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‪#‎meuamigosecreto: Do machismo nosso de cada dia, nos poupai hoje

24 de novembro de 2015 3
Flores para nós: é a primavera das mulheres, da luta por igualdade

Flores para nós: é a primavera das mulheres, da luta por igualdade

Minhas redes sociais estão povoadas de desabafos sobre o ‪#‎meuamigosecreto, em mais uma corrente poderosa dessa Primavera das Mulheres. Estamos usando a voz para denunciar os machismos cotidianos gritantes e aqueles que passam desapercebidos. Diante desse movimento, quero propor uma reflexão que, por aqui, na Alemanha, é feita há muito tempo, é feita todos os dias.

O assunto que tomou as redes é uma denúncia e funciona também como um convite para olharmos profundamente nossa própria vida.  Chama a atenção para o machismo obsceno e para e  aquelas coisas tão amalgamadas nas ações do dia-a-dia que nem sempre nos damos conta de que elas são, também, formas de opressão da mulher. Não estou aqui propondo que rasguemos sutiãs: custam caro e sabemos disso porque nossas horas de trabalho valem muito menos que as de qualquer homem, mas as contas não têm abatimento por gênero.

O assunto já tinha martelado a minha cabeça a partir de um post que li há uns dias, de uma jornalista que teve a chance de estudar além da graduação, que lê muito e compartilha trechos de livros no Facebook e que, supostamente, deveria entender os processos de opressão de gênero melhor do que outras pessoas. Mas a fulana escreveu um tratado para falar das “periguetes” que usam o Instagram de forma inadequada (segundo ela) e que, diferente dela, que posta uma sequência infinita de fotos iguais da própria cara – e tem todo o direito de fazer isso também! – postam fotos de biquínis, decotes e afins.

Vamos por partes, afinal. Primeiro, eu detesto a palavra “periguete”. É um conceito machista que estabelece em seu escopo que a mulher tem que respeitar determinadas normas para não ser vulgar. Quem determina isso? Uma periguete é uma mulher que perturba as outras? Que “ta pedindo para ser estuprada”? Qual a diferença entre mostrar o colo, o corpo ou cara nas fotos das redes sociais? Porque de uma forma pode e da outra não? A melhor coisa das redes é que posta quem quer, segue quem se interessa. E o que uma mulher deve ou não postar depende somente dela.

Isso se chama liberdade de expressão: uns usam as palavras, a voz, outros o que lhes apetece. Arrumar rótulos para os seios alheios é machismo, daquele tipo encalacrado na alma. E é isso que a moça estudada e “certinha” não entende: que as regras do nosso corpo somos nós que criamos, são nossas. Que o nosso desejo de publicidade ou a nossa necessidade em preservar a esfera privada diz respeito a nós mesmas.

Existem questões de segurança envolvidas? Sim, existem. Aqui na Alemanha esse assunto é quase uma paranoia e tem suas razões. Eu, particularmente, gosto de ver fotos de poses duvidosas no Facebook, no Instagram ou no Snapchat? Não, mas eu também não gosto de ver fotos com o horizonte torto e nem fotos de igreja com a ponta da torre cortada: devo ter TOC, mas isso é problema meu, da forma que eu vejo as coisas, e não de quem está postando na sua própria página.

Digo isso porque o contraponto é a invasão da esfera privada dos outros: de enviar essas fotos para quem não está pedindo e essa regra é universal. Faz poucos dias que criei uma conta de Snapchat – aliás, se quiser acompanhar o cotidiano aqui na Alemanha, me segue por lá: ivisebel. Trinta segundos depois de eu divulgar meu usuário no Instagram e de aceitar um desconhecido, recebo uma foto da genitália do cidadão. O objeto em questão não foi solicitado, não teve a minha permissão e não estava na página dele: veio parar na minha mão. Isso é mais que machismo: é assédio, é criminoso e é nojento.

Assim como muitos assédios do cotidiano são perversos e mais cruéis porque não nos despertam qualquer reação. Quando ensinamos apenas as meninas a cuidar das bonecas e da casinha, quando colocamos um vestido nas meninas e damos um sermão sobre como devem se comportar como mocinhas. Quando não usamos em casa a mesma medida de liberdade para meninos e meninas adolescentes. Quando pensamos duas vezes em contratar uma mulher que acabou de casar porque ela pode “inventar de ter filhos”. O assédio também se dá quando julgamos quem é ou não periguete, putiane e outros termos afins. Não queremos rotular e nem ser rotuladas.

Ouvi em uma conversa recente que é errado existir feminismo, que as mulheres deveriam lutar por humanismo. Concordo, pois. Em um mundo ideal, onde não somos assediadas, julgadas, ameaçadas, espancadas, mortas, preteridas e oprimidas, sim. Mas no mundo de hoje, bem longe da perfeição, precisamos que esse feminismo saia do armário e tenha a força gigante para equilibrar as contas e os direitos e então, depois, podemos criar um novo nome, uma nova definição.

Por hora, cada mulher tem a obrigação de olhar para sua vida e identificar os machismos de cada dia e combatê-los. E cada homem também. Muita gente está seguindo a hashtag ‪#‎meuamigosecreto ou apenas #amigosecreto e fazendo isso: é só espiar! E para quem chegou até aqui achando esse texto um saco, que saiba de antemão: Não queremos mudar porque somos feministas mal-amadas, vagabundas, desocupadas e nem periguetes: é porque não tínhamos força para fazer isso antes e agora, temos. Somos muitas, somos fortes e queremos direitos e respeito iguais.

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comentários

Comentários (3)

  • Carlos diz: 25 de novembro de 2015

    Excelente texto Ivana! Todos os pontos citados de rótulos (como a de periguete), contratar uma mulher recém casada porque ela pode querer filhos, o assédio nas redes sociais (face, instagram, snap) é um retrato da opressão vivida pelas mulheres.
    Quando você falou das “regras do nosso corpo”, me remeteu a um vídeo de determinados globais falando sobre o mesmo tema (regras do corpo), só que aplicado ao aborto (sei que são temas completamente opostos, e não cabe aqui eu expor minha opinião sobre o aborto). Depois de publicarem, foram massivamente sabatinados.

    O fato da mulher ganhar menos que o homem, sempre é fortemente associado ao fato da mulher ter TPM, ficar grávida, ser mais sucessível a problemas emocionais que o homem, etc..mas ninguém considera que homens quando costumam jogar futebol, podem ter problemas no joelho e ficarem afastados pelo mesmo tempo, enfim, esse tipo de “desculpa” imposta pelas empresas é só mais um reflexo do “eu não tenho nada contra, mas…”. Já começa errado quando é anunciado uma vaga em uma determinada empresa, a entrevista ocorre e o setor de RH levanta as possibilidades da vaga relevando o gênero.

    E quando alguma mulher se faz valer de sua voz, não aceita xingamentos do tipo: “estacionou errado, ah, tudo bem…é mulher”, ou vai a alguma rede social brigar por esse machismo, é novamente taxada e inferiorizada.

    Ainda existe, e infelizmente, existirá por um longo tempo esse tipo de opressão, machismo e assédio, mas mulheres devem brigar sim, rasgar o sutiãs se necessário for, jamais devemos aceitar uma batalha como perdida!

  • Carlos diz: 25 de novembro de 2015

    Destas várias formas de machismo, o mais gritante e quando o homem não aceita conversar sobre o relacionamento do casal, principalmente quando sabe que acabou o amor entre eles e usa os filhos para manterem-se juntos, mesmo sem toca-la. Começa a usar o dinheiro para reconquistar a mulher que somente vive ao lado dele por causa dessas ameaças.

  • Aline Lima diz: 25 de novembro de 2015

    Olá, Ivana! Adorei seu texto! Você conseguiu transmitir em cada palavra a importância do feminismo. Abraço.

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