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Refugiados na Alemanha: a diferença está no empenho de cada um, inclusive o seu

04 de setembro de 2015 6

Foto: STR / DOGAN NEWS AGENCY

 Compartilhar essa foto não muda nada: fazer sua parte, sim!

Compartilhar essa foto não muda nada: fazer sua parte, sim!

Eu moro em um bairro tranquilo da cidade, embora esteja no Centro de Berlim. Perto da minha casa tem um parque que eu sempre corto quando vou ao mercado. De um dia para o outro começaram a aparecer pessoas diferentes por lá, além dos habituais frequentadores. Primeiro foram homens, em sua maioria jovens, sentados com o olhar perdido no nada. Depois, começaram a aparecer mulheres e crianças. Passavam os dias por lá, com uma mala ou sacolas improvisadas e os pequenos em volta. Eram os sírios começando a chegar a Berlim.

Só este ano 800 mil pessoas devem pedir asilo na Alemanha e, em Berlim, eles precisam dar entrada em toda a sua papelada em um centro que fica a poucos quarteirões da minha casa. De um dia para o outro o bairro pacato se viu diante de centenas de pessoas dormindo no chão, enfileiradas por dias a fio para não perderem a vez nos corredores da burocracia. Sem teto, sem comida, sem água. A situação ganhou a capa dos jornais e a resposta das ruas veio muito antes do governo perceber o tamanho da crise.

Em um dia, as doações que chegaram foram tantas que o grupo de ajuda organizado no Facebook começou a pedir que as pessoas parassem e organizou uma lista on-line com as necessidades do dia. Os berlinenses, de nascimento e adoção, responderam imediatamente: a ajuda partiu de pessoas para pessoas. O governo alemão levou dias para se pronuniar, mas agora tem feito sua parte e dado o exemplo para a Europa. O país já foi ajudado em diferentes momentos de sua história e entende claramente que chegou a hora de retribuir.

No pátio desse centro de triagem as cenas são comoventes e o movimento dos voluntários é grande. Grande também é o número de pessoas por lá, deitadas no gramado, com a cabeça apoiada no pouco que tem e os olhos perdidos no horizonte. Há muita esperança, mas poucos sorrisos: recomeçar com uma sacola com meia dúzia de pertences e uma família toda pra alimentar é um ato de coragem tão grande que deixa claro o tamanho do medo de quem partiu.

Uma minoria neonazista tem protestado e fala de uma invasão islâmica. Colocaram fogo em espaços que estavam sendo preparados para os refugiados, mas para cada ato da direita, as ações de boas vindas se intensificam. A tragédia síria tem servido também para a Alemanha se redescobrir como país solidário e as cidades de Norte a Sul correm para deixar prontos espaços para abrigar quem chega: o inverno alemão não entende o drama e não se pode acomodar ninguém em barracas com termômetros abaixo de zero.

Uma cena que vi na rua hoje, enquanto caminhava ao centro de refugiados para levar umas coisas, resume pra mim o que se passa na Alemanha agora. Era hora do almoço e um homem de meia idade caminhava pela calçada nas imediações do centro quando uma senhora, coberta de véu, cruzou olhares com ele. No mesmo segundo ele dividiu o sanduíche que estava comendo ao meio, deu metade a ela e seguiu andando. A cena não durou 20 segundos, mas são intantes que revelaram mais sobre a índole alemã do que os sete anos que vivo aqui.

E empatia que tocou o homem na rua parece, finalmente, ter chegado ao coração das pessoas. O mundo acordou para o problema quando a foto do menino sírio de três anos morto em uma praia da Turquia ganhou a capas dos jornais. A foto toca de uma maneira profunda e por isso está nesse post. A comoção se deu por um menino de pele clara, bem vestido e que as pessoas que estatisticamente tem mais dinheiro no mundo enxergam como alguém que poderia ser o filho, o sobrinho, o neto, o vizinho. A sua morte deu uma dimensão mais próxima a tragédia que, até então, tinha apenas o rosto de homens de barba, mulheres com véu e a pele negra de somalianos, eritreus, nigerianos, sudanesese e dos próprios haitianos que tentam escapar de suas próprias tragédias. Mas a maioria parece não enxergar  todos com a mesma compaixão.

A cena tão dolorosa desta foto é para que você saiba que tem que fazer sua parte também. Que a empatia pelo menino sírio se estenda a todos os que pedem a nossa ajuda e que sirva para desconstruir preconceitos. Que no Brasil, ajudemos não apenas os sírios que ainda chegam em minoria. Nossos refugiados vem do Haiti e passam por privações tão severas e desumanas quanto os sírios marcados com números na Hungria. Compartilhar as fotos do menino morto pelo Facebook não é solidariedade: doar roupas, casacos, comida, oferecer empregos, organizar aulas de português para os haitianos e africanos de diferentes países é.

Faça trabalhos voluntários, doe para uma instituição séria de ajuda, pague as pessoas que trabalham para você de forma digna. Plante frutas no quintal e divida o que colher, trate bem toda e qualquer pessoa, sorria, cumprimente, ajude sempre.  Sejamos solidários com quem chega a nossa porta, quer seja um menino sírio de três anos, quer seja um jovem haitiano, uma mãe senegalesa em busca de uma oportunidade ou aquela família no fim da rua cujo o pai perdeu o emprego.

Quanto aos sírios, se a guerra acabar, é provavel que muitos deles queiram voltar para o seu país, reconstruir suas vidas onde nasceram e no lugar que chamam de casa. A Alemanha é linda, mas não é exatamente um país fácil para se adaptar: existe a barreira da língua, os invernos rigorosos, a distância da família que sobreviveu, dos amigos que se perderam no mundo, dos costumes. O que vai ser no futuro, ninguém sabe. O que importa agora é que essas pessoas têm um futuro pelo simples fato de estarem vivas e aqui. Aos mortos, só restam as velas.

 

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comentários

Comentários (6)

  • LUCIANO DE BLUMENAU diz: 4 de setembro de 2015

    “Quanto aos sírios, se a guerra acabar, é provavel que muitos deles queiram voltar para o seu país, reconstruir suas vidas onde nasceram e no lugar que chamam de casa”……………Posso até concordar ! Mas do jeito que essa guerra já vem do tempo de Maomé, irão morrer esperando ! Isso nunca irá acabar ! O jeito é declarar guerra contra este extremismo religioso, pois como podem ver…….a galera do mau não quer nem conversa !

  • Charles diz: 4 de setembro de 2015

    Lindo texto Ivana.
    Mais ações, menos preconceito. Só assim para ajudá-los !

  • Melanie Ribeiro diz: 5 de setembro de 2015

    Eu te leio muito, “Alemoa”. Gosto do seu jeito direto de escrever. Sou uma carioca que morei em Blumenau por 15 anos. Em 2008 eu estava lá… Aprendi o que significa trabalho voluntário, ajuda humanitária e etc…

    Parabéns!! Hoje você se superou na profundidade do texto. Foi algo escrito com alma, com dor, mas também com uma visão de profunda esperança.

    E eu escrevi hoje algo para você no meu perfil do Facebook que acho que você vai gostar de ler (escrevi e linkei seu texto):
    ~~~~~~
    UM RELATO PESSOAL:
    Morei por 15 anos em Blumenau/SC e lá eles têm uma cultura ” quase germânica, mas tão blumenauense…” herdada dos descendentes de antigos alemães imigrantes.
    Eu vi muito bem como se comporta a maioria das pessoas nas grandes tragédias . Blumenau tem enchentes constantes e eu vivi lá umas 3. A de 2008 foi a pior, a mais grave e a que comecei a entender aquele povo bonito. Era quase uma vergonha se você não participasse de alguma forma de trabalho voluntário.
    “Fala Alemoa” é um blog relacionado ao Jornal de Santa Catarina, escrito por Ivana Ebel, uma “alemoa” nascida em Blumenau que mora em Berlim.
    Por favor, cliquem no link e leiam como a Alemanha tem se comportado com os imigrantes.
    Eu me enchi de orgulho por ter morado em Blumenau. Os alemães são secos, burocráticos, mas festivos e solidários, muito solidários!!!
    ~~~~~~
    PS: Você me fez chorar! Obrigada, “Alemoa” por nos encher de esperanças!!! Namastê _/|\_

  • Cilço Luiz Rufino da Silva diz: 5 de setembro de 2015

    Tudo é muito bonito e simpático quando não vivemos os problemas, nem na defesa ativa nem na passiva,As guerras existentes no planeta atinge , de certa forma a todos nós. Alguém tem culpa?
    Claro , tem , sim, mas quem?
    Todos nós, especialmente as organizações internacionais, sendo a principal a ONU. Escrevi uma petição para uma organização internacional , AVAAZ, para que eles encaminhassem para o Secretário Geral da ONU, após enviarem para todos os filiados, que são milhões, segundo informações da própria AVAAZ, tenho recebido vários tipos de petições de membros desta organização, tendo assinado a maioria delas, no entanto a minha não apareceu um só membro para assiná-la, exceto minha mulher, mas foi recusada pela própria organização, quer dizer , a organização não quis enviá-la. Imediatamente me desfiliei.
    Entendo que o planeta não pode conviver mais com este tipo de guerra selvagem, a humanidade já alcançou um grau de civilização que não suporta mais esta violência, A ONU deveria reunir todos os chefes de Estados filiados e promoverem uma paz consensual , ou mesmo forçada, , deveriam ser levados todos os responsáveis pelas atrocidades ao Tribunal Internacional para responderem por seus crimes contra a humanidade, por exemplo, na Síria, o Sr. Bachall El Assad insiste a permanecer no poder para a eternidade, o restante do mundo se mostra omisso, os
    a imprensa internacinal sequer o cometa em seus ofícios- covardes, sim , mas não é somente ela ou os “plenipotenciários” da ONU, de fato somos todos os demais, de certa forma todos somos responsáveis por todo o mal que existe no planeta e não somente as guerras, somos cheios de defeitos, preconceituosos, preguiçosos e covardes, insistimos por uma vida eterna, quando na realidade ao nascermos já estamos morrendo, sim ,pensem bem: quantos anos temos de vida? 150? numa hipótese otimista, já que a internete noticia que teve um chinês que viveu 256 anos. O Sr. Bachal Assad pensa que viverá presidente de uma nação para a eternidade?
    Vai é levar uma “pazada de barro pela s fuças”, logo, logo, veja lá o exemplo dos seus colegas Sandan Housein e Kadaf, até alguns dos filhos deles novinhos sucumbiram junto.

    Podemos sim, forçar a paz, vai ser bom para todos!

    Nós?
    Os Brasileiros, os alemães e tantos outros povos , não precisamos nos apouquëntar, aqueles não precisam correrem para a miserabilidade, pedir socorro a ninguém, podemos morrer num possível combate?
    É, até podemos, mas reacionários, desumanos e crueis, ambiciosos ao extremo, ditadorzinhos de merda, não vão causar tantos danos à humanidade.

    É tão simples: A ONU reúne os chefes de Estados ,todos fornecem homens e armas, equipamentos tanto de guerra como para socorro da população civil, ordena aos contendores pra cessarem as hostilidades, não atendidos força-os pelo uso das armas a acabarem com as guerras, levando os responsáveis às barras da justiça, válido também para Israel, porque eles não são os donos de Deus, alias o que eles denominam de Deus, nada mais são que extraterrestres, sim, os anunakis, que certamente já estão bem aborrecidos com eles também, de qualquer forma eles também deve ser tratados com bondade, pois são um dos povos mais inteligentes da terra, basta consultar-se os premiados do Nobel(???)

  • Thais diz: 9 de setembro de 2015

    Lindo o seu texto, obrigada por dividir conosco! Estando aí pode relatar o que a TV não relata aqui no Brasil. Para nós é um problema distante, mas nosso coração já se dilacera, pois temos milhares de pessoas, brasileiros, que vivem nas ruas ou em condições indignas. Talvez seja a hora da Europa ajudar estes países, assim como no passado milhares de Europeus foram recebidos até mesmo no Brasil.

  • Tânia diz: 11 de setembro de 2015

    Parabéns pelo texto. Me senti representada e tocada por ele. Também quero te parabenizar pela forma corajosa e ética como vem tratando o tema dos imigrantes ou refugiados.

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