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Um Natal sem cartões e a vida que segue o ritmo dos tiques pintados de azul

15 de dezembro de 2015 1
Esses são do ano passado. Esse ano, não vai ter

Esses são do ano passado. Esse ano, não vai ter

Acho que no fundo tenho bem mais de 40 anos. Aceitei, enfim, que gosto de coisas de antigamente. Sinto falta do cheiro da casa de madeira limpa e com o assoalho encerado. Sinto falta dos tempos em que a vizinhança trocava alface por cenoura, queijinho branco por mussi de banana. De quando se mandava um eletrodoméstico para o conserto. Sinto muita falta de quando o correio trazia cartas e não só contas e pacotes de sites chineses. Sinto tanta falta que tenho a mania de cultivar esse hábito de escrever. Ou tinha.

Na minha adolescência não existia celular, não tinha WhatsApp, não tinha Facebook. Tinha telefone de disco com cadeado para tentar frear as horas de conversa com as amigas com quem se tinha passado a manhã toda na escola. Mas existiam as cartas. Muitas delas ainda devem estar em algum calabouço da casa da minha mãe, encaixotadas, mofadas e com os corações de tinta colorida desbotando junto com a memória dos remetentes.

Eu tive amigos de correspondência em diferentes lugares do Brasil: mais ou menos o equivalente moderno de adicionar no Facebook quem a gente não conhece e dar trela para a pessoa desconhecida, mas em uma versão muito mais emocionante. A chegada do carteiro era um acontecimento diário. Ou chegar da aula e encontrar as cartas com a tinta borrada de perfume de pretendentes ou de amigas distantes (na época, isso queria dizer de outro bairro!), não tinha preço. Troquei cartas até com o meu marido que, então e por muito tempo depois disso, foi somente meu amigo.

Nos últimos anos, escrevi muitas cartas para as minhas sobrinhas só para imaginar a cara delas ao receber um envelope pelo correio, mesmo sem fazer ideia se elas sentiram um pouco do que eu sentia na minha adolescência. Os anos passam e hoje em vez de adesivos, mando caretas com efeitos pelo Snapchat (ivisebel, se quiser me seguir, sem as caretas!). Ainda mando postais sempre que posso. Mando dezenas de cartões de Natal todos os anos. Mandava, na verdade. Esse deve ser um hábito tão esquecido que, no ano passado, virei notícia de jornal, só por mandar cartões…

Esse texto todo é, por fim, uma divagação para tentar preencher um vazio. Depois de muitos natais, esse é o primeiro em que não vou mandar nada para ninguém. Nem para minha mãe. Escolhi umas desculpas para me convencer: o ano foi corrido, to escrevendo uma tese de doutorado com o prazo apertado, o correio internacional não é exatamente barato. Mas nenhuma delas me convenceu ainda.

Acho que o que me demove é simplesmente não saber o que dizer. Sempre escrevi mensagens pessoais em cada cartão. Sempre escolhi as imagens que combinassem com fulano ou sicrano. Recebi algumas respostas pelo Facebook e um ou dois cartões na minha caixa: curiosamente, de gente que nem sempre esteve na minha agenda de endereços. Não me entenda mal: nunca escrevi esperando retorno ou festinhas de agradecimento. Sempre escrevi como uma forma de estar presente na vida de quem está longe: mas talvez eu não esteja mais tão presente assim.

Em tempos de imediatismo, de respostas exigidas na velocidade de dois tiques em azul, os cartões podem ser coisa inconveniente, que se tem pena de jogar fora, mas não se sabe, de verdade, o que fazer com eles. Este ano não vou criar mais problemas: vou publicar um cartão digital e esperar que meus amigos curtam. Vou tentar entrar na moda, ser mais abstrata, prática e, quem sabe, um pouco mais “moderna”. Mas lá no fundo, ainda vou pensar nos selos lambidos, nos envelopes escritos à mão, um a um, e em cada amigo da minha lista de endereços e aqueles que não tiveram tempo de fazer parte dela. A caneta dos afetos não borra com o passar dos anos.

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comentários

Comentários (1)

  • Bruno diz: 16 de dezembro de 2015

    É uma pena que o cotidiano da vida acabe nos forçando a abandonar esses hábitos. Vivemos tempos de mudanças muito rápidas, e infelizmente, muitas coisas se perderam no “passado”.

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