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Refugiados na Alemanha: quando a guerra bate na sua porta, qualquer outro assunto perde a importância

21 de setembro de 2015 5
Junto com as malas, o colete salva-vidas, lembrança de uma travessia perigosa da Turquia para a Grécia

Junto com as malas, o colete salva-vidas, lembrança de uma travessia perigosa da Turquia para a Grécia

Eu ando sumida, eu sei. Mas de repente me faltaram as palavras e os motivos para escrever. Parece que qualquer tema é pequeno, tolo e não merece espaço no papel, na minha vida, na minha cabeça. De repente, as ruas de Berlim que pareciam alegres, voltaram a ser cenários de guerra. Não há bombas e nem tiros, mas a gente jogada na rua à espera de uma ajuda mais lenta do que a necessidade.  No parque onde antes fazíamos churrasco, há mães dormindo com filhos sob as árvores enquanto o céu se fecha e a chuva e o frio chegam.

De repente, não consigo mais achar graça nas diferenças culturais e nem as folhas de outono chegando, o que sempre me trouxe inspiração, me animam. É a guerra que está por todo o lado. Fui a uma conferência acadêmica na Grécia e cheguei a uma cidade pouco turística junto com centenas de refugiados. Cheguei de avião, eles sobreviveram ao mar. Nos banheiros, mães sírias lavavam os filhos como podiam, trocavam as roupas, compravam comida com as moedas que os coiotes não levaram. E enquanto esperavam por um ônibus para a Alemanha, coisa que eu nem sonhava que existia, sentavam com olhares perdidos. No meio das malas, o colete salva-vidas.

A Alemanha, que anunciou o controle das fronteiras, só o faz para quem vem por terra. O governo trabalha na construção de mais e mais espaços improvisados para abrigar tanta gente. Os neonazistas se esforçam para queimar tantos quantos alcançam. Mas por mais que o Estado trabalhe, a guerra dos outros virou nossa também. Deveria ser do mundo inteiro, mas não é. E é ela que eu vejo quando saio da porta da minha casa em Berlim.

Já fui ao centro de refugiados algumas vezes para levar isso ou aquilo e minha impotência se torna ainda mais clara. Me perdoem, leitores: a vida dessa gente toda é muito, muito mais importante que qualquer coisa e todos os meus pensamentos estão com essas pessoas agora. Não há, aqui, espaço para falar de festa, chope e salsichas por enquanto: a guerra está na minha porta e tudo o que a minha impotência permite que eu faça é chorar.

No parque, refugiados dormem ao relento: crianças e adultos, muitos doentes, estão pelas ruas

No parque, refugiados dormem ao relento: crianças e adultos, muitos doentes, estão pelas ruas

 

Ps.: Para quem está lendo esse post de Berlim, aqui tem uma lista atualizada várias vezes ao dia até, sobre como ajudar os refugiados que chegam ao LaGeSo, no Moabit. Trata-se do lugar onde é feito o cadastro inicial de quem chega. Para quem está longe, há também instruções sobre como doar, caso alguém queira. Mas como já falei aqui, a ajuda pode (e deve!) começar com as pessoas que estão do nosso lado…

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comentários

Comentários (5)

  • Gerson Luiz diz: 21 de setembro de 2015

    O mais irônico é que a Alemanha é um grande fornecedor de armamento bélico para muitos desses países que estão em guerra. No ano passado, inclusive, bateu os recordes de exportação desses “produtos”.

  • Andreas Kegel diz: 21 de setembro de 2015

    Que atire a primeira pedra aquele que não tem uma história de imigração na família… E muitos terão, ainda, histórias de refugiados de guerra também….

  • Fabiana De Luca diz: 21 de setembro de 2015

    Parabéns pelo texto, pela sensibilidade e pela importância que você deu ao ser humano, seja ele de onde for.

  • Miriam A. diz: 21 de setembro de 2015

    Tenho o mesmo sentimento, quando estou muito envolvida no meu dia a dia, “nos meus dilemas” e leio sobre esta guerra, as crianças, as mortes, tudo perde o sentido, desanimo, choro, penso no quão egoísta sou nos meus sonhos, sendo que estas pessoas só tem um gramado para deitar e quem sabem devem estar um pouco felizes por ao menos
    o ali estarem em “paz”

  • Antonio diz: 23 de setembro de 2015

    Os fabricantes e vendedores de armamento pesado responsáveis por este caos: EUA, Rússia, Alemanha, China, França , Reino Unido e Israel. Seus líderes estão sorridentes nos encontros de G-7, G-8 , beijando a mão do Papa, etc….

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