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Sincericídio: sobre feminismo, meritocracia, cotas, posições políticas e a minha hora de sair do armário

10 de dezembro de 2015 12

 

sincera

Eu sempre admirei meus amigos gays que tiveram a coragem de sair do armário e entendo perfeitamente os que ainda estão lá. Tenho ainda uma profunda simpatia pelas mulheres e homens transexuais que tiveram a força de lutar por uma identidade diferente da biológica em um universo tão preconceituoso. Volta e meia eu paro e penso: se a vida impõe desafios e é dura para quem é branca, nascida em família de classe média, cisgênero, com acesso a comida, água, moradia e educação só por eu ser mulher, imagina o que é viver uma combinação diferente dessa. Um aviso: esse texto pode parecer prolixo neste início, mas vai chegar a um ponto, eu prometo. Só precisa de uns desvios e paralelos para chegar lá. Vamos a eles.

Uma coisa que me agride profundamente são as histórias compartilhadas nas redes sociais de meninos e meninas negras e muito pobres que chegaram a universidade e viram doutores estudando com livros que a mãe achou no lixo. A garra dessas pessoas me emociona a ponto de me levar às lágrimas, mas a agressão acontece porque esses exemplos são usados para dizer que, se a pessoa tem força de vontade, ela pode chegar lá. Ou seja, serve para fundamentar um discurso calhorda de meritocracia e que ignora o abismo social que essas pessoas tiveram que transpor. Exige que os meninos e meninas pobres desse país tenham que ser super-heróis e não apenas crianças que gostam ou não de escola.

Me agride cada vez que alguém tem que fazer ume esforço sobre-humano para ter acesso as mesmas coisas que, para pessoas como eu, são parte esperada da vida, estão no roteiro de sucesso pré-concebido unicamente por ter nascido em uma cidade com IDH elevado, de uma mãe com superior completo. Nesse ponto entra a questão dos orgulhos inexplicáveis: orgulho de ser brasileiro, de ser alemão, de ser isso ou aquilo? Orgulho de ser hétero? Orgulho é uma palavra que precisa estar relacionada a algo que conquistamos com um esforço pessoal profundo envolvido e não por uma questão genética ou geográfica sobre a qual não temos qualquer interferência. Isso se chama vaidade, um dos pecados capitais.

Não que eu acredite em pecado, na verdade. Acredito em direitos civis e na quebra deles como crime. Não acredito em uma irmandade mundial ligada por uma entidade mística única, mas na igualdade legal que deveria existir e que falha vergonhosamente. Não acredito em caridade, para ser franca: acredito em empatia, simpatia, amor e na ajuda que provém do desejo em oferecer ao outro as mesmas condições que se tem. Meu partido político é o dos direitos humanos para todos os humanos, na justiça igualitária, na punição que ressocializa, no acesso universal a educação. Eu sou uma sonhadora sim, meus desejos são quase utópicos, mas isso não faz de mim ingênua ou ignorante. Eu moro longe do meu país sim, mas isso não me torna cega e muito menos indiferente ao que acontece nas ruas onde meninos negros tomam tiros por causa da cor da pele.

Vivemos tempos estranhos, por fim. Um momento em que quem tem uma opinião diferente das versões massificadas pela mídia se torna automaticamente um “cego”, um “burro”. Ou alguém que não sabe o que está acontecendo. Vivemos, na verdade, um tempo em tudo precisa de um rótulo. Então, esse textão inteiro é só um prefácio para que eu saia do armário e assuma os meus. Sou ateia e adoro o Natal. Sou feminista, defendo o aborto e o direito da mulher sobre seu corpo. Pode me chamar de gaysista e de transista, se é que já inventaram esse rótulo também.

Sou de esquerda e critico o governo quando acho que está errado, como agora, mas defendo a democracia com todas as forças. Sou pró-cotas, defendo o abrigo a refugiados e acho que eles devem receber auxílio financeiro em sua chegada. Acho que toda a forma de racismo e discriminação deve ser criminalizada. Acho o Bolsa Família uma das melhores coisas que já aconteceram para o Brasil, se não a melhor. Sou a favor da descriminalização e taxação das drogas, sou contra as armas. Acho que os Estados brasileiros deveriam ficar com a maior parte dos impostos e ter mais autonomia legislativa. Sou contra a construção de hidroelétricas, defendo a demarcação de terras indígenas e as culturas ancestrais.

Também sou mulher, casada, jornalista, quase doutora e 99% do tempo bem-humorada. Sou amada e feliz, embora sinta muita saudade do Brasil. Adoro arroz com ovo e cervejas artesanais. Já fui vegetariana por uns meses, mas voltei a comer carne porque eu gosto. Acho que as cidades têm que ter mais pessoas do que carros e que andar de ônibus é a saída. Pago caro para ter energia renovável e deixo de comprar roupas e sapatos por isso. Não aceito atrasos. Me achava uma pessoa bem inteligente até conhecer o mundo e descobrir que não sei de nada. Já conheci mais de 30 países, falo quatro línguas e arranho outras duas. Já passei dos 40, não tenho filhos por opção, não planejo ter e isso não faz de mim menos mulher. Mudo de opinião quando sou convencida por argumentos sólidos. Aceito que posso estar errada e não estou tentando convencer ninguém. Sobretudo, sou transparente e honesta, especialmente comigo mesma e cometo sincericídios, como agora.

Digo tudo isso para que você saiba que não existe imparcialidade em lugar nenhum. Cada vez que você ler um texto meu, é a pessoa com todos esses rótulos que vai estar escrevendo, mesmo que seja para contar sobre uma tradição natalina na Alemanha. O que escrevo, na verdade, é e sempre vai ser um reflexo de quem eu sou e isso vai estar nas linhas ou nas entrelinhas. Mas não quero enganar ninguém: este é o pacote completo. Eu sou capaz de respeitar as diferenças, ser amiga, rir junto, desde que as suas crenças e simpatias não firam os direitos civis alheios. Então, se quiser me seguir, já sabe agora com quem está falando. No bom sentido.

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comentários

Comentários (12)

  • Gean diz: 10 de dezembro de 2015

    Deste a cara a tapa pelo menos … quero ver o grupo RBS, um dia, dar vazão a uma moral cristã e conservadora … heehehe … todos são iguais a você na grande mídia, só não assumem seu esquerdismo …

    Uma pergunta “boba”, que faço a todo abortista: – Se a MÃE de um abortista decidisse que não deveria ter um filho e lhe assassinasse através do aborto ?? nem estaria aqui, em primeiro lugar … não é estranho pensar nisso ??

    Falas em argumentos, esta pergunta é o melhor argumento contra o aborto, pense bem !!!

    Incrível como o aborto e o ateísmo caminham de mãos dadas, a falta da moral cristã está destruindo o mundo …

  • Gean diz: 10 de dezembro de 2015

    Não encontro bondade em matar um ser indefeso, encontro sim, uma maneira de provocar eugenia, controle social e um caminho antidemocrático.

    Sem criacionismo, defender a vida é obedecer a lei natural.

    A bondade do ateu, acredito, me corrija se estiver enganado, deve partir do princípio que isto lhe trará de volta algo bom … a bondade do cristão, por outro lado, está baseado em faze-la por respeito e temor a Deus, por isso não se espera algo em troca, pelo menos não nesta vida.

    Mas tudo bem, fazer o bem sempre é bom .. sendo ateu, cristão ou muçulmano …. mas sigo cético quanto a validade do aborto, para mim é um erro e não encontro objetivo para esta prática.

    Mas é por aí, o debate é muito importante …

  • Alex Leo diz: 10 de dezembro de 2015

    Cara Ivana Bel,

    Ao ler o seu texto, no qual, em dado momento, a senhora afirma que “defendo o aborto”, vieram-me à mente as situações, previstas na legislação, que autorizam a prática de aborto, quais sejam: em caso de estupro e, também, quando há risco de morte para a mãe; e, mais recentemente, o STF autorizou o aborto de feto anencefá-lo. Diante dessas circunstâncias, indago: a senhora é favorável ao aborto em quais situações? Agradeço a oportunidade.

    Alex Leo
    Curitiba/PR

  • felipe diz: 10 de dezembro de 2015

    Ta explicado porque eu te sigo desde que conheci seu blog! :) Parabens pelo sincericídio. De vez em quando tmb me pego gritando as mesmas coisas em pensament. E só pra o Gean aí em cima, eu digo: sou cristão, sou totalmente a favor do aborto e acho que a moral cristã é que está acabando com o mundo (leia o livro do Weber).

  • Sandra Unbehaum diz: 11 de dezembro de 2015

    Amei o texto! Sou Alemoa do Paraná e me identifiquei demais com tuas reflexões!! Um abraço.

  • Carlos diz: 11 de dezembro de 2015

    Quando você comentou sobre “as histórias compartilhadas nas redes sociais de meninos e meninas negras e muito pobres que chegaram a universidade e viram doutores estudando com livros que a mãe achou no lixo”, eu sempre me lembro que existe aquela metáfora sobre a jabuticabeira. Existem dois tipos de pessoas, as que à vêm como um árvore que dá muita sujeira, e a que à vê como uma árvore que dá frutos deliciosos.

    Entendi, compreendo e apoio aquele parágrafo, só acredito que a visão que muitas pessoas tentam passar para quem se encontra nesse abismo social é: “sim, é possível, não desista”, e isso instiga e provoca quem está “conformado” com sua posição atual. O caso dos meninos que estudaram com livros que a mãe achou no lixo são meninos que quando eram jovens, foram apoiados pelos seus pais, eles acreditaram que poderiam fazer com que seus filhos saíssem daquele abismo estudando com o que tinham. Nem todas crianças carentes têm a possibilidade de estudar, muitas vezes precisam sair da escola, trabalhar na sinaleira e acabam abandonando a ideia de que algum dia possam melhorar de vida. Essas mães que recolheram livros no lixo, certamente pensaram e incentivaram seus filhos, não tiraram eles da escola, motivaram-os para que ficassem preparados para uma faculdade, mestrado ou doutorado.
    O abismo social tem um poder muito grande sobre os jovens, adolescentes porque são conquistados pelas pessoas que os rodeiam, etc. Eu compartilho, escrevo mensagens motivacionais sobre esses garotos e os elogios pela sua persistência, garra e disciplina. Estão colhendo o que plantaram lá trás, quando decidiram serem “heróis” para a sua família.
    Infelizmente, vivemos épocas que muitas pessoas tem quase que se ajoelhar e pedir por favor, para conseguirem o mesmo que outras conseguiram pelo telefone..acho isso um absurdo, mas é coisa que dificilmente mudará, infelizmente…

    Sobre o bolsa família, você está certa e ponto. Tirou muitas pessoas da miséria e da fome, muitos dos que reclamam (em especial, os “umbiguistas”), não sabem como é dormir com fome, trabalhar com fome e dizer “não” a um filho com fome, e ter que dividir um ovo em uma família. Defendo, e sempre defenderei o bolsa família, os “umbiguistas” adoram rotular pessoas como eu, e você, isso não vai mudar, infelizmente. Mas ok, que morram com seu elevado ego.

    Sobre os rótulos, li a alguns dias atrás um texto excelente que foi redigido por um amigo, que vou tentar parafrasear aqui: Você tem que ter opinião sobre tudo. Sobre todos. Se você não tem opinião, é desinformado, se você tem opinião sobre algo e ela vai de oposição a sociedade em geral (contexto inserido), você é massivamente criticado por suas escolhas, e saiba que será fortemente rotulado como “cego” e “burro” (vide exemplo do bolsa família). Por muitas vezes, deixei de participar sobre de conversa de amigos que envolviam assuntos polêmicos e controversos, como porte de armas, por não ter opinião sobre determinado assunto e quando por muitas vezes, julguei mais inteligente me calar, ao falar abobrinhas. Hoje, sei que fiz o certo, e continuo sem opinião sobre certos assuntos, não me manifesto, apenas ouço e tento assimilar a opinião com o problema. Não tenho vergonha de dizer que não tenho opinião formada (até porque formar opinião sobre algo e deixar ela imutável é, e pra mim sempre será, um tiro no pé), e que prefiro me calar, acho que muitos deveriam fazer isso antes de ir no “mural público de lamentações e chorrumelas” (mais conhecido como facebook), explanar e tentar ser doutrinador de determinada ideia ou ideal.

    Ivana, adoro seus textos, acredito que você escreve tem uma percepção ótima sobre os assuntos, se me expressei mal sobre algo, me avise, quero apenas expor e explicar o que penso e a maneira com que vejo as coisas.

  • Bruno diz: 14 de dezembro de 2015

    Nada contra a pessoa ter suas convicções e defende-las. A grande questão é, e quem defende e expõe opiniões contrárias às suas, mesmo sendo opiniões consideradas mais conservadoras? Digo isso por que vejo muita gente que se diz progressista, arrotando que as opiniões devem ser respeitadas, mas na prática, vejo que devem ser respeitadas desde que não sejam diferentes das suas. Nesse blog mesmo, já descordei de algumas opiniões sobre aborto, e tive alguns comentários não publicados.

  • Bruno diz: 14 de dezembro de 2015

    Pelo contrário Ivana, em meus comentários nunca tenho tais atitudes, que inclusive abomino. Foi em um dos meus comentários aonde elencava razões pelas quais era contra a liberação indiscriminada do aborto. Alguns foram publicados, mas um terceiro e quarto não o foram. Nunca entendi o porque. De qualquer forma, fica a mensagem de que até mesmo as pessoas com idéias contrárias às suas merecem o direito à suas próprias opiniões.

  • Diego diz: 21 de janeiro de 2016

    Tirando a parte do esquerdismo, concordo em gênero, número e grau.
    Acho que a história se encarregou de mostrar que o esquerdismo não funciona muito bem (América Latina).

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