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A fuga do cemitério e o alemão que tem duas sepulturas

02 de novembro de 2015 3
Parece um parque, mas é o cemitério de Weimar

Parece um parque, mas é o cemitério de Weimar

Hoje é dia de Finados e se tem uma coisa que isso me lembra é chuva. Minha vó dizia que é regra: todo Finados chove. Eu trabalhei anos como repórter, fui para a rua cobrir movimentação em cemitérios muitas vezes e não dava outra. Então, me mudei para a Alemanha e por aqui faz sol. No país, não é feriado e só nos estados católicos – na Baviera é proibido dançar neste dia – é que existe a tradição de lembrar dos mortos nessa data. Como a maioria do país é luterana, a movimentação não é tão intensa como no Brasil.

Apesar de não ter o apelo sentimental e comercial do Brasil, muita gente aqui vai aos cemitérios. E não somente em um dia específico: são lugares lindos, parecidos com parques, com muitas árvores, gramado, esculturas, passarinhos cantando. Nada do cinza tristonho dos cemitérios que me acostumei a ver no Brasil. Não é raro ver gente sentada em algum dos inúmeros banquinhos lendo. Muitos dos cemitérios são cortados por estradinhas liberadas para pedestres e bicicletas.

Aprendi que cemitérios são quase cartões postais logo que cheguei aqui e, sempre que passo por algum, acabo visitando. Fiz isso em Braunschweig, a cidade onde o Dr. Blumenau, fundador da cidade, morreu em 1899 e foi enterrado. O corpo dele foi transferido para o Mausoléu, em Blumenau, anos depois, mas no guia turístico do cemitério – sim, muitos cemitérios têm folhetos com uma lista dos mortos ilustres! – nada disso é citado e o visitante é levado a crer que ele ainda descansa por lá. Encontrei a sepultura quando visitei e, na época, o mato cobria a cruz modesta onde falava sobre a fundação de uma cidade no Sul do Brasil. Não creio que tenha mudado alguma coisa. No fim das contas, o fundador da cidade segue sendo o alemão com duas sepulturas.

No meio da vegetação, a sepultura original do Dr. Blumenau

No meio da vegetação, a sepultura original do Dr. Blumenau

Na lápide, as informações sobre o fundador da cidade

Na lápide, as informações sobre o fundador da cidade

Mas essa mania de visitar cemitérios foi além das buscas pelas origens da cidade. Era um domingo ensolarado quando convidei meu marido para conhecer o cemitério onde está a capela com o corpo do escritor alemão Goethe, na cidade de Weimar. O lugar tem ainda uma igreja ortodoxa, reminiscente dos anos de domínio russo por aquelas paragens e estradinhas arborizadas que são de tirar o fôlego no outono.

O fato é que me empolguei no passeio: andamos várias horas pelo labirinto de caminhos, árvores e memoriais até que a noite começou a cair. Escurece antes das cinco por aqui nessa época do ano e escurece rápido, muito rápido. Como as fotos já não estavam saindo tão coloridas, decidimos ir embora. Levamos uns segundos até nos orientarmos e encontrarmos a direção do portão principal. Fechado. Seguimos para os portões laterais: fechados. Começamos a dar voltas em busca de uma saída: todas fechadas.

A igrejinha ortodoxa que ajudou a nos distrair

A igrejinha ortodoxa que ajudou a nos distrair

Àquela altura, qualquer esquilo virou fantasma. Toda a folha que se movia com o vento dava calafrios. Nas andanças junto ao muro, encontramos uma parte um pouco mais baixa onde uma pesada lápide já meio torta podia servir de apoio para escalar os dois metros de muro. E foi assim que saímos de lá. Como a lei de Murphy não falha, óbvio que bem na hora que conseguimos escalar tudo para pular passou um ônibus e vários passageiros desceram há poucos metros de onde estávamos. O que aquela gente pensou quando viu um casal adulto pulando o muro do cemitério à noite, não quero nem imaginar. Por sorte, ninguém chamou a polícia.

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comentários

Comentários (3)

  • Yolanda Sestren diz: 3 de novembro de 2015

    Parabéns, ótima reportagem. Sempre aprendo algo com suas histórias.

  • Guido Kaspareit diz: 3 de novembro de 2015

    Parabéns. boas leituras… sempre interessantes.

  • Erich diz: 3 de novembro de 2015

    Boa tarde “alemôa”,
    o pessoal no ônibus que viu vcs pularem o muro do cemitério decerto pensou: “só podiam ser brasileiros”… (brincadeira)
    Não sei se vcs já estiveram em Hamburgo. Não deixem de visitar o Ohlsdorf, no bairro do mesmo nome. Vale a pena, pois é considerado o maior cemitério-parque do mundo.
    Um abraço,
    Erich

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