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Quer morar fora? Faça antes o teste e descubra se você está preparado!

23 de setembro de 2015 7
Para viver na Alemanha é preciso aceitar que os valores culturais são diferentes

Para viver na Alemanha é preciso aceitar que os valores culturais são diferentes

Eu já teria feito um bom pé de meia se recebesse 1 Euro para cada pessoa que me pergunta sobre como sair do Brasil. Mas se tem uma coisa que aprendi em sete anos vivendo na Alemanha foi a de que nem todo mundo nasceu para viver longe de casa.tweet_blue Não se trata de uma questão financeira ou intelectual. As pessoas são diferentes umas das outras. Tem quem jamais tenha pensado em sair, mas tem que acha que esse é o sonho da vida e, depois, descobre a duras penas que não era bem isso.

Assim, a prática e as histórias colecionadas ao longo dos anos me permitiram elaborar um teste, digamos assim. Não tem qualquer fundamento científico e é basicamente uma brincadeira, mas pode ajudar quem está querendo tomar essa decisão de chamar a Alemanha de lar doce lar. É simples: responda as perguntas com um sim ou não.

  1. Você prefere ir ao cinema para ver filme dublado, porque não tem paciência de ler legenda e acha um saco estudar inglês.
  2. Você vai visitar um parente e chega logo depois do almoço, quando as pessoas da casa ainda estão limpando a cozinha. Você observa que a louça está sendo lavada de forma diferente da que você costuma fazer e isso incomoda.
  3. A sua camisa preferida perdeu um botão e você vai ter que deixar ela aposentada até que alguém possa arrumá-la para você.
  4. É domingo e você esqueceu de comprar leite. Aliás, esqueceu de comprar também pão, queijo, sal, café e tomates. Como você nunca planeja antecipadamente o que vai precisar, pega o carro e vai até o mercado mais próximo e resolve na hora.
  5. Aliás, você precisa do carro para tudo.
  6. Você adoraria chamar seus amigos para um jantar, mas não sabe fazer nada além de macarrão instantâneo.
  7. A casa está completamente bagunçada, a roupa para lavar acumulou, o lixo está começando a cheirar mal e você precisa encontrar urgentemente alguém que possa dar uma limpada em tudo.
  8. Você fica contando os dias para voltar de uma viagem de trabalho de uma semana porque já não aguenta mais de saudade dos amigos, da sua cama, do gato, do papagaio.
  9. Você foi de férias para outro Estado e achou tudo muito esquisito por lá. Especialmente a comida: as pessoas de lá comem de forma muito estranha.

Bom, a resposta é a seguinte. Quanto mais vezes você se identificou com as frases acima e respondeu sim, mais dificuldades vai ter para se adaptar longe de casa, especialmente na Alemanha e já explico o porquê.

(1) Você vai ter que ler muito para encontrar toda a informação que precisa, vai ter que ler pra se orientar, vai ter que falar uma língua que não é a sua o tempo todo. (2) Alemães lavam a louça com meia pia de água e é isso: as tarefas domésticas são feitas de forma bem diferente. (3) E por aqui, todo mundo tem que se virar: não só pregando o botão, mas montando os próprios móveis, instalando torneiras, fazendo pequenos reparos na casa. (4) Na Alemanha, o comércio todo fecha aos domingos e sem planejamento você fica sem comida em casa. (5) Você vai ter que aprender a usar o transporte coletivo para tudo e a cozinhar para si e para os amigos, já que (6) comer fora sempre pode sair caro e para matar a saudade de alguns pratos, só fazendo. (7) Ter empregados é algo fora do padrão: todo mundo limpa a própria casa. (8) Você vai enfrentar tudo isso longe da sua família, dos amigos por meses ou mesmo anos e, (9) vai ter que aprender a comer porco com batata de qualquer maneira.

Para ver o mundo é preciso estar disposto a abrir mais do que os olhos: é preciso abrir a cabeça e aceitar que as suas regras não têm necessariamente qualquer valor no novo contexto, que os hábitos são outros, que mesmo tarefas cotidianas são executadas de forma diferente. É preciso estar disposto a se despir de velhos hábitos e aceitar novas vivências, de entender que certo e errado são conceitos bem elásticos e relativos.

A primeira regra para morar fora é aceitar desde o primeiro momento que você é o visitante:tweet_blue que a cultura e os valores sociais do país que você escolheu para viver existem muito antes do seu avião chegar ao aeroporto e vão continuar existindo quando você partir. Não existe nada pior do que brasileiro que passa o dia criticando como o alemão faz A ou B. Sim, muita coisa é diferente e foi por isso que escolhi viver fora: para aprender que existem outras formas de pensar, de fazer, de viver e que não são piores e nem melhores porque não fazemos igual. São apenas diferentes.

Isso quer dizer que quem vai ter que se adaptar é você.  Isso significa que vão aparecer inúmeras dificuldades e você tem que estar preparado para resolvê-las. Emprego é uma delas. Sem falar a língua do país é muito complicado. Sem falar no mínimo inglês, é quase impossível. “Ah, mas o primo do vizinho do cunhado do amigo do meu compadre foi para aí e se deu bem”. Sorte a dele. Mais sorte do que juízo. No entanto, o fulano veio, gastou as economias e voltou. O sicrano foi explorado até a alma por estar ilegal e foi deportado. E o beltrano nem sequer conseguiu passar pelo controle de fronteiras.

Antes de sair pelo mundo é preciso traçar um plano. Ainda mais se a intenção é viver em uma cidade que está na moda como Berlim: com alugueis cada vez mais caros e dezenas de pessoas disputando cada apartamento que aparece no mercado, empregos cada vez mais escassos e empresas se beneficiando disso como atração para estágios não-remunerados.  O plano tem que ser bem traçado. Pode ser para estudar ou até mesmo trabalhar: mas os contatos e a organização têm que ser feitos muito antes de afivelar as malas.

“Oie! To pensando em ir pra Berlim semana que vem e to suuuuuuuperrrr animado! Vc sabe de algum apartamento em Keuzberg ou Prenzlauerberg por até 300 com tudo incluído? Se for com sacada melhor, claro! É muito difícil conseguir emprego sem falar alemão? Ah, meu inglês também não é muito bom, mas eu tava pensando em trabalhar com fotografia, fazer umas exposições”.

Mensagens como essa chegam ao meu e-mail com mais frequência do que deveriam. Elas também aparecem diariamente nos grupos de brasileiros nas redes sociais. E para quem está pensando em sair do país com um plano desses, vou antecipar meu conselho mais sincero: não venha. Pesquise antes sobre o mercado de trabalho na sua área, como é o reconhecimento dos diplomas, entenda as regras, se informe sobre moradia, universidades, deixe o inglês afiado e se matricule em um curso de alemão hoje mesmo: isso tudo ajuda a aumentar (e muito!) as chances de adaptação. E fora isso, se der tempo, aprenda a gostar de salsichas!

 

Ps.: Antes que comecem a me apedrejar por ter usado o exemplo da fotografia, poderia ser qualquer outra opção relacionada a área criativa. E que fique o registro: em 20 anos de jornalismo conheci menos de dez fotógrafos e algumas centenas de apertadores de botão. Passar batom borrado e fazer foto fora de foco em PB com meia dúzia de filtros no Instagram não faz de ninguém um artista.

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comentários

Comentários (7)

  • Janete da Costa Thies diz: 23 de setembro de 2015

    Muito bom o sei texto. E sobre a profissao de jornalista. Como é na alemanha? O diploma é aceito? E como é os horarios de trabalho e a remuneração?

  • Joatan diz: 23 de setembro de 2015

    A resposta ao comentário acima está no próprio texto “Pesquise antes sobre o mercado de trabalho na sua área, como é o reconhecimento dos diplomas, entenda as regras”. Fico impressionado com a falta de interpretação de texto e vontade das pessoas. Ou é ironia ou preguiça mental…

  • Guilherme diz: 23 de setembro de 2015

    Ótima matéria e realmente faz bastante sentido, so faltou um ponto quando o assunto é sair do Brasil e vir pra Alemanha que eu descobri que tem um efeito muito intenso na vida de alguns dos brasileiros que se aventuram por aqui:
    A chegada do outono e o inverno rigoroso. Antes de vir pra cá fiz algumas entrevistas e conversas informais com pessoas que aqui haviam morado e um dos principais motivos – se nao o único do retorno ao Brasil . era o fato de nao se ver muito sol durante tantos meses seguidos e as chuvas.
    Sempre gostei do sol, mas isso nao foi motivo para me fazer desanimar ;-)

  • Márcia Heringer diz: 23 de setembro de 2015

    Olá!!!
    Hoje faz exatamente um mês que estive na Alemanha. Falo o alemão aqui do Vale do Itajaí (Blumenau), sou descendente de alemães; meu sonho era vivenciar os lugares das histórias contadas pelos meus avós (paternos e maternos). Realizei um dos sonhos da minha vida. Amei a Alemanha, porém nesses quinze dias em que estive lá passei por algumas dificuldades, principalmente em relação a língua alemã e também pela forma dos alemães se dirigirem as pessoas; são muito práticos e um tanto rudes. Respeito muito a cultura de um povo, é sua marca registrada. Aqui no Brasil somos muito hospitaleiros e falantes. Desejo voltar apenas como turista e explorar mais a cidade de Berlim que amei. Quanto a comida também foi difícil!! O chopp é divino. A mobilidade urbana é fantástica. Os parques e as cidades menores são como páginas de um livro de conto de fadas.

  • Julio Schmitt diz: 24 de setembro de 2015

    À Marcia: não sei se tu não percebes de como tua mensagens está perpetuando preconceitos. Alemães um tanto rudes? Pode ser a tua percepção por não saber lidar ou identificar uma fala sincera, clara, sem rodeios. Falta de informação ou preparo, talvez sob influência da “glorificação do passado” pelas gerações anteriores. Brasileiros hospitaleiros, falantes? Sim, receptivos, curiosos (?) em relação a “tudo que é importado” – e que atrasa-se em compromissos pelo tempo que achar conveniente, que o outro o espera, que fica pdc se esta ou qualquer outra atitude desagradável for criticada…e assim vai. Quanto mais isto chega a incomodar, mais acertado é encerrar a “experiência”.

    À Ivana: Embora esteja um aspecto de certo modo implícito em suas excelentes dicas, talvez seja interessante acrescentar: aprender de caminhar com as próprias pernas – em contraste à atitude da “dispersão de responsabilidade” representada pela simples agregação de opiniões de terceiros, sem maior reflexão própria – o que impede a “costumização” do input para a própria realidade. É mais fácil perguntar outros do que pensar / analisar por si mesmo (principalmente com base em informações mais objetivas e não vistas pelos óculos cor-de-rosa, tampouco pelos óculos pretos).

  • Marcos diz: 24 de setembro de 2015

    Ótimo post!!! Acho principalmente a parte em que as pessoas não devem tentar mudar a cultura dos outros nos outros países!!!

    É perfeito e deveria também servir de parâmetro para quem vem de fora para morar em Blumenau!! Não é xenofobia: é concordar com a Angela Merkel quando ela diz que as pessoas são bem vindas desde que sigam a lei e respeitem a cultura Alemã.

    E antes que me joguem pedras, eu também vim de fora e preferiria que Blumenau não tivesse mudado tanto com a “cultura” forasteira nos últimos 10 anos…

  • janete costa diz: 28 de setembro de 2015

    Eu simplesmente perguntei para a propria autora do texto que é jornalista. Gostaria de saber dela, por ela ser jornalista. Eu entendi o texto, voce Joatan que nao entendeu minha pergunta. Ou é falta de interpretaçao ou é preguiça mesmo.

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