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A Alemanha não celebra o 9 de novembro, data da queda do muro de Berlim

09 de novembro de 2015 1
Pintura na East Side Gallery mostra o desejo de fugir

Pintura na East Side Gallery mostra o desejo de fugir

No dia 9 de novembro de 1989 caia o muro de Berlim. No ano passado, que marcou os 25 anos da queda, os alemães celebraram a data com uma festa linda, por toda a cidade. Mas a comemoração foi exceção e não regra: o dia 9 de novembro não é festejado por aqui. O país celebra sua reunificação no dia 3 de outubro, com feriado, pompa e circunstância. Esse ano, foi assim:

 

Uma coisa curiosa sobre o muro é a impressão errada que muita gente tem dele. O muro não separava as duas Alemanhas no sentido denotativo: ele separava apenas Berlim em duas partes. Construído em 1961, cercava a Berlin ocidental – uma ilha capitalista no coração da Alemanha comunista (a Deutsche Demokratische Republik, ou simplesmente DDR).

Vale dizer ainda que a parte capitalista, que ficava do lado de dentro do muro, também era dividida, com setores controlados pelos aliados. Assim, havia o setor americano (Kreuzberg, Neukölln, Schöneberg, Steglitz, Tempelhof e Zehlendorf), o setor inglês (Charlottenburg, Spandau, Tiergarten e Wilmersdorf) e o setor francês (Reinickendorf, Wedding). Já do lado de fora do muro, ou seja, na parte comunista (East Berlin) – ou também chamada de setor soviético – ficavam os bairros de Friedrichshain, Köpenick, Lichtenberg, Mitte, Pankow, Prenzlauer Berg, Treptow, Weissensee, Marzahn, Hellersdorf  e Hohenschönhausen. As diferenças persistem até hoje.

O muro eram, de fato, dois, que separam uma parte de Berlim da outra

O muro eram, de fato, dois, que separavam uma parte de Berlim da outra

Uma curiosidade é que, nessa época, cada setor tinha seu próprio aeroporto. Atualmente, são apenas dois em operação – Tegel e Schönefeld, sendo que o primeiro está fazendo hora extra em Berlim por conta do desastre das obras do novo terminar, o BER, junto ao Schönefeld e que, teoricamente, era pra ter ficado pronto em 2012 e, até hoje, ninguém sabe quando vai ficar. Se ficar. O aeroporto Gatow foi fechado em 1995, e o Tempelhof, em 2008, e hoje é um parque enorme onde se pode correr, andar de bicicleta, fazer churrasco ou praticar kite skate.

Voltando ao muro. Logo depois do fim da guerra, as pessoas podiam ainda transitar de um lado para o outro de Berlim. Entre 1949 e 1961, estima-se que mais de 3 milhões de pessoas migraram da Alemanha Oriental para a Ocidental, muitas usando Berlin como ponto de partida. A fuga de mão-de-obra qualificada – muitos eram médicos, engenheiros, professores – levou a DDR a endurecer seu controle de fronteiras e, em Berlin, a barreira foi imposta do dia para a noite.  Na madrugada de 13 de agosto de 1961, o exército comunista construiu cercas metálicas em volta de toda a área ocidental e, a partir desse isolamento provisório, passou a erguer a barreira definitiva: dois muros de isolamento com cerca de 4 metros de altura – entre eles ficava um espaço conhecido como “terra de ninguém” – e 111 quilômetros de extensão.

Dois muros e um campo minado no meio, com torres de vigilância

Dois muros e um campo minado no meio, com torres de vigilância

O muro de Berlim, na verdade, eram dois. No Memorial do Muro na Bernauerstrasse há uma parte preservada onde se pode ver como era. O espaço faz ainda uma homenagem às vítimas que o muro fez. Cerca de 80 pessoas morreram em tentativas de cruzar de um lado para o outro durante os 28 anos que o muro ficou de pé, até sua queda, em 9 de novembro de 1989. Esse número é bem maior pelo registro de algumas ONGs. Sobre a queda, vale dizer que foi o momento mais marcante do processo de reunificação das duas Alemanhas, oficilalizado em 3 de outubro de 1990, mas existem outros motivos por trás dessa data que a deixam fora do calendário de festas.

Isso porque, o 9 de novembro tem uma mácula: a noite de 9 para 10 de novembro de 1938, ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial, ficou conhecida como a “Noite dos Cristais”. Foi nesta madrugada que a perseguição contra os judeus – que culminaria com o holocausto promovido pelos nazistas – ganhou corpo nas ruas. Sinagogas em todo o país foram incendiadas e estabelecimentos comerciais de judeus foram saqueados. Mais de 100 pessoas morreram nesta noite em que os destinos do país mudaram completamente.

Memorial do muro: um espaço gratuito para entender a história

Memorial do muro: um espaço gratuito para entender a história

Coincidência ou não, outro 9 de novembro marcou o calendário germânico: desta vez, em 1918, quando caia Guilherme (Wilhelm) II, o último imperador alemão, rei da Prússia. O período que se seguiu – a chamada República de Weimar – marcou os poucos anos de paz experimentados pelo país entre as duas grandes guerras (Hitler começou a demonstrar sua força já em 1923 e a democracia foi perdendo espaço para um regime totalitarista, consolidado 10 anos depois). Por via das dúvidas, os alemães decidiram deixar os festejos para cada 3 de outubro, sem culpas.

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comentários

Comentários (1)

  • Daniela Bonin diz: 9 de novembro de 2015

    Gosto muito dos seus textos e dos comparativos entre Blumenau e a Alemanha.
    Eu sou de origem italiana, e tenho uma curiosidade enorme sobre a história da Alemanha no período das guerras mundiais, e sempre que posso leio a respeito.

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