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Na Alemanha o aborto é um direito: no Brasil, nem pensar

31 de outubro de 2015 11

grafiti_mulherEsse era para ser mais um post falando um pouco sobre a diferença da vida no Brasil e na Alemanha. Estava preparada para dizer que, por aqui, as mulheres continuam lutando por uma sociedade com mais igualdade de gênero, mas que as discussões estão em outro patamar. Aqui o aborto é legalizado e o que se debate é a melhoria no atendimento às mulheres que, por qualquer razão, decidiram interromper uma gravidez. Sim, aqui o aborto, como deveria ser no mundo todo, é uma prática médica e não um caso de polícia. Quem decide o que acontece no corpo da mulher é ela mesma.tweet_blue

Estava buscando dados para escrever mais profundamente sobre o tema quando me deparei com várias postagens mostrando as mulheres foram hoje para as ruas para defender o direito sobre seus corpos em todo o Brasil. Para protestar sobre o absurdo (entre tantos absurdos atuais do país) que é o PL 5069/2013, que impacta diretamente nos direitos das vítimas de violência sexual. Vi fotos de Blumenau, minha cidade, e tive a infeliz ideia de ler os comentários nas redes sociais. Daquelas coisas que fazem morrer um pouquinho de mim. “Mandar currículo e procurar emprego elas não querem, né?”. “Só vi mal-amada na rua”. “Só mulheres vadias querem legalizar o aborto com tantos métodos anticoncepcionais disponíveis”, vindo de uma mulher.

Onde foi que a inteligência e a capacidade de raciocínio morreram? As mulheres têm que ter o direito de decidir sobre o seu próprio corpo. Ninguém está falando em aborto como forma de contracepção e toda e qualquer estatística de países que aprovaram a interrupção assistida da gravidez comprovaram a mesma coisa: o número de abortos caiu. tweet_blueCaiu também o número de mulheres mortas por causa dele. A discussão não é ética, religiosa ou filosófica. É questão de saúde e precisa ser tratada como tal. Eu tinha esperanças que esse seria um dos avanços do país quando uma mulher assumiu a presidência, mas meu sonho hoje parece tão moribundo quanto o governo.

Mas o meu maior pesar não tem nada a ver com política ou com leis: elas são um reflexo do retrocesso de pensamento que se instalou no Brasil. Meu pesar está na falta de discernimento em separar questões de fé e direitos civis e não apenas no que tange ao aborto. Os comentários que li hoje sobre o protesto das mulheres me deixou com um nó na garganta. Queridos homens de Blumenau, tomem vergonha na cara e pensem nas suas mães, irmãs, filhas. Queridas mulheres de Blumenau: se olhem no espelho e saibam que aquelas “vadias”, “desocupadas” e “mal-amadas”, com vocês mesmas as chamaram, foram para a rua para defender o seu direito de ser dona do corpo que você está vendo refletido.

Sim, existem exceções, claro: existem homens que engrossam o coro de vozes em defesa das mulheres. Mas eles são minoria. E são em menor número ainda do que as mulheres que cresceram em ambientes tão machistas que sequer conseguem entender o modelo opressivo no qual foram criadas. Mulheres que aceitam estar do lado de homens que acham o feminismo uma balela. Mulheres que acham normal lavar a louça do almoço de domingo com as outras mulheres enquanto os maridos sentados na sala batem papo. Aquelas que acham certo medir a saia de quem entra na Oktoberfest, que acreditam que menina tem que se comportar de uma certa forma. Mulheres que acham que são melhores que outras mulheres porque “são para casar” e enchem a boca para dizer que uma vítima foi estuprada porque estava pedindo por isso.

Essas mulheres, na santidade de suas vidas perfeitas, acham que aquelas que recorrem ao aborto o fazem porque “não se cuidaram”, já que “na hora de fazer foi gostoso” e se escondem por trás de dogmas religiosos para defender seu direito de julgar a vida alheia. Essas mulheres e homens que chamam as feministas de vadias, mas que pagam clínicas de aborto clandestinas quando se trata da filha adolescente ou da amante. Que expulsam os filhos de casa se o amor que eles sentem é pelo gênero “errado”. Essa gente que acha que bandido bom é bandido morto” e que decreta, assim, que as bandidas são as mulheres que sofreram violência e que não querem carregar no ventre o herdeiro de seus agressores. As que foram hoje as ruas estavam defendendo especialmente essas mulheres: que são tão oprimidas a ponto de reproduzirem o discurso da opressão e sequer se dão conta que elas próprias também são vítimas.tweet_blue

Meu único lamento de hoje é que daqui, desfrutando meu direito de fazer o que eu quiser com o meu corpo, de andar na rua sem medo de ser assediada ou estuprada, eu não segurei uma faixa em apoio as mulheres de Blumenau e do Brasil. O protesto de hoje pode não ter fechado as ruas e nem parado a cidade: mas incomodou e esse é o primeiro passo. As pessoas, ao menos, estão falando a respeito e, não fossem os comentários misóginos assinados por homens e mulheres, eu não estaria aqui, agora, para agradecer àquelas que colocaram a cara na rua para defender o meu corpo.

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comentários

Comentários (11)

  • Bruno diz: 3 de novembro de 2015

    Sou contra o aborto, mas não atribuo às mulheres os rótulos que, realmente e infelizmente, são atribuídas à elas. Não que eu não seja a favor da mulher decidir sobre o próprio corpo. Simplesmente estou do lado da criança, não contra as mulheres. E me preocupa, e muito, a realidade brasileira. Num país em que advogados encontram brechas na lei da forma como querem, o que impedirá que o homem, que também alegue que quer ter direito sobre o próprio corpo, se recusando a pagar pensão por um filho que ele não deseja, entre na justiça e tenha seu “direito” garantido? Vão forçar um aborto na mulher que não o quer fazer, ou simplesmente desobrigá-lo à cumprir com suas obrigações legais? Números e estatísticas são muito bonitos, mas mesmo que o número de abortos caia em países legalizados, sou tão contra quanto liberação de armas no Brasil, sob o pretexto de que o índice de criminalidade é baixo em países aonde é liberado. O Brasil é um país diferente, culturalmente pobre e de esperteza exacerbada. Algumas coisas simplesmente se distorcem por aqui.

  • Marcos diz: 3 de novembro de 2015

    Sou radicalmente contra qualquer ato de discriminação em relação à mulheres tanto que já tive chefe mulheres (aqui e na Alemanha) e não tive problema algum em seguir ordens delas.

    Também não acho que, independente de como a mulher esteja vestida ou mesmo despida (no Brasil, em alguns casos, é quase isso), ela esteja querendo ser estuprada. Todos devem respeitá-las independente disso. Nunca fui de passar cantadas nas ruas pelo mesmo motivo: acho falta de respeito.

    Não consigo conceber que uma mulher receba menos que um homem para executar a mesma tarefa. E aprendi este respeito em casa vendo como meu pai tratava a minha mãe. Sempre com muito amor, respeito e apoio.

    Normalmente concordo quase em 100% com que escreves, Ivana, mas o corpo de uma mulher, a partir da concepção, já carrega outra vida e não é direito da mulher desfazer-se dessa vida. Goste ou não, a natureza é assim. E isso, de uma mulher poder gerar uma vida dentro de si, é um privilégio, não uma maldição! Podes até pensar que a vida não tem entendimento por não possuir um cérebro formado até um certo tempo de gestação mas, ainda assim, é uma vida. E ser ou não uma vida NÃO É UM CONCEITO FLEXÍVEL! Ou uma mulher está grávida ou não está, independente do tempo de gestação e independente de uma lei que diga o contrário.

  • Andrea diz: 7 de novembro de 2015

    Pra mim;
    O aborto é o único crime em que o inocente é condenado a morte, para que seus assassinos possam continuar em “liberdade”

  • Thiago diz: 9 de novembro de 2015

    E é bom que permaneça assim.
    Porque o feto não é uma hérnia para ser tratado no discurso idiota do “meu corpo minhas regras”. O feto não é corpo da mulher e não tem nada a ver com sua falta de DECÊNCIA e MORAL.

  • Andrea diz: 10 de novembro de 2015

    VC fala sobre mulheres do Afeganistao? Ou de mulheres que por 5 min de prazer deixam de se importar com o próprio corpo, colocando em risco inclusive sua saúde sem usar preservativo?!
    Em caso de estupro, existe a pílula do dia seguinte.
    Em caso de estupro de incapaz, caso nao haja risco de morte para a genitora, sou a favor da adocao assim que essa crianca nascer.
    Muitas de nossas maes nos criaram praticamente sozinhas, com dificuldades, porém caráter e amor.
    Imaginem se elas pensassem dessa forma.
    Diminuir o valor de uma vida a um simples… o corpo é meu, é no mínimo desprezar sua própria existencia.

  • Bruno diz: 10 de novembro de 2015

    Transcrevo aqui algumas considerações do Dr. Nilson Lage, professor de jornalismo na UFSC.

    “1. A primeira questão é se o aborto é ainda tão necessário quando é fácil impedir a gravidez, ou se, com mais informação, seria dispensável.

    “2. A segunda é que o aborto inocenta o homem e castiga a mulher, já que toda cirurgia tem riscos e, muito repetida, gera danos permanentes.

    “3. A terceira é se o custo (em dinheiro e danos à saúde) da aplicação em massa do aborto seria menor do que o custo das curetagens atuais.

    “4. A quarta é, numa sociedade de consumo, ver anúncios de abortos ‘confortáveis’ em spas pagáveis em n prestações mensais.

    “5. O quinto é o dano psicológico dos abortos, principalmente repetidos, e como minimizá-lo, evitando a perda de autoestima e cinismo.

    “6. Tudo isso pode ser menos relevante, mas nenhum desses argumentos é de fundo religioso ou de porte inteiramente desprezível.”

    Além dos problemas políticos, religiosos e físicos, como lembra Lage, o aborto pode afetar seriamente a saúde psíquica das mulheres. Em pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da USP, com 120 mulheres que passaram por aborto, mais da metade apresentaram algum nível de depressão e a maioria sofria de baixa a média estima pessoal.

  • Luciana diz: 12 de novembro de 2015

    O que vale lembrar a estes comentaristas aí em cima (majoritariamente homens! Que incrível coincidência!) que inclusive citam supostas fontes (novamente: homem! Que curioso!) é que, primeiro: NENHUM método anticoncepcional é 100% efetivo. Nem a pílula, nem DIU, nem pílula do dia seguinte, camisinha, diafragma. Nenhum. Segundo: nem todas têm acesso ou educação para usar estes métodos corretamente. Ou alguém acha que usar a pílula é fácil? Não é. E mesmo a mais educada das pessoas pode esquecer.

    Ademais, será que os digníssimos senhores que aqui em cima comentaram acham que comer um ovo é equivalente a comer um frango? Ou que uma semente é uma árvore?

    Também me pergunto se os mesmos distintos senhores achariam aceitável que alguém os obrigasse a doar sangue, ou um órgão, ou qualquer parte de seu corpo para manter outra pessoa viva. Porque, afinal, uma mulher grávida impedida de fazer um aborto está sendo obrigada a doar uma parte de seu corpo durante 9 meses para manter outro organismo (que ainda não é, mas tem o potencial de vir a ser uma pessoa eventualmente) vivo. Sempre me impressiona como somos capazes de respeitar o direito ao próprio corpo até mesmo após a morte – mesmo depois de mortos, nossos órgãos só são doados se tivermos autorizado em vida. Mas, quando trata-se dos direitos das mulheres, de repente o direito humano básico de determinar o que acontece com o próprio corpo é absolutamente ignorado. E assim mulheres continuam morrendo, fazendo abortos clandestinos por desespero, por falta de apoio do Estado, por medo de serem discriminadas (ou mesmo presas!) se contarem para alguém.

    É na conta de vocês todos, supostos pró-vida, que estão estas mortes.

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