial ‘cult’…a pessoa precisa (além de entender alemão) ter um pouco mais de cérebro pra poder acompanhar…

  • thiago diz: 24 de agosto de 2015

    Boa tarde!

    Muito interessante o post.
    Enquanto no Brasil estão vendo Faustão, na Alemanha se está vendo uma série criminal. Uma diferença bem grande de gosto.

    Enfim … porque você não deixou filmarem na sua casa, algum motivo especial?

  • Isabel diz: 25 de agosto de 2015

    A Alemanha também dá mau exemplo. Nem tudo é tão honesto e perfeito assim como se ouve por aqui. Filmar casa de graça eu também não deixaria. Esse pessoal de televisão, filmes e similares se acham os donos do mundo seja no Brasil, na Alemanha, EUA, Oriente Médio, ou em qualquer parte do mundo. Sobre os noveleiros, na adolescência também perdia precioso tempo assistindo novelas por influencia dos adultos. Consegui me livrar do vício de assistir novelas. Ufa! Deu trabalho. Dá até para entender os viciados em cigarro, bebidas e drogas. Todo dia um pouco, vicia mesmo. Ainda mais na adolescencia quando o cérebro ainda está em formação. Tem adulto que surta se não consegue assistir todo santo dia. Imagina crianças e adolescentes…! O que não entendo hoje em dia é como, com tanta informação disponível sobre assuntos variados e interessantes, ainda há quem goste de ver brigas, ciúmes, traição, mortes, exploração do corpo da mulher e todo tipo de baixaria na televisão. Deve ter uma explicação também para canais de televisão exibirem tanta coisa ruim. Deve dar um bom lucro. As cervejarias, a indústria automobilísticas, moda e cosmétcos, bancos e afins, da Alemanha também patrocinam esses ¨imperdíveis¨ programas horrendos?

  • Sra. M diz: 26 de agosto de 2015

    A série que amei é “Der Letzte Bulle”. Tem toda uma trilha sonora anos 80, além de ser muito divetida. Adorei o humor alemão.

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