Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

O grande problema do Brasil não é a corrupção, é o jeitinho

18 de fevereiro de 2016 5
Um grafite em Berlim ajuda a ilustrar: somos os culpados pela corrupção porque somos todos corruptos

Um grafite em Berlim ajuda a ilustrar: somos os culpados pela corrupção porque somos todos corruptos

A gente só pensa em corrupção quando as cifras chegam a números que não conseguimos traduzir em valores reais: estão tão distantes do quanto ganharemos em uma vida inteira de trabalho que deixam de mensurar coisas palpáveis e se tornam apenas números. Mas as cifras milionárias nascem da nossa aceitação e da soma dos centavos de deslizes que autorizamos em nosso dia-a-dia e passamos a achar normal.

Eu sempre achei que o brasileiro fosse o cara mais esperto do mundo por conta do jogo de cintura, da criatividade e, sobretudo, do jeitinho. Depois de sete anos na Alemanha, olhando o país com um pouco mais de frieza e maturidade, percebo que a principal causa de todas as mazelas do Brasil somos nós mesmos. E falo isso na primeira pessoa do plural não por força do discurso: me incluo nessa horda de gente que critica, mas corrompe.

Aqui na Alemanha o tal do jeitinho é um cidadão morto e enterrado. Aquilo que faz o país funcionar não é apenas educação, saúde, infraestrutura. Começa antes disso: começa com leis que valem para todo mundo, um amontoado burocrático necessário para viver e do qual ninguém se livra. Meu marido costuma dizer que, na Alemanha, ninguém precisa pensar porque alguém já pensou por você. Acabei por concordar com ele.

Por aqui existe uma regra para tudo e a regra vale para ricos e pobres (aliás, a diferença entre o que ganham uns e outros não é o absurdo que achamos normal no Brasil). É como se a vida seguisse um manual, uma receita. Viver aqui é seguir ao pé da letra a receita do bolo e saber que o resultado vai ser o esperado: pode não ter surpresas, pode não ter emoções, mas a calmaria das coisas certas torna tudo muito mais fácil.

Voltemos as corrupções e a minha confissão. Precisei, faz uns anos, de um documento que levava duas semanas para ficar pronto, mas minha passagem pelo Brasil, na época, era mais curta que isso. Tive que pedir ajuda para alguém que contou que conhecia um fulano que trabalhava no setor que emitia o documento. Essa pessoa, sentada em sua mesa, deu três cliques no mouse e meu documento ficou pronto na hora. Levei um presentinho de agradecimento, peguei o papel e sai com a consciência pesada: me envergonho disso, mas corrompi e me beneficiei da corrupção.

Mas o que tem a ver a vida na Alemanha com tudo isso!? Por aqui, se fosse possível fazer o papel no mesmo dia, todo mundo teria direito a isso, mesmo que tivesse que pagar uma taxa extra pela urgência. Caso o tempo não fosse um limitador, é provável que o tal do papel levasse 15 dias para ficar pronto também, mas chegaria na minha casa, pelo correio, sem custos. Por aqui, a pressa é sinônimo de incompetência e da falta de planejamento e quase tudo o que é feito de última hora custa mais caro. Mas o mais importante, por aqui, o tal do jeitinho não teria vez e os prazos para mim ou para qualquer outra pessoa vão ser os mesmos, sem a ajuda do amigo que conhece o primo do cunhado do cara que vai dar um jeito.

Não quer dizer que não exista corrupção na Alemanha. Existe sim. Mas aqui ela é investigada e punida com severidade. Um presidente foi acusado de se beneficiar de sua posição para receber um empréstimo facilitado de uma empresa particular para construir uma casa. Não, ele não ganhou a casa e nem o dinheiro (era emprestado!), mas caiu da mesma forma. Um ministro plagiou parte de sua tese de doutorado: foi demitido e escolheu viver em exílio depois do vexame. Um prefeito de uma cidade importante descumpriu prazos, orçamentos e contratos de uma grande obra: foi forçado a renunciar. No Brasil, o presidente da câmara tem contas comprovadas na Suíça e ninguém mais fala no assunto, só para citar um único exemplo. No fundo, no Brasil, somos todos corruptos e na verdade esperamos que os políticos – que alcançaram o sucesso nessa arte – o sejam em maior escala.

A corrupção, em essência, nada mais é do que um amontoado praticamente infinito desses jeitinhos e consideramos sua existência normal. Nos vangloriamos dela. A mesma pessoa que é estúpida o bastante para achar que bater panela na sacada vai mudar o mundo é a primeira a empinar o nariz e vomitar um “você sabe com quem está falando?”. É quem se beneficia do nepotismo cruzado – eu emprego a sua filha e você dá a vaga para minha cunhada –, que fura a fila, que confere o troco e não devolve se recebeu a mais, que estaciona na vaga de idosos, que quer sair do trabalho e “faz acordo” para ser demitido e receber o Fundo de Garantia e o seguro desemprego, que acha que distribuição social de recursos é “alimentar vagabundo”, mas sonega impostos.

O nosso pior lado, como brasileiros, é que nos orgulhamos de sempre encontrar uma solução que nos beneficie, mesmo que ela passe por caminhos obscuros e fira o direito de outrem. Contamos felizes que conseguimos no dia o que todos os outros esperaram semanas. Levar vantagem sobre o outro parece provocar uma onda de satisfação: nos faz sentir importantes, poderosos em vez de ser motivo de vergonha.  É a corrupção das migalhas, mas é ela que nos prepara para aceitar as grandes como algo natural e pior, sem perceber que a culpa é inteiramente nossa.

Comente

comentários

Comentários (5)

  • Carlos Bridi diz: 19 de fevereiro de 2016

    Olá Ivana,

    Concordo contigo sobre os pontos da corrupção, acho que o povo gosta de colocar os braços atrás da cabeça, sentar-se com os pés para o alto e dizer: “Eles também fazem, porque eu não posso?”. No final, sim, acaba sendo uma bola de neve.

    O maior problema, e a grande diferença das grandes cifras, são as pessoas que são afetadas com isso. O Fantástico tem um quadro “Cadê o dinheiro que tava aqui?”, que mostra a corrupção somente no âmbito político e grande parte dela afeta comunidades carentes que precisam do básico, água, esgoto e saneamento. Sem contar às vezes que dinheiro é surrupiado da merenda escolar e da construção de novas escolas, transporte de alunos e por ai vai.

    Não estou querendo “compensar” de alguma forma as nossas corrupções com as dos políticos. Jamais. Acredito sim que somos culpados, e que toda a burocracia (inclusive aquela sua do papel que levaria 15 dias) é criada para conter os “jeitinhos” e os “espertinhos”.

    Tive um caso recente em que o motor do meu carro estava muito danificado e eu tinha a opção de fazer o motor, me custaria caro, mas eu teria algo bom novamente em mãos. Quando cheguei na mecânica, o mecânico falou: “Quer que eu faça para vender ou para ficar?” (se fizesse para vender ele faria pela metade – taparia o sol com a peneira), percebes? A corrupção chegou a nível de normalidade, que nós nem reconhecemos mais o senso de caráter, confiança em alguém que efetua o serviço para você.
    Obviamente, fiz o motor completo e com qualidade (em outro mecânico), me custou uma nota preta, mas pelo menos dormi tranquilo a noite.

    Infelizmente, essa geração de “espertinhos” sempre vai existir, o que podemos fazer é criar uma geração com novos valores, ou ensinar a nossa.

    E agora, voltando a política, por muitas vezes, acho que o povo tem o governo que merece.

  • Sidn ei Peron diz: 16 de março de 2016

    Parabéns Ivana, precisamos acabar com essa valorização da mídia em torno do tal jeitinho brasileiro. Cada vez que vejo uma reportagem enaltecendo este comportamento, sinto uma enorme vergonha. Aqui no Brasil, quem cumpre a lei e as normas é considerado trouxa, burro e inferior aos demais. Cansei de ouvir de pessoas muito esclarecidas a expressão “você é muito certinho”. Como se isto fosse um defeito e não uma virtude. Este país só será sério quando tiver uma população honesta e cumpridora das leis.

  • Julio Schmitt diz: 16 de março de 2016

    Bem, é isto mesmo.

    E não limitado a questões com impacto econômico. É por toda parte que as pessoas estão encontrando “justificativa” para tirar / levar alguma vantagem, por que “pode” furar a fila, por que “pode” ainda passar pelo sinal já vermelho, por que “pode” chegar atrasado que os outros a esperem etc. etc.

    Vejo relações com a educação, desde quase o berço: o próprio filho / a própria filha sempre é “tão especial”, quase um “astro no céu”. E alguém tão especial, como poderia ser tratado (ou se comportar) como um “comum qualquer”. Até levando a resultados absurdos do “Eu mereço tratamento diferenciado” quando a “criatividade florece”, tais como, merecimento pelo status social, pelo cargo ocupado pelo pai/pela mãe, pela cor da pele, pelas origens humildes, pela profissão, pelo local de moradia, etc. O resultado são milhões e milhões de “umbigo-centricos”: o universo orbitando ao redor do próprio umbigo. O contraste extremo talvez: a filosofia oriental como é encontrada, por exemplo, no Japão e na China, seguindo pela ideia básica que o indivíduo é um elemento (pequeno) na sociedade.

    E num dia ouvi a seguinte réplica para: “você sabe com quem está falando?” – “Que então você acha que é?

  • Fabrício José Barbosa diz: 25 de março de 2016

    Porque não acredito naquela justificativa furada de que os políticos são reflexos do povo que o elegeu?

    “Pergunta (jornalista Cláudia Wallin): O que é preciso para que países como o Brasil se tornem sociedades menos corruptas? Resposta (Göran Lambertz, Juiz do STF da Suécia): É necessário que os políticos assumam a sua responsabilidade diante da sociedade e o dever de dar bons exemplos, para que possam ter a confiança dos cidadãos e fazer a sua parte na criação de uma sociedade honesta. Portanto, penso que países como o Brasil e muitos outros necessitam de líderes que promovam constantemente a honestidade, e que deem bons exemplos. Líderes que mostrem que não estão em busca de luxo para si, líderes que nunca aceitem suborno, líderes que deplorem oficialmente atos indignos. É preciso criar um movimento sério contra a corrupção, e deve ser um movimento de tolerância zero. Todos precisam começar do zero, e ter tolerância zero contra a desonestidade. E todos os que detêm posições oficiais no poder devem dar o bom exemplo.” (Fonte: WALLIN, Cláudia. Suécia: Um país sem excelências e mordomias. Geração Editorial. São Paulo. 2014.)

    Por isso a culpa não é do povo! Se fosse assim a corrupção nunca teria fim. Jamais haverá uma “mudança mágica simultânea” de milhões de pessoas que votarão em bons políticos. Só haverá mudança quando o povo mudar. E quem muda o povo? Os políticos com seus exemplos e ações. Simples assim!

  • Lauro diz: 5 de abril de 2016

    Fabrício, concordo com você! Me desculpe Ivana, mas atribuir a corrupção ao povo é dizer que o Brasil não tem solução.
    Acho que reconhecer a culpa do povo e dizer que primeiro o povo deve se corrigir não leva a lugar algum, outrossim, mudar o povo primeiro nunca existiu na história da humanidade. Nos EUA foram as leis contra a corrupção (voltadas para a administração pública)que trouxeram seriedade ao país, na revolução francesa executaram todos os nobres da época, porque estavam ligados ao poder, logo corrupção dos poderosos. Então, para mim parece óbvio e funcional que a mudança deve ser promovida inicialmente no topo da sociedade para depois ir para a base, lembrando que as penas criminais também possuem efeito didático que reflete na sociedade. Um figurão sendo punido gera muito mais efeito didático do que um figurinha; quando se pune um político, o ladrão de galinha pensa: “se ele que tem tanto poder pagou pelo crime, o que pode acontecer comigo que não sou poderoso, é melhor andar na linha”. Uma das causas das infrações de toda ordem no país é a certeza da impunidade, e é preciso mudar esse cenário, começando pelos poderosos. Assim como as grandes empresas recebem incentivos governamentais porque geram reflexos na economia com seus empregos indiretos, os grandes corruptos devem ser punidos para gerar reflexos na seara criminal, com suas punições indiretas, deve-se desmantelar essas “empresas do crime”.

Envie seu Comentário