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Prefeitura de Blumenau não tem condições de decidir sozinha sobre o transporte coletivo

25 de fevereiro de 2016 7
Com o piso rebaixado, os ônibus não precisam de elevadores para cadeirantes

Com o piso rebaixado, os ônibus não precisam de elevadores para cadeirantes

Antes que o discurso vira-lata de dizer “você não está aqui e por isso não sabe do que está falando” comece a aparecer, preciso explicar uma coisa. Existem duas vantagens imediatas de morar fora do país: a primeira, é passar a enxergar o nosso país de origem, nosso Estado, nossa cidade de forma distanciada e isso permite uma visão ampliada, do todo, desconectada dos calores políticos e ideológicos. A segunda, é entender que a maneira como estamos acostumados a resolver um problema ou a fazer as coisas não é a única e nem, necessariamente, a melhor.

Dito isso, justifico o título desse post. Não estou julgando a competência de nenhum profissional do poder público: há muita gente incompetente, de fato. Mas há igualmente gente qualificada e interessada em fazer com que a cidade funcione. O problema é que simplesmente abrir uma licitação para contratar uma empresa  que vai operar o transporte coletivo da cidade por muitos anos não é o bastante. É uma solução simplista, burra e que só fará aumentar os problemas a longo prazo.

A situação é tão caótica nas últimas semanas que, aparentemente, não teria como ficar pior. Mas isso não é verdade. Sem planejamento, o caos tende a aumentar. Blumenau não pode se contentar com respostas simples e a nova licitação para o transporte tem que ser parte de um projeto maior de mobilidade urbana, que contemple mudanças fundamentais na cultura da cidade. E é isso que a prefeitura não tem condições de fazer sozinha e já deixo um exemplo.

Lembro do depoimento de alguém reivindicando que, com a nova licitação, todos os ônibus passem a ter elevadores para cadeirantes. A causa é justíssima, tem que ter 100% de acessibilidade sim! Mas o pedido é limitado ao apontar uma única solução para o transporte de pessoas com mobilidade reduzida. Aqui na Alemanha, por exemplo, não existem os tais elevadores. Os ônibus têm o piso rebaixado, se inclinam horizontalmente junto aos pontos e uma rampa (mecânica ou manual, em muitos casos) é usada para permitir a entrada do cadeirante. Ou seja: é uma solução muito mais simples, muito mais barata e com muito menos risco de falhar (elevadores quebram frequentemente) e que não foi vislumbrada porque provavelmente não é conhecida. Os ônibus mais baixos facilitam o acesso de todo mundo, incluindo idosos com andadores, carrinhos de bebê e bicicletas.

A falta de conhecer novas opções se reflete em toda a estrutura de transporte, incluindo ai a possibilidade de usar veículos que não sejam apenas ônibus, de combinar formas alternativas de deslocamento, de exigir todas essas melhorias (que não são nenhuma novidade, de fato!) na licitação. Quem não sabe que isso existe, não vai pedir, não vai prever, não vai pensar além do seu umbigo e esse é o grande problema. A licitação precisa ser preparada com a ajuda de uma consultoria técnica especializada e com experiência em situações similares, de fora do país até, e que esteja habituada a traçar planos como o que Blumenau precisa e que por bairrismo, negligência ou mesmo um jogo de cartas marcadas, está ignorando.

Acompanhando as discussões na mídia e nas redes sociais, até agora, me parece que as entidades representativas – sejam patronais ou laborais – tem ignorado de forma preocupante o processo e, coniventes, parecem dispostas a aceitar mais do mesmo. Por pura inércia, estão deixando escapar a chance de tomar as rédeas da cidade e dirigir Blumenau rumo ao desenvolvimento sustentável. As mesmas entidades que publicam cartas de repúdio a corrupção federal (justas, de fato!), não choraram o sepultamento da CPI que pretendia investigar o porquê uma cidade desse porte ficou sem o direito mais essencial de todos: o de ir e vir, com o colapso do consórcio Siga. Essas coisas não acontecem de uma hora pra outra e, agora, não saberemos o porquê aconteceram. Ao mesmo tempo que essas entidades propagam sua desconfiança política, estão deixando na mão da prefeitura uma decisão que compromete a manutenção de empregos e a sobrevivência de seus próprios negócios.

Os patrões, que obviamente não usam ônibus, parecem não ter percebido que a qualidade do transporte e da mobilidade urbana como um todo se reflete diretamente na motivação dos seus funcionários, nas possibilidades de contratação, na qualidade de vida e, por consequência, na produtividade. E se reflete mesmo no cotidiano de quem anda no ar condicionado do carro importado: quanto melhor o transporte coletivo, mais gente vai aderir a essa forma de deslocamento, reduzindo congestionamentos, melhorando a qualidade do ar da cidade, evitando que se passe meses discutindo uma nova (e famigerada) ponte milionária para ligar um congestionamento ao outro.

A população não é a única grande interessada em tudo isso, mas é o elo mais fraco dessa corrente e precisa, nesse momento, contar com todas as entidades representativas. O showzinho de vereadores pegando ônibus uma vez na vida é uma forma de deboche para quem tem que fazer isso diariamente a fim de garantir a subsistência da família. Mas no fim das contas é ingenuidade pensar que só quem anda de ônibus está perdendo. A população tem reclamado, tem usado todas as tribunas disponíveis para reivindicar o que é seu de direito. Mas esse coro precisa engrossar e quem ficar em silêncio vai estar assinando um atestado de conivência, desserviço e burrice.

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comentários

Comentários (7)

  • Julio Schmitt diz: 25 de fevereiro de 2016

    Ivana:
    O pior (ou melhor) é que nem é só o nível rebaixado do ônibus e sua capacidade de reduzir ainda mais a diferença de nível pelo movimento de virar que ele consegue fazer. Não, o pior é que a calçada aqui e o nível do meio fio que, juntamente aos pontos de ônibus, poderiam ser mais elevados para facilitar, ao mesmo tempo que arredondado o canto superior apontando para a pista, para que o ônibus, ao se aproximar BEM, não chega a danificar o pneu. Em vez disto, se vê os ônibus ficando longe até do meio fio e entrar se transforma em “prova semi-atlética” de escalada. Mas por que a calçada não é ajustada, por que os ônibus não encostam direito? Porque ninguém dá bola “para esses coitados que tem que andar de ônibus”. Os motoristas, inclusive, dirigindo com arrancadas e frenagens bruscas, entradas em curvas com excesso de velocidade: muito caminhão transportando animais é levado com mais cuidado e mais atenção. Mas é só culpa dos motoristas? Certamente eles que são os “executantes” – mas a determinação de horários e roteiros “fantasia” que mal daria para cumprir com carro de passeio neste trânsito de Blumenau vejo como motivo fundamental. Deixa os usuários em risco, deixa motoristas e cobradores ficando doentes por causa do estresse permanente e assim vai. O sistema está podre desde a raiz – e ninguém dando bola para se conseguir realmente melhorias.

  • Débora F. diz: 25 de fevereiro de 2016

    Excelente texto! E, com certeza, quem compreendeu concorda. Já passou da hora de haver planejamento inteligente e progresso por aqui, assim como já passou da hora de todos entenderem seu papel e se importar. Por uma cidade com presente e futuro, vaaamos!!!

  • Bernadete Kertzendorff diz: 25 de fevereiro de 2016

    Parabéns pelo texto, como sempre, muito bom. Espero que os blumenauenses em geral o leiam e aprendam algo com ele.

  • Antonio diz: 26 de fevereiro de 2016

    O Correto mesmo seria pedir consultoria, para uma cidade onde o transporte publico é impecavel, garanto que as soluções adotadas em uma cidade com transporte publico modelo, seriam inclusive mais baratas que muitas soluções adotadas.
    Não vieram pedir consultoria a Blumenau para prevenção de desastres? Por que não pedir ajuda de fora?

  • Ernandes Batista diz: 26 de fevereiro de 2016

    Texto mais que perfeito! Por 2 anos morei na Alemanha e é bem assim! Aqui podemos sim fazer o melhor, se todos os responsáveis abrirem mãos de seus direitos umbilicais, lucros exorbitantes e a buRRocracia das leis absurdas toda a população ganha e o lucro se reverte para a cidade e empresas.

  • valerio diz: 26 de fevereiro de 2016

    Parabens! É bem isto que acontece. Um estranho silencio por todas as entidades representativas da cidade, orgãos de comunicação que nem mencionam mais o problema. Acostumados a fazer barrulho quando o problema é dos outros, agora com o problema no colo, um silencio total. O MP fazendo cobrança pela imprensa. Passe Livre, cadê?

  • Bruno diz: 26 de fevereiro de 2016

    Concordo totalmente com o texto. Da forma como está sendo feita, essa troca de conórcio nada mais é do que pavimentação de trilho de vaca.

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