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No papel, país comemora 25 anos de reunificação, mas a vida segue ritmos diferentes nas duas Alemanhas

02 de outubro de 2015 2
O muro caiu um pouco antes, mas a Alemanha virou uma em 3 de outubro

O muro caiu um pouco antes, mas a Alemanha virou uma em 3 de outubro

Há exatos 25 anos, em 3 de outubro de 1990, a Alemanha passava a ser um país só. Ao menos nas fronteiras e nos papéis. O muro de Berlim, que cercava uma “ilha” da Alemanha Ocidental (Bundesrepublik Deutschland, ou apenas BRD) no coração da capital da Alemanha Oriental (Deutsche Demokratische Republik, a DDR), havia caído um pouco antes, em 9 de novembro de 1989. Embora seja politicamente correto falar em reunificação, o que ocorreu não foi uma fusão de dois países e sim a incorporação dos ex-estados comunistas economicamente falidos à Alemanha capitalista.

A queda do muro foi a primeira abertura de fronteiras, permitindo que Ossies (da DDR) e Wessies (da BRD) pudessem circular sem mais restrições. No ano passado houve festa em Berlim pelo aniversário da queda do muro e todo o seu trajeto foi reconstruído por balões que, depois, foram soltos. Mas a comemoração mesmo, com direito a feriado, é sempre em 3 de outubro, data da reunificação oficial da Alemanha.

Eu lembro sempre de uma história que uma professora de alemão contou em um dos muitos cursos que fiz na tentativa de domar a língua de Goethe. Esse foi em Weimar. A professora, que hoje deve ter perto de 50 anos, nasceu e foi criada na DDR. Estava no fim da universidade e tinha acabado de casar quando ouviu, pelo rádio, que o muro tinha caído. Ela conta que largou o que estava fazendo, foi correndo achar o marido e, juntos, embarcaram no Trabante e dirigiram em direção à fronteira. “Não tínhamos nada para fazer do outro lado, mas queríamos cruzar apenas para ter certeza de que era verdade. Atravessamos a borda, paramos o carro na BRD, e saímos dele gritando e rindo”, contava ela.

Nos 25 anos da queda, o muro foi reconstruído com balões que, depois, foram soltos

Nos 25 anos da queda, o muro foi reconstruído com balões que, depois, foram soltos

Não experimentei nada parecido, mas sempre me emociono quando visito o memorial do muro, aqui em Berlim, e ando de um lado para outro no espaço onde tanta gente morreu na tentativa de repetir o mesmo gesto. Pedaços do muro ainda estão por toda a cidade e muitos deles, que eram na verdade paredes de prédios, foram incorporados à paisagem como se nunca tivessem servido para separar e matar. Mas se o país é hoje geograficamente um só, persiste sendo dois na memória e em muitas situações do cotidiano.tweet_blue

Tive a oportunidade de viver nos dois lados e aqui em Berlim, onde as diferenças estão até hoje nas fachadas e é fácil saber em qual dos ex-países se está, apenas olhando em volta. Na parte comunista, reinam os edifícios altos e de linhas retas, bem diferentes do estilo clássico do outro lado da antiga fronteira. Na época, apartamentos eram construídos em série, seguindo as mesmas plantas e modelos padrão no país todo a fim de reduzir custos e acelerar a produção. Assim, em um passeio por diferentes cidades da DDR,  é provável que se entre em edifícios residenciais uns iguais aos outros, incluindo até o padrão de cerâmica das escadas pré-moldadas.

Barras de ferro mostram o caminho do muro em frente ao memorial

Barras de ferro mostram o caminho do muro em frente ao memorial

Além das linhas arquitetônicas, a cultura ainda divide o país.  Em Weimar, coração verde da Alemanha – e onde o muro parece ter caído muito tempo depois – as marcas da DDR ainda são fortes nas roupas que as senhoras mais velhas ainda usam para trabalhar em casa, nos produtos de marcas muito específicas no supermercado, nas sinaleiras com o Ampelmännchen mas, especialmente no discurso de quem tem saudades do tempo em que se podia comer em um restaurante por apenas um Marco.

Pesquisas mostram que existem diferenças nos códigos gestuais dos alemães das duas culturas. Além disso, o Wessies costumam considerar os Ossies rudes e afirmam que tiveram que pagar as contas da reunificação. Já os Ossies dizem que os Wessies são egoístas e que a reunificação destruiu a economia da parte oriental e levou a exploração da mão-de-obra. Mágoas a parte, a geração pós-90 tem mostrado que o tempo é o senhor de todas as mudanças e as diferenças tendem a ser amenizadas ao longo dos anos.

Ainda assim, nos estados da antiga DDR as taxas de desemprego são mais altas, a economia caminha a passos mais lentos e a extrema direita tem mais força. Os anos de isolamento contribuíram para aumentar o racismo e a xenofobia e é nesses estados que os neonazistas andam em maior número. O fim das fronteiras assegurou a todos o direito de ir e vir, mas não se pode generalizar gostos ou comportamentos. O Oeste é mais desenvolvido, mas no Leste, apesar da direita ter força, os sorrisos brotam mais facilmente.

E para celebrar o dia, Tag der Deutschen Einheit, fica aqui o vídeo da Filarmônica de Berlim, tocado a nona sinfonia de Beethoven, na festa dos 25 anos da queda do muro, em novembro do ano passado, em frente ao Portão de Brandemburgo. Foi emocionante!

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comentários

Comentários (2)

  • paulo diz: 2 de outubro de 2015

    Percebe-se muito bem a diferença entre os 2 lados.
    É arrepiante e interessante ao mesmo tempo.

  • Julio Schmitt diz: 2 de outubro de 2015

    Boas observações.
    Ao mesmo tempo, pensando só um pouquinho, acho que para que sejam constatados estes tipos de “diferenças” nem precisa olhar para a Alemanha. Por aqui também tem diferenças desta natureza – e até em escala crescente.

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