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Manual para ver o mundo: um guia prático sobre aprender com as diferenças, rir de si mesmo e ser feliz

27 de agosto de 2015 3
Quem fica parado, deixa a vida passar em branco...

Quem fica parado, deixa a vida passar em branco…

O Mario Quintana já dizia que “viajar é trocar a roupa da alma”. Nunca encontrei definição melhor para isso e, portanto, não mudaria nada. Só faria uns adendos. Eu ampliaria o sentido de “viajar” para todas as oportunidades que temos de ver o mundo, mesmo que seja a esquina da nossa casa. Já morei em cidade bem pequena aqui na Alemanha, daquelas que depois de uma semana se começa a reconhecer as pessoas na rua e, como eu gosto de novidades o tempo todo, achei que ia morrer de tédio.

Eu fazia sempre o mesmo caminho para o supermercado – que passou a ser a situação mais emocionante da semana, tamanha a falta do que fazer! –, ia sempre na mesma farmácia, andava pelas mesmas ruas. Até que um dia o meu caminho de sempre foi bloqueado por uma pequena obra na calçada e tive que atravessar a rua em um lugar que não tinha muita “lógica”. Foi aí que tudo mudou.

O simples fato de mudar o lado da rua revelou novas fachadas, detalhes nas janelas, a luz se refletindo de forma diferente e deixando a velha rua de sempre com cara de nova. Tomei isso por hábito: inclui alguns metros a mais nos caminhos para passar por ruas diferentes e depois de quase três anos, quando me mudei pra Berlim, conclui que não tinha visto a cidadezinha inteira. Ainda havia muito para descobrir.

É esse desejo de descobrir que nos faz viajar. É a busca da novidade que nos mantém jovens e vivos: quem fecha as portas para o mundo e se contenta em fazer sempre igual, morre um pouquinho por dia. E isso vale para tudo na vida: porque ver sempre a mesma novela, todos os dias, no mesmo horário? Ninguém perde o enredo por desligar a TV e olhar pela janela uma vez ou outra.

O mesmo vale para quem percorre as prateleiras do mercado e leva para casa sempre as mesmas coisas. Para quem torce o nariz para uma comida nova, para quem faz tudo sempre igual porque aprendeu a fazer assim e simplesmente se recusa a ver que existem outras maneiras. Claro que muitas vezes nos adaptamos ao que achamos melhor, mas só podemos dar esse título a algo que extinguimos as variações.

Um exemplo bem simples? Conheço uma pessoa que, se pudesse, só comia polenta, frango e salada. Ela não gosta de outras coisas e torce o nariz para qualquer uma que fuja do repertório de cinco pratos que ela come desde a infância. E não me refiro a trocar um bom PF por uma frescura gourmet: já falei aqui e repito que provavelmente a coisa que mais amo nesse mundo é arroz com ovo. Mas voltando ao prato: polenta é farinha de milho, logo, façamos tacos! Recheie o taco com o mesmo frango em tirinhas, coloque a salada e: tchammm! Hicimos comida mexicana! Uma mordida no taco e nos transportamos para o mundo dos Mariachis.

A coisa toda fica ainda melhor se, em vez de só comer abacate com açúcar, usarmos os abacates do quintal para fazer guacamole. Percebeu a simplicidade da coisa? Não tem nenhum ingrediente novo no prato, mas a forma diferente de fazer, ver e comer proporciona uma viagem. Mas isso só acontece quando a gente aceita ver o mundo por novas perspectivas, quando a gente atravessa a rua da zona de conforto.

Então, nesses anos de nômade pelo mundo, colecionei algumas regras bem simples e quero dividir. Pode começar a seguir uma de cada vez e elas valem aqui na Alemanha ou em qualquer lugar do mundo. Garanto que a cada uma que se segue, a vida fica mais feliz.

  • Só diga que não gosta de uma comida depois de ter provado pelo menos três vezes em diferentes lugares. Talvez você não goste do tempero na primeira vez, mas curta a forma como o prato foi feito na outra.
  • Sorria para todo mundo que olha por mais de três segundos: talvez você não lembre da pessoa, mas ela lembra de você. Ou talvez nem te conheça, mas você faz com que ela se lembre de alguém querido que ela não vê há anos. Talvez ela só precise de um sorriso. Não custa nada e vai te fazer feliz também.
  • No fim de cada estação, doe todas as roupas que não usou. Se comprar um sapato novo, doe o par que menos usa e que está no armário. Pratique o desapego.
  • Não tente mudar ninguém: aprenda a conviver com as diferenças e enriqueça com as múltiplas formas de pensar e ser. Escute as histórias, entenda que cada um é assim por uma soma infinita de motivos e acontecimentos. Esqueça a palavra “normal”: pense que para muita gente nesse mundo os seus hábitos são esquisitos. É tudo uma questão de ponto de vista.
  • Leia ao menos um site/blog de alguém que publique opiniões contrárias as suas: se é de esquerda, leia também notícias de direita e vice-versa. Só quem conhece os argumentos discordantes pode buscar informações para refutá-los e estabelecer um diálogo saudável.
  • Sempre que puder mude o seu caminho e faça coisas diferentes. Nem que seja caminhar a mesma rua pelo outro lado da calçada: mudar a perspectiva com que se vê uma paisagem é uma experiência transformadora.
  • Desligue a televisão quando não estiver efetivamente assistindo. Faça as pazes com o silêncio, aprenda a ouvir os sons que vem da rua, deixe os pensamentos falarem alto e cante, cante sempre que puder, mesmo que seja desafinado. Perca a vergonha de si mesmo: seja diferentemente único e mais feliz.

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comentários

Comentários (3)

  • Carlos diz: 27 de agosto de 2015

    Por algum tempo da minha vida, convivi com pessoas de mais idade (nem todos idosos, alguns apenas com alguns anos a mais), e em um dia resolvemos fazer uma dinâmica de grupo. Fizemos a seguinte brincadeira: Se pudesse voltar no tempo, e dar um conselho com apenas duas palavras, o que você diria?

    Muitos falaram: “Mais filhos”, “Viva plenamente”, “Estude mais”, e em determinado momento, um senhor falou: “arrisque mais”.
    Acho que isso me traduziu um sentimento de que devemos fazer e tentar coisas novas todos os dias, como você comentou, atravessar a rua já te deu novas perspectivas, e hoje vemos adolescentes indo caminhar com o pais ou amigos com o celular ligado o tempo todo e nem aí para a paisagem ou com quem estão, estão apenas, conectados.

    Tomei as palavras daquele senhor pra mim, e hoje, quando vejo que posso arriscar mais em algo, investir mais do meu tempo em algo que eu acredito, eu faço. Não penso. Realmente, sigo instintos e se quebrar a cara, paciência, amanha é um novo dia, uma nova perspectiva.
    Não me confino a salas de televisão, ficar sentado no sofá em um domingo a tarde, ou na internet, tiro pequenos momentos pra mim.

    Muito bons os tópicos que você citou no final Ivana, realmente são pequenas coisas que mudam a maneira de como você trata e é tratado!
    Abraço!

  • Marcos diz: 27 de agosto de 2015

    Duas coisas que acho muito boas na Alemanha (pelo menos no meio em que convivia):
    - Não se assiste a mais do que uma hora de televisão por dia;
    - O que os outros fazem, vestem, escutam, desde que não te atrapalhe, diz respeito somente a eles.

    De uma forma geral, dá-se muita importância à TV no Brasil. Talvez por isso mesmo é que pode-se “dar um direcionamento” à opinião pública de forma mais simples quando se usa esse meio de comunicação.

    Bem interessante teu post! É bom para fazer pensar…

  • Sra. M diz: 28 de agosto de 2015

    Fico encantada com a forma que vc escreve. Parabéns, seus textos são muito bons.

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