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A terceira guerra mundial já começou e nem só as bombas fazem vítimas

16 de novembro de 2015 1
Eu estava em Paris nos ataques de janeiro: a capa do Le Monde da época e uma homenagem anônima

Estive em Paris durante os ataques de janeiro: a capa do Le Monde da época e uma homenagem anônima

A imprensa da Alemanha fala, pesarosa, em terceira guerra mundial. Para mim, o assunto demorou a virar manchete. Anos se passaram desde a primeira bomba até a percepção de que a Segunda Guerra era mundial. Foram anos de ataques, conchavos, traições, estratégias de dominação, fomento do ódio. Anos como os de agora, em que se começa a perceber que os fatos isolados não são tão isolados assim. Já estamos em guerra faz tempo e os livros provavelmente vão tratar do 11 de Setembro de 2001 como o início oficial dela, descartando os conflitos que motivaram os ataques.

A diferença é que essa terceira guerra não se passa apenas quando as bombas explodem e os exércitos se confrontam: ela envolve poderes muito mais mortais, como o econômico e motivações “justificáveis”, como a religiosa. O conflito nasce dessa guinada à direita que, nas entrelinhas, prega que um tem mais direito de viver que o outro: da tentativa de garantir a diferença social e o status quo. É filha do casamento entre a ganância e o poder. Parente próxima do medo, que hoje domina as ruas de Paris, de Berlim e da Europa inteira.

A guerra nasce da intolerância religiosa em todos os níveis. Do Estado que se se diz laico e se omite em assegurar direitos civis por fundamentalismo. De terroristas que reinterpretam o alcorão para justificar uma guerra santa, não muito diferente dos argumentos usados pelo III Reich para justificar a supremacia ariana. Ela nasce da busca de justificativas sobrenaturais para justificar o injustificável. A arma dos terroristas do Estado Islâmico é a mesma arma dos extremistas cristãos – que fizeram sua guerra santa nas cruzadas – e hoje fazem guerrilha: justifica a morte de mulheres sem direito ao aborto, a morte de homossexuais, o ataque a quem pratica religiões de origem africana, a morte da tolerância.

A guerra que ninguém percebe interliga todo o mundo. Tem a ver com a sexta-feira 13 de Paris, que foi um revide aos ataques na Síria. Tem a ver com as intervenções militares americanas que “protegeram” os interesses do mundo de olho no petróleo do oriente médio e fizeram nascer aqueles que acham que o ocidente é o grande inimigo comum. Maquiavel, ah, Maquiavel. E o petróleo tem a ver com as corporações que ditam o fim do planeta pelo aquecimento global desde que o dinheiro continue pingando em velocidade maior que as geleiras. Tem a ver com Mariana e a podridão da lama que corre nas montanhas e nas entranhas da Vale, que explora o Brasil e a África. Que se beneficia de conflitos e que financia a eleição de quem garantir seus interesses, com parcerias em escala global.

Isis, Mariana, Charlie Hebdo, o vazamento da Deepwater Horizon, os atentados de Madri, o massacre dos estudantes no Quênia, as meninas sequestradas e os milhares de mortos pelo Boko Haram na Nigéria, Fukushima, Paris, a morte das mulheres por violência e negligência na rua da sua casa, o refugiado haitiano assassinado por causa da cor, as picuinhas de achar que o luto de um não tem tanto valor quanto o do outro, a fome, a exploração. A intolerância de quem acredita que todos devem ter as mesmas crenças sobrenaturais mata. A ganância e o direito ao lucro sem limite das corporações, mata ainda mais. Mata lentamente, muitas vezes, e ninguém vê. Mas o ódio cotidiano de quem acha que todo mundo que pensa ou vive de forma diferente não presta, mata também. Mata porque nutre preconceitos e porque cria universos em que somente uns pertencem, seja por dinheiro, raça ou religião.

Não fosse a desigualdade e a sensação de não pertencer, nem ao lugar onde sempre viveu, nenhum menino nascido e criado na França ia amarrar uma bomba ao corpo e sair de casa para matar outros como ele. Não fossem os interesses econômicos e a ideia de que a cor da pele e o credo fazem uns melhores que outros, não haveria essa desigualdade que pariu o terrorista. Quem não tem nada na terra, só pode acreditar que exista um céu de recompensas. A terceira guerra já começou faz tempo. No Brasil, especificamente, lá por 1500.

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comentários

Comentários (1)

  • Mário diz: 20 de novembro de 2015

    A Alemanha não deve ser preocupar, pois , sendo um país ocupado desde 1945 (Alguma semelhança geográfica com o Afeganistão, talvez ?) tem mais de 30.000 soldados americanos espalhados em Bases Militares pelo país para proteger seus cidadãos.Ah e sua grande líder DDR Angela.

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